18 de mai. de 2014

A Língua Humana

Nesse fim de semana, assisti a dois videos que são parte de uma trilogia (não consegui achar na internet o terceiro) chamada "The Human Language Series".

As duas primeiras partes estão disponíveis no Youtube:





Os videos foram bem mais "profundos" do que eu esperava, e foram legais porque usaram como referência várias coisas sobre as quais eu tenho lido ultimamente num certo livro (Fromkin et al., An Introduction to Language, 9th edition [isso deve ser suficiente para achá-lo xP]) e nos artigos que eventualmente acabo achando aleatoriamente.

Eu achei que fazia sentido fazer alguns comentários. Para referenciar alguma parte dos videos, usarei o formato "[parte.minutos]". Assim, por exemplo, "[1.10]" significa "Parte 1, aos 10minutos". Quando eu quiser ser mais específico, usarei mais um ponto para denotar os segundos. Por exemplo "[1.10.30]" significará "Parte 1, aos 10minutos e 30 segundos". Comecemos então...

Em [1.10], mais ou menos, se fala sobre "o que é uma palavra", e o video começa a discutir sobre como a criança aprende que, por exemplo, "árvore" é "aquela coisa grande que fica do lado de fora da casa" e que essa palavra pode ser usada para todas as árvores (e não somente para aquela em específico). Se discute também sobre como a criança aprende a "separar" palavras numa frase. Isso é interessante para mim porque o meu TCC foi relacionado a expressões multipalavras e porque através dos tempos eu acabei descobrindo que às vezes alguns conjuntos de palavras ficam tão unidos um ao outro que acabam se tornando uma palavra só.

Quer exemplo? [na real, eu não tenho nenhuma certeza do que vou dizer agora -- apesar de me parecer que a Wikipedia está a meu favor] As nossas conjugações de futuro! Antes, era possível em português dizer coisas como hei de comer algo. Alternativamente, se podia inverter o hei de comer e dizer comer hei algo. Não precisa ser gênio pra perceber que com o tempo o comer hei virou comerei, que o comer hás virou comerás, e assim por diante. Para o leitor astuto que percebeu que a regra não funciona com os plurais havemos e haveis, basta dizer que eles eram muito mais usados numa forma alternativa hemos e heis (que, aliás, estão presentes no espanhol). O motivo dos dois terem virado uma palavra só? Uma reforma ortográfica! A reforma ortográfica fez com que as crianças passassem a aprender essas construções (antes "perifrásicas" -- ou seja, que usavam "perífrases", i.e., "palavrinhas", no caso, o hei) como se fossem uma coisa só -- e então passassem a pensar assim.

Por causa disso é que eu ficaria tri feliz se hoje se fizesse uma nova reforma através da qual o verbo ir, quando marcador de futuro (como em eu vou fazer, eu vou comer, ...), virasse parte do verbo principal (i.e., eu vofazer, eu vocomer). Também seria a favor da idéia de transformar a construção deixa eu em xo e fazê-la ser parte do verbo principal: deixa eu dar uma olhada viraria xodar uma olhada, por exemplo.

Voltando aos videos... em [1.17] se pergunta: Existem conceitos que nós não inventamos porque nascemos já os sabendo?. Apesar de eu não gostar da idéia bizarra de que tenhamos um "órgão" separado para a língua, eu acho que cada vez mais concordo com a idéia de que, sim, já nasçamos sabendo algumas coisas (ou pelo menos nasçamos com uma forte tendência a seguir alguns caminhos em vez de outros). O grande argumento é bastante evolucionista: todos os animais nascem com alguns "instintos". Por que conosco deveria ser diferente?

Alguns minutos adiante [1.21], um cara começa a falar sobre o grande número de possíveis sentenças que poderíamos construir se tivéssemos um vocabulário de apenas 10 palavras. O argumento dele é meio falacioso (convenhamos que as regras que regem as nossas frases cortam affuuuu a possibilidade de tantas sentenças diferentes -- alguns verbos exigem preposições, alguns pronomes exigem algumas flexões específicas dos verbos, ...), mas me remeteu novamente ao que eu aprendi durante meu TCC: apesar da grande quantidade de palavras que sabemos, algumas construções vêm normalmente "prontas" nas nossas cabeças, e usá-las normalmente funciona como "bengalas lingüísticas", i.e., nos dá "conforto" pra usar esse tempo em que as estamos proferindo para pensar naquilo que vem adiante. Assim, expressões como quem me dera não somente são fixas (ninguém diz quem lhe dera, desejando o bem a outrem) como também demoram o suficiente para que possamos já ir pensando em como dizer o que vai vir logo na frente.

Para terminar com o primeiro video, eu acho que tem um quote que é o mais interessante dele inteiro:

Now... nobody speaks a "primitive language". All languages are extremely sophisticated.
Agora... ninguém fala uma "língua primitiva". Todas as línguas são extremamente sofisticadas. (tradução minha, livre)

O segundo video diz (em algum momento -- não consegui achar =/ ) que essa "descoberta" foi feita por um cara chamado Chaussure, um dos "pais da lingüística moderna". Mas eu ainda não li direito sobre ele... então não tenho muito o que dizer =/

Indo para o segundo video, acho que a primeira parte que me interessa está lá pelos [2.17]. Eles falam sobre como analogias "não funcionam" para explicar a aquisição de linguagem por crianças, dando um clássico exemplo (estou chamando de clássico porque foi justamente o mesmo exemplo que o livro que estou lendo deu) sobre como uma certa construção em inglês funciona com um verbo e não funciona com outro. Eu acho (minha opinião) que essa conclusão é meio arbitrária: ela só mostra que há casos em que as analogias não funcionam, e que a criança precisa, normalmente, além de aprender as analogias, aprender (decorar mesmo!) em quais verbos elas funcionam e em quais verbos elas não funcionam. Afinal, claramente, é por analogias que crianças que ainda estão aprendendo as formas irregulares dos verbos concluem que o pretérito perfeito do verbo trazer é trazi, em vez de trouxe, ou que o pretérito perfeito do verbo fazer é fazi, em vez de fiz.

Por outro lado, aos [2.31] eles falam que as crianças não testam todas as possibilidades (eles são biased learners, i.e., aprendedores enviezados, numa tradução literal xP) na hora de aprender as regras de uma língua, mas só testam algumas coisas que fazem sentido para todos os seres humanos. Isso é um bom argumento de que realmente crianças talvez tenham uma capacidade "inata" de aprender língua. Reforçando esse argumento, lá por [2.50] se comenta que há erros que crianças nunca cometem... e talvez isso seja um bom argumento "contra" as analogias (i.e., talvez não seja só por analogias que as crianças aprendam, mas também por terem inatas algumas regras).

Lá pelos [2.45] se começa a dizer que todas as línguas têm um monte de coisas: verbos, substantivos, marcadores de pergunta, plurais, etc. Eu acho meio "forte" fazer essas declarações sem se conhecer realmente todas as línguas; mas isso é algo em que hoje se acredita e que contribui bastante para a força do argumento de que talvez a língua seja algo inato ao ser humano.

Enfim... um dos assuntos que mais me interessam hoje é justamente a aquisição de linguagem. Achei que fazia sentido fazer esses comentários. Tomara que tenha sido útil pra alguém =)

R$

1 de mai. de 2014

Uma Introdução à Lingüística

Há algum tempo, já, tenho lido um livro de introdução a lingüística. O livro me pareceu bem conhecido: "An Introduction to Language", de Victoria Fromkin, Robert Rodman e Nina Hyams (estou lendo a 9ª edição, mas achei rapidamente a 7ª edição aqui, e uma "versão internacional" da 9ª aqui [pelo visto, essa versão não tem o capítulo sobre semântica =/]).

Normalmente, eu intercalo outras leituras aleatórias com cada capítulo (que em geral leio "numa sentada"), especialmente porque usualmente não tenho saco pra ficar lendo a mesma coisa durante muito tempo. Nos últimos dias, li o capítulo sobre Fonética e comecei o de Fonologia. Já passei pelo de Morfologia, de Sintaxe e de Semântica (a Pragmática é tratada em conjunto com a Semântica). Há tempos me perguntava várias coisas que agora cada vez mais têm ficado claras. Resolvi então fazer uma série de postagens nas quais devo explicar genericamente (bem de leve) o que aprendi em cada um desses tópicos. Nessa postagem introdutória, porém, quero pelo menos dar uma "pincelada" em todos eles. Como meus interesses são sobre Semântica e Aquisição de Linguagem, é possível que, depois de passar por todos os tópicos, eu faça postagens mais "aprofundadas" sobre esses assuntos. Meus objetivos, com isso, são os seguintes: (1) produzir conteúdo sobre o assunto em português [já que tenho a impressão de que o material na internet não é muito farto]; (2) usar o que eu produzir como "referência própria", i.e., poder voltar aqui e ler rapidamente sobre esses assuntos quando eu quiser "refrescar a memória".

Uma "Hierarquia Linguística"

Normalmente, quando se começa a tratar de linguística, a primeira coisa a se apresentar (foi a primeira coisa que me apresentaram, pelo menos) são as "camadas" através das quais as línguas são estudadas. Estou acostumado a ver imagens como as ao lado.

A idéia é mais ou menos a seguinte: as línguas são compostas de sons (ou fones), os quais são estudados pela Fonética (vou abstrair as línguas de sinais, mas em geral as teorias também se aplicam a elas -- porque, pelo que tenho lido, o "processamento cognitivo" de um falante é o mesmo realizado pelos usuários de línguas de sinais). Para cada língua, agrupamentos desses sons compõem fonemas (ficará mais claro na postagem sobre o assunto, quando eu começar a explicar explicitamente como esses agrupamentos ocorrem), os quais são estudados pela Fonologia. Os fonemas são então organizados e dão forma a palavras (ou pedaços de palavras, como o inter- em interestadual). A área que estuda que palavras podem se juntar a que outras palavras, e como algumas delas podem mudar de acordo com algumas características próprias suas (por exemplo, verbos mudam seu final conforme o tempo que se quer comunicar [presente, pretérito perfeito, futuro do pretérito, ...]) é a Morfologia.

Para cada língua, algumas restrições em como as frases devem ser organizadas são impostas. Por exemplo: em alemão, a segunda coisa de cada frase necessariamente precisa ser um verbo. Outro exemplo: enquanto em português, frases como O que vocês estão falando sobre? não são gramaticais, o inglês as aceita perfeitamente. O campo que estuda como essas regras se aplicam é a Sintaxe.

É importante notar que a sintaxe não se preocupa com o significado das palavras. Frases como O vento do duende vem de roxo quando pisca a inconsciência do javali são sintaticamente corretas, apesar de terem um significado bizarro. Quando o significado entra em cena, estamos falando de Semântica (para os leitores computeiros, os nomes dessas duas últimas áreas não deve ser nenhuma surpresa).

Por fim, existe um último campo que, dependendo da literatura, às vezes aparece dentro da Semântica e às vezes aparece fora: a Pragmática. Nela se estudam os motivos pelos quais frases como está frio aqui! são interpretadas como feche a janela! ou diminua a intensidade do ar-condicionado!; ou poderia me passar o sal? é interpretada como um pedido para que o sal seja passado [acho que tirei esses exemplos do próprio livro que eu to lendo, mas não consegui achar =/ ].

__

Além de tratar de todos esses assuntos, a Lingüística está interessada em como se dá a aquisição de linguagem, tanto da língua materna, por crianças [o que eles chamam de L1], quanto de outras línguas, por já adultos [o que eles chamam de L2]. Aqui, há espaço para muitas perguntas, relacionadas a várias outras áreas do conhecimentos. Por exemplo: que processos cognitivos estão relacionados ao assunto? Como a genética está relacionada? As interações entre seres humanos são afetadas quando na presença de uma criança (que está aprendendo a língua)? Como a língua influencia na sociedade? E de que forma a língua escrita influencia em tudo isso? ...

Não tratarei desses assuntos nessa série. Provavelmente, porque a aquisição de linguagem é um tópico sobre que me interesso muito, escreverei algo sobre o assunto no futuro. Aliás... eu ainda não esqueci que no fim do ano comecei a falar sobre expressões multipalavras. Ainda me interesso por elas: provavelmente aprenderei muito sobre elas quando me aprofundar em Semântica!

Bom... essa foi só uma introdução. Na próxima postagem, falarei de Fonética e Fonologia. Tomara que agrade xP

R$

12 de abr. de 2014

Coisas de engenheiro

Quem me conhece já deve ter me visto reclamando do quanto eu achei a cadeira de Engenharia de Software um lixo durante a faculdade. Eram infinitos diagramas e documentos que não pareciam levar a lugar algum e nem ajudar qualquer desenvolvedor a pensar no problema de escrever um software. A cadeira foi basicamente o semestre inteiro conhecendo diagramas (que também tivemos de efetivamente usar -- apesar de não nos ajudarem no fim das contas a realmente desenvolver o programa) e, só no fim, aprender um pouquinho sobre o que realmente me interessava: métodos ágeis (que foram apresentados na correria porque, pelo que lembro, a gente tava atrasado na matéria).

Em oposição a essa cadeira, eu lembro que eu tinha gostado até que bastante de ter aprendido, primeiramente em Lógica e depois novamente em Semântica Formal, a provar a corretude de um programa com base no seu código. É claro que as provas só seriam "possíveis" para programas relativamente curtos, e isso significaria que eu teria de sempre ou criar abstrações fortes o suficiente e simples o suficiente para provar que funcionavam ou então simplificar o meu programa. Além disso, questões como paralelismo e orientação a objetos tornavam a coisa bem mais complicada =/ (e estavam "fora do escopo" da disciplina xP)

Ainda por mais um terceiro lado, eu lembro de ter aprendido muito (MUITO) lendo boa parte de um livro do Bertrand Meyer (Object-Oriented Software Construction, 2ª Ed., 1997) ao longo da disciplina de Técnicas de Construção de Programas. Eu tinha aprendido que esse cara "disregarded" a maior parte das frescuras de UML que a gente tinha aprendido em Engenharia de Sofware, porque simplesmente elas não eram formais o suficiente e não ajudavam com problemas que ele apontava ao longo do livro.

Enfim... o que eu quero dizer através desses primeiros parágrafos é que, ao longo da minha graduação, eu construí um "desprezo" bem grande por "coisas de engenheiro" (i.e., diagramas, tabelinhas, check-lists, ... [eles usam a palavra "ferramenta" e têm um tom todo formal pra se referir a essas coisas]). Meu grande argumento sempre foi que, por englobar sempre um bom tanto de subjetividade, elas nunca garantem 100% de eficácia. Além disso, elas apresentavam um ar de formalismo que não condiz com o nível de subjetividade que eles internalizam. Um grande exemplo, pra mim, é a formalidade com que em geral a engenheirada trata o formato de cada um dos tipos de caixinhas possíveis em um fluxograma [sério que o "if" precisa ser tratado por um losango? Por que não um hexágono? Ou uma bolinha? Ou por que não tratar tudo como bolinha? u.u]. A mesma formalidade eu via na UML u.u

Cada vez mais, por outro lado, eu tenho percebido que, sim, essas coisinhas realmente funcionam. Não por causa do formato, pelas bolinhas, pelos diagramas, mas porque elas ajudam a se estruturar o pensamento e se pôr no papel de forma um pouco mais bem estabelecida cada uma das coisas que se pretende fazer. Por exemplo, é muito mais fácil enxergar o passo-a-passo de um processo através de um fluxograma; dado o fluxograma, é muito mais fácil indicar em que pontos o processo pode ou não apresentar falhas (e que falhas são essas); dadas essas falhas, é muito mais fácil escolher que falhas tratar através do diagrama de Pareto [que, aliás, foi um treco que me fizeram descobrir que eu achei bastante legal e útil]; é muito mais fácil encontrar os motivos das falhas através dos 5 porquês; e finalmente é muito mais fácil definir um plano de ação através do 5W2H.

Me sinto, assim, desconstruindo um preconceito =) Agora só falta eu desconstruir o que tenho com psicologia, que, da mesma forma, nunca me mostrou funcionar u.u (eu sempre desacredito dessas "coisas de psicóloga" v_V)

Era isso...

R$

6 de abr. de 2014

Use Vim, they said... it would be easy, they said

De uns tempos pra cá eu tenho sido obrigado a usar Windows bem mais frequentemente do que Linux. Apesar de o Notepad++ me ser bastante útil, eu ainda não me sentia tão totalmente feliz quanto se pudesse usar o Vim. Aliás, até tentaram me converter pro Sublimetext, mas não me apeteceu =/ Assim, quando tive de programar mais no Windows (eu queria usar Python), resolvi baixar o GVim.

Enquanto procurando o GVim pra baixar, encontrei uma postagem de blog que me chamou a atenção:


http://www.viemu.com/a-why-vi-vim.html

Quem lê-la até o fim vai descobrir que tudo não passa de uma propaganda desavergonhada (shameless advertisement?) de um "Vim for Visual Studio"; mas, sim, ela diz muito a verdade =)

R$

5 de abr. de 2014

Que andei ouvindo

(Eu quero pôr isso em algum lugar que eu saiba que, depois, quando eu quiser ouvir denovo, seja fácil de acessar)

Eu andei ouvindo, ultimamente, a trilha do Jurassic Park. Eu ouvi só a do primeiro filme, mas a lista de reprodução tem também a do The Lost World.

https://www.youtube.com/playlist?list=PL9127B29B6663E7B2

Deveis saber que eu não conheço grandes coisas de músicas de filmes, mas resolvi abrir uma exceção um tempo atrás e certamente não me arrependi =)

...

A segunda coisa que andei ouvindo foi esse concerto, Distant Worlds: Returning Home (porque foi apresentado no Japão):



Certamente, a parte de que eu mais gosto disparado é quando eles executam Dancing Mad (a partir dos 8min15):



Mesmo assim, a música da batalha contra o Gilgamesh no fim e o One Winged Angel do início também chamam muito a atenção

...

Por fim, uma outra coisa que andei ouvindo foi um disco com músicas de Final Fantasy em versão "orquestrada". Ele vai dos primeiros aos últimos Final Fantasies, na ordem, com músicas marcantes de cada um deles. Do Final Fantasy IV, inclui Battle with Golbeza's Four Emperors (minha música de formatura); do Final Fantasy VI, inclui, além da Opera, a Phantom Forest (numa versão MUITO tri!). Termina com um mix de vários battle themes e, é claro, One Winged Angel:



Eu acho triste como esse álbum consegue ser tão underrated. Ele tem pouquíssimas visualizações e é simplesmente incrível!

...

Enfim... essas são as músicas que eu andei ouvindo nos últimos tempos =) Como bônus, digo que assisti a esse concerto um tempo atrás e achei uma puta perda de tempo (fora a parte do Brass de Chocobo à 1h46min49sec; e fora a empolgação do pessoal quando começa One Winged Angel logo depois -- mas aí o Nobuo Uematsu vem com sua banda e estraga a música ¬¬):




Tomara que os leitores interessados por uma boa música gostem dessa postagem n_n

R$

9 de mar. de 2014

Sobre o Português e o Espanhol

Há algum tempo alguém me fez um comentário-pergunta (relacionado a linguagens, porque por qualquer motivo o assunto surgiu) que, na hora, pareceu mais crível do que um pouco depois: se o latim é mais complicado que o português e o português tem mais sons que o espanhol, então será que o espanhol não seria "uma segunda derivada" do português?

Porque estávamos discutindo sobre como o espanhol faz menos diferença entre vogais do que nós falantes de uma das mais ricas fonologias vocálicas de todas as línguas românicas, a pergunta pareceu fazer pleno sentido. Mas um pouco depois, pensando sobre como, por exemplo, o Latim não tinha artigos e nem futuro do subjuntivo (estruturas complexas que ambas as línguas desenvolveram independentemente da sua língua "mãe"), a coisa começou a degringolar.

Essa postagem, assim, meio que tinha a pretensão de linkar coisas que eu considero que possam me dar argumentos contra essa idéia.

Na postagem anterior eu falei um pouco sobre interações entre línguas. O que eu aprendi com isso foi que, normalmente, quando populações falantes de exclusivamente uma de duas línguas não mutuamente inteligíveis precisam se comunicar, elas criam um pidgin, que tem como uma de suas principais características o fato de ser uma linguagem simples. Daí eu gosto de extrapolar a idéia de que a interação entre essas duas populações tenderia a causar a perda de estruturas gramaticais de ambas as línguas.

Com essa idéia em mente, e tendo lido que os espanhóis só expulsaram os mouros quase 300 anos depois dos portugueses (aliás, um link bonzinho sobre o assunto foi esse aqui), eu gosto de pensar que talvez tenha sido culpa disso que o espanhol faça tão pouca diferença entre sons vocálicos.

A Wikipedia, aliás, mais uma vez se mostra bastante conveniente quando consultada sobre o assunto. Não esperava encontrar um artigo de comparação entre as duas línguas, por exemplo (e nem que os artigos de história de ambas fossem tão completos grandes).

Bom... de qualquer forma, acho que é meio simplista achar que tudo foi culpa dos mouros. Ambos portugueses e espanhóis foram muito influenciados por franceses durante todo o tempo, e o espanhol não era a única língua falada na região da atual Espanha (o que dizer do Aragonês, do Basco, do que hoje a Wikipedia chama de "Mozarabic" e do Leonês? [entre outros?]). Assim, eu acho muito mais crível que talvez toda essa interação entre línguas é que os tenha obrigado a dropar alguns sons pra permitir a mútua inteligibilidade. Ou então que os sons simplesmente tenham se [des]desenvolvido independentemente (o que, anyways, me parece sempre improvável, já que, em se tratando de línguas, a suruba é sempre o mais comum v_V).

Eu meio que paro minhas especulações por aqui. Essa busca só me fez abrir um monte de abas com texto demais para pouco tempo para leitura. Mesmo assim, não posso deixar de postar aqui algumas coisas que achei interessantes.

Eras isso...

R$

8 de mar. de 2014

Coisas aleatórias

De tempos em tempos eu me obrigo a fazer uma postagem aqui com conteúdo de um monte de coisas que eu vi, quero compartilhar, mas que não é suficiente pra ganhar uma postagem inteira.

Expletivos

Enquanto procurando por argumentos que mostrassem que o Espanhol não é "derivado" do Português como tem muita gente que de vez em quando supõe (engraçado é que falantes nativos de inglês creio que tendam a pensar justamente o oposto, já que o Espanhol é mais popular), acabei encontrando três artigos da Wikipedia que julguei interessantes.

O primeiro deles fala sobre um tal de Atributivo Expletivo, do qual o melhor exemplo que consegui achar foi

This is fucking awesome!
(Isso é realmente incrível!)

A idéia é que o adjetivo ou advérbio não contribui com significado, mas serve como intensificador. Tenho a impressão de que em português essa estrutura não seja lá tão bem desenvolvida quanto em inglês... e que se ela fosse talvez pudéssemos usar o expletivo como infixos, como ocorre em algumas frases do inglês:

This was un-fucking-believable!
(Isso foi in-fucking-acreditável!)

LOL... depois de escrever aqui que eu fui ver que no artigo ali da Wikipedia (eu não tinha lido ainda até o fim) inclusive se fala sobre como o inglês permite infixação dos expletivos.

O artigo da Wikipedia diz também que expletive vem do latim explere, que significa preencher. E outra coisa que também é chamada de expletiva são os Pronomes Expletivos (ausentes no português). Esses pronomes ocupam o lugar dos nossos sujeitos indeterminados em frases como

It is raining today.
(__ está chovendo hoje.)

Esses pronomes ocupam o lugar do que é chamado de Expletivo Sintático, i.e., lugares vazios que precisam ser preenchidos para que a sintaxe "funcione".

Dois videos interessantes

Eu queria muito compartilhar esses dois videos a que assisti já há algum tempo. O primeiro deles é do Vsauce. Apesar de não gostar lá tanto do modo como eles estruturam seus videos (dando informação sobre muita coisa bem pouquinho de cada uma -- e não aprofundando em nada, daí), eu entendo que o objetivo deles é direcionar o espectador interessado naquilo que ele quiser aprender. Assim, um dos links foi o segundo video, que me foi muito interessante:





Contato lingual

[Preferi chamar de "contato lingual" pra não traduzir como "contato linguístico" e não ficar explícito que eu to falando do contato entre línguas. Mas não sei se ficou claro, no fim u.u]

Nesses artigos da Wikipedia que eu vou linkar a seguir frequentemente eu caio por acidente e, porque eles são tão fortemente relacionados, eu nunca consigo abrir um sem abrir quase todos os outros. Também... eu nunca consegui terminar de ler todos -- porque eles falam todos de assuntos muito relacionados e sempre eu tenho a impressão de que eu não to sabendo de alguma coisa na hora de lê-los.

O primeiro deles fala de contato entre línguas. Os efeitos que esse contato pode ter são vários possíveis. Um primeiro do qual eu gosto muito (e do qual eu tenho sido vítima há algum tempo, digamos assim, porque eu tenho quase todo dia falado com uma pessoa gringa que me obriga a pensar durante algum tempo em inglês) é o empréstimo de palavras entre as duas línguas. Às vezes esse empréstimo é tão forte que o vocabulário inteiro de uma das línguas pode ser substituído pelo da outra -- apesar de o mesmo não ocorrer com as estruturas gramaticais. Outra possibilidade é que ambas as línguas convirjam (é essa a conjugação certa?) para uma situação em que elas sejam menos diferentes do que eram inicialmente.

Outras coisas podem acontecer. Quando uma das línguas tem mais prestígio do que a outra em meio à população onde elas são faladas, essa língua pode, ao longo de muitas gerações, substituir a que tem menos prestígio. Por fim, quando duas populações precisam se comunicar mas não são fluentes em ambas as línguas (i.e., cada membro é fluente em somente uma das línguas), então uma "língua simplificada" pode surgir (que não é a língua nativa de ninguém). Se esse contato entre as duas populações perdurar por tempo suficiente para que crianças nasçam e aprendam a "língua simplificada" como língua nativa, então essa língua pode acabar se tornando um crioulo. Às vezes, porque o prestígio de uma das línguas da população é maior do que o da outra, o crioulo pode "se aproximar" da língua de maior prestígio.

Às vezes, nem mesmo é necessário que duas populações interajam para que a língua da população mude (aliás, às vezes eu penso que isso inclusive tem acontecido no Brasil, que não me surpreenderia se daqui a 150 anos fosse bilingual em inglês -- ou mesmo monolingual em inglês [mas eu não to dizendo que seja isso que vá acontecer u.u] --, apesar de o mais esperado por mim seria que a gente só se orgisse com o inglês um pouco -- e criasse uma coisa bem mais próxima de um Porglish [no puns intended]).

O mais engraçado de tudo pra mim é que realmente tem gente que crê numa tal de "teoria monogenética dos pidgins", que diria que todos os pidgins seriam derivados de um único dialeto (**raising eyebrown**). Esse artigo da wikipedia, por outro lado, linka um outro artigo do qual eu gosto bastante: a "teoria da linguagem bioprogramada" (tradução advinda da versão em galego da mesma página). Apesar de o artigo aparentar dizer que a teoria não funciona muito bem, ela me parece muito próxima da idéia de "gramática universal" super-popular hoje entre lingüistas u.u (mas é verdade que eu acho que entendo pouco demais sobre isso pra querer debater =/)

Bonus

Descobri duas coisas legais hoje enquanto lendo. A primeira é que praeter- em latim é um prefixo que significa além, exceto, e que praeterire é proveniente de praeter + ire e significa desconsiderar, negligir (além de umas outras coisas). Assim, praeteritus significaria desconsiderado, negleto, e seria uma boa forma de se referir ao passado.

A segunda é bem mais tri. Matricula é descendente de matrix + ula, onde ulus é um sufixo que se usa para formar o diminutivo (portanto, matricula significaria matrizinha). Mais do que isso... matrix é derivado de mater, i.e., mãe.

Legal, né?

R$

Usando a internet de verdade

Apesar de ter uma conta no Facebook, eu sempre o considerei um veneno: sempre tive a impressão de que ele só serve para me fazer perder tempo quando meu tempo é livre.

Alguns dias atrás eu havia resolvido finalmente fazer uma conta no Reddit e substituir cada vez mais o meu uso de Facebook por uso no Reddit, um dos lugares em que a internet realmente acontece (tá certo que tem coisas que ocorrem em vários outros grandes lugares da internet, mas pelo menos normalmente elas não ocorrem no Facebook u.u). Tendo criado a conta lá, me subscrevi em vários subreddits relacionados a lingüística onde eu poderia aprender alguma coisa. Me seria divertido (me está sendo, na real).

Hoje, porém, conversando com a minha mãe, descobri algumas coisas interessantes. Descobri que ela, já há algum tempo, havia começado a participar de um grupo (que tem algo como 4k membros) onde as pessoas compartilham livros. De um, ela foi entrando em outros e outros e quando viu já estava nuns 20. Todos eles totalmente brasileiros (i.e., em português), e em todos eles ocorre criação de conteúdo original (autores postam seus livros por lá), fanfics e até mesmo traduções. A maior parte deles ou fechado ou mesmo secreto

Achei o máximo: minha mãe estava fazendo o que eu considero que a maior parte das pessoas no Facebook não deve fazer: usando a internet de verdade. Como eu ía imaginar que esse tipo de coisa ocorreria no Facebook?!?! Ao comentar com ela sobre o Reddit, ela me comentou que o seu grande problema é que o conteúdo por lá é normalmente em inglês.

Tendo procurado por Latim lá, encontre esse grupo, que parece bom o suficiente para achar material de leitura e tal.

Fiquei feliz: minha impressão sobre o Facebook melhorou (apesar de ainda ser péssima) bastante depois dessa descoberta.

R$

Um pouco mais sobre Latim

Pra quem convive comigo não deve ser surpresa alguma que estou aprendendo latim. Passo muito tempo (DEMAIS!) pensando, matutando, lendo e rindo sozinho das coisas que aprendo. Hoje resolvi apresentar por aqui algumas delas (já que faz uma era que não posto por aqui xP).

Sufixo Incoativo


Ontem estava indo comer um xis com um amigo que não via há muito e, no caminho, ía pensando sobre o verbo adolescere em latim. Há algum tempo (sozinho, do nada) eu tinha notado/descoberto que adultus era o seu particípio passado e, porque havia lembrado sobre o ocorrido, fiquei me perguntando se o ad do início não seria decorrente da preposição ad. O motivo é que estava comparando com a preposição ab, que se torna a quando precedida de consoante (algo que também me tomou algum tempo para notar -- eu notei "sozinho" quando li que a preposição ex sofria o mesmo tipo de alteração [apesar de haver exceções]).

Na hora, minha suposição foi a seguinte: que adolescere viria de ad + dolescere. Questão é que eu tinha já em mente a idéia de que todos os ecer do português são criação "mais nova" vinda do latim vulgar e ausentes no latim clássico (sim, é verdade, estava ignorando o sc ali). Um exemplo seria

oboedir --> oboedecere --> obedecer

Porque eu supunha que ecer/escer fossem invenções do povo (o latim vulgar é o latim "que o povo falava" -- porque vulgus é povo em latim, anyways), eu passei a imaginar a possibilidade de dolescere significar dolere. E dolere significa doer em português, e então tudo me pareceu fazer muito sentido: o adultus seria uma pessoa sofrida e, portanto, já digna do status de "completa" na sociedade.

Mas, bem, sim, eu estava errado. Acontece que na verdade adolescere vem de ad + alescere, onde alescere significa "começar a alimentar" (o uso é meio estranho: apesar de alescere ser usado de forma ativa, ele tem um significado na verdade passivo. Assim, na verdade, alescere significaria "começar a ser alimentado").

Tá... mas aí o Wiktionary dizia algo bem legal sobre alescere:

Etymology

Inchoative or inceptive form from alō (foster), + inceptive suffix -ēscō.
 
(forma Incoativa ou inceptiva de alō (“eu alimento), + sufixo inceptivo -ēscō.)

No caso, alere é o verbo alimentar (daonde vem aluno, alimento, ...). Eu fui atrás do "sufixo inceptivo -esco" e, quem diria, ele era um sufixo produtivo no latim que indicava o aspecto "incoativo" ou "inceptivo/incetivo" (eu gosto de traduzir como incetivo porque foi-se o tempo em que as palavras guardavam esses p mudos no português), que, no caso, indicava "início de". Assim, em latim, se eu quisesse dizer que eu "ía começar a fazer tal coisa", me bastava adicionar um -sc- e tava feito o carreto \o/

O que eu achei legal disso é que aquela minha suposição de que ecer era coisa de latim vulgar caiu por terra / foi por água abaixo. Um exemplo é a palavra aparecer (que tem aparente [e não aparecente] como particípio presente):


Etymology

From Old Portuguese aparecer, from Late Latin appārēscere, present active infinitive of appārēscō (begin to appear), from Latin appareō.

(do Português Antigo aparecer, do Latim Tardio [tardio?] appārēscere, infinitivo presente ativo de appārēscō ("começo a aparecer"), do Latim appareō.)


Prevérbios

O leitor astuto deve ter notado que o o em adolescere não aparece na construção ad + alescere. Tendo clicado na palavra inceptive no Wiktionary, notei sua etimologia:

Etymology

From the French inceptif, from the Latin inceptīvus, from incipiō (I begin).

(do Francês French inceptif, do Latim inceptīvus, de incipiō (eu começo).)

Cliquei na etimologia de incipio e descobri que vem de in + capio. Como assim? O verbo não era incipio? Daonde saiu aquele a em capio?

[aliás, diga-se de passagem, o particípio passado de incipio é inceptus, de onde vem a palavra inception, no inglês xP]

Eu não tenho muito para explicar aqui, mas a moral é que essa parte da postagem foi feita só para eu pôr esse link aqui (do Elmord's Magic Valley), onde o autor descreve sobre a existência de prevérbios e de algumas mudanças vocálicas quando a preposição é "acoplada" ao verbo.

No mais, outros exemplos incluem incidir, que é derivada de in + cadere (onde cadere significa cair -- e é daonde veio a expressão "estrela cadente" [i.e., estrela que cai]); e a oposição placere (gostar) vs. displicere (não gostar).

Infinitivo Futuro Passivo

Na minha busca por informações sobre "incoativo", acabou me chamando a atenção como os infinitivos futuros passivos são formados. Normalmente eles são compostos por dois verbos: o verbo "principal" em sua versão "supino" + o verbo eo (que significa ir) no infinitivo presente passivo (i.e., iri).

Assim, o infinitivo "ir ser cantado" é conjugado como cantatum iri.

Pra mim isso é interessante porque me mostra como há 2000 já se usava o verbo "ir" para marcar o futuro (como fazemos hoje -- sim, de forma diferente, mas enfim).

Aspecto Frequentivo

Por fim, ao procurar por mais informações sobre as coisas que escrevi logo aqui em cima, acabei descobrindo que a palavra cantare é proveniente da flexão do verbo canere (cantar) no aspecto frequentivo. Assim, da mesma forma que se usa -sc- para indicar "início de", se usam os sufixos -tāre/-sāre, -itāre e -titāre/-sitāre para indicar "feito com frequência".

A página da Wikipedia sobre o assunto dá até vários exemplos de verbos que se usam hoje e que são provenientes do uso dessa regra.



Enfim... isso cobre várias abas que deixei abertas desde ontem sobre vários assuntos. Tomara que isso crie pelo menos algum interesse no leitor sobre essa língua que pra mim tem trazido muita diversão.

R$

13 de jan. de 2014

Preconceitos

Pois... Feliz Ano Novo \o/

Depois de 13 dias, finalmente uma postagem por aqui no ano de 2014.

Eu vim dizer que a minha vida finalmente tomou rumo e eu agora sei mais pelo menos melhor o que será dela. Se até alguns dias atrás eu achava que ficaria vagando pelo vazio sem nada para estudar/fazer e tal, agora já está definido que continuarei a estudar fazendo cadeiras de um futuro (mas ainda talvez não bem real, na real) mestrado focado em Processamento de Linguagem Natural (especificamente interessado na aquisição de linguagem).

Isso significa que provavelmente eu continuarei brincando com linguagens, mas que finalmente poderei fazer alguma cadeira da Letras que me ensine um mínimo de lingüística como ela é vista pelos "humanos". Ao mesmo tempo, isso significa que eu terei de conviver com gente da Letras, e aí entra uma questão interessante.

Eu demorei pra aceitar, mas eu finalmente concluí que eu definitivamente tenho preconceito com estudante de vários cursos de humanas (Letras, História, Geografia, ... -- mas não todos, já que Direito e Biblioteconomia não estão inclusos na lista). É engraçado: mesmo assim, tenho vários amigos da Letras, das Sociais ou da História contra quem não tenho nada.

O que acontece é que eu uso "ser estudante desses cursos" como uma proxy (como dizem alguns com quem convivo) para "são bando de revolucionário esquerdistinha maconheiro feminista" -- o que não significa que eu não simpatize com algumas idéias de alguns desses grupos, mas que em geral eu esteja indisposto a ter de ficar agüentando suas idéias tanto quanto eles estão dispostos a ouvir a palavra de Deus proferida por um Testemunha de Jeová. Ou seja... o relacionamento com essas pessoas já pra mim começa com um pé atrás.

O que uma amiga minha me fez notar é que, na real, eu não preciso conhecer essas pessoas como "amigas" (ou seja, conviver com elas a ponto de interagir com seus pensamentos): basta que eu as conheça como colegas, i.e., que eu interaja com o seu trabalho, que provavelmente me seja pelo menos mais interessante do que os seus ideais políticos.

Mas, aliás, falando em palavra de Deus, é verdade que eu também tendo a ter preconceitos com crentes. Em geral, eu faço todo um esforço (enorme!) pra não me deixar influenciar por esse preconceito, mas de vez em quando acaba acontecendo. Enquanto, sim, eu sou crente, eu tendo a sempre esperar dos crentes com quem eu vou conversar que eles venham com idéias sem nexo, teorias da conspiração, paranóias com mensagens subliminares, teologias da prosperidade, profetadas divinas (ou histórias de que Deus mandou a alguém algum aviso) ou arcaicismos e péssimas interpretações da bíblia, daquelas de fazer rir. Especialmente quando o crente é "de congregação", é bem tenso ouvir dos seus dotes musicais ou tratar de idéias simples como cabelos e vestimentas.

Da mesma forma, às vezes eu mesmo me sinto preconceituado por conta da minha crença. Basta dizer que sou crente e as pessoas já tiram um enorme conjunto de conclusões sobre o meu comportamento, a minha capacidade intelectual ou mesmo sobre que assuntos são "próprios" para se conversar comigo. Enquanto eu normalmente evito assuntos "controversos" quando conversando com pessoas que eu sei que discordam de mim, tem gente que não se dá conta de o quão inconveniente é quando fica insistindo v_V [porque, sim, não são só os Testemunhas de Jeová ou os crentes que fazem questão de disseminar suas crenças]

Aliás... esse é um ponto que eu acho estranho hoje em dia. Enquanto alguns grupos se sentem na "legitimidade" de "desclassificar" a minha crença como algo que possa ser passado adiante... eles próprios clamam por "liberdade de expressão" e fazem o mesmo tipo de esforço para passar adiante as suas. É o mesmo caso de quando os mesmos grupos exigem "maiores discussões" sobre alguma coisa, mas não deixam que a discussão flua quando ela favorece a opinião alheia/divergente (vide videos sobre as discussões do Parque Tecnológico da UFRGS).

Invertendo um pouco o assunto, eu acho interessante como eu não tenho alguns preconceitos que eu vejo muita gente tomar como a mais pura verdade às vezes em algumas discussões. É claro que todo mundo faz piadinhas com "mulheres no volante" ou com que "mulheres são fofoqueiras", mas eu sempre tomei isso como simples piada. Tem gente, por outro lado, que realmente acredita que elas sejam piores motoristas ou especialmente mais fofoqueiras que os homens. Um exemplo ocorreu esses dias: uma pessoa comentou (seriamente) que, enquanto homens tendem a sentar e fazer seu trabalho objetivamente, mulheres ficariam conversando, fofoqueando, se fresqueando para fazê-lo. Outro exemplo que consigo lembrar ocorreu no segundo semestre da faculdade, quando boa parte das gurias haviam ido mal nas cadeiras relacionadas a programação e um colega comentou que o nosso curso "não era pra gurias". Apesar da "evidência", eu ri xP

Por outro lado, quando eu vejo a paranóia feminista de que "as mulheres são consideradas mais fracas, logo, inferiores. Gay é "xingamento" porque ser gay é ser um homem mulherzinha.", eu logo me pergunto: e não é a mulher em geral "mais fraca" mesmo? (e, nesse quesito, sim, eu tendo a ter facilidade de acreditar que negros são sim mais fortes em geral que homens brancos) E em que isso tem a ver com "ser inferior"? E se "gay é "xingamento" porque ser gay é ser um homem mulherzinha", então por que eu não vejo mulheres machorras serem consideradas "mais fortes" e, portanto, "superiores" pela sociedade? (ou seja, seguindo a mesma lógica) Eu vejo que tem muita paranóia onde o preconceito não está.

Enfim... eu vejo que esse assunto é um negócio que vai longe. O que eu posso dizer é que, sim, eu tenho preconceitos, mas eu faço todo um esforço pra que eles não me impeçam de interagir com as pessoas com quem eu tenha de ou queira interagir. Cada vez mais eu tenho notado o quão legal/conveniente/interessante é conhecer pessoas, e, enquanto eu realmente não sou bom com isso, eu tenho tentado xP (e isso significa tentar [tentar!] deixar alguns preconceitos para com alguns tipos de pessoas de lado -- apesar de que não tem como eu aceitar pessoas fedendo a maconha na minha presença... lamento =/ )

Eras isso... u.u

R$