1 de set de 2013

Pronomes Relativos -- Assimetria do "Quem"

Na minha última postagem eu disse que a próxima coisa sobre que falaria seria uma tal de "Assimetria do Quem". Cá estamos, então xP

Quando eu ainda tratava todas as palavras interrogativas como pronomes (e me perguntava por que algumas delas seriam, afinal, pronomes), um dos argumentos que eu me dava para que o fossem era o fato de que elas em geral poderiam ser usadas como pronomes relativos. Mas, calma, talvez não saibais o que sejam esses tais. Então, aqui vai uma explicação.

Do modo como eu vejo, pronomes relativos são um conjunto de palavras que ligam duas orações, de modo que um dos argumentos do verbo (ou seja, sujeito, objeto direto ou objeto indireto... ou mesmo adjunto adverbial) da segunda oração seja "extraído" da primeira.

Exemplo:

A menina estava feliz. A menina desenhava.
A menina que desenha estava feliz.

O pronome relativo mais comum é o que. Mas o qual não fica muito atrás, já que o que pode ser trocado pelo qual em quase todos os casos em que funciona como pronome relativo:

O menino jogava bola. O menino tinha ódio.
O menino que jogava bola tinha ódio.
O menino o qual jogava bola tinha ódio.

[bom, aqui tem uma questão de pontuação. Eu não sei como funciona. Tenho a impressão de que se eu pôr entre vírgulas a oração subordinada ela vai virar uma "oração subordinada adjetiva explicativa", em vez de permanecer como "oração subordinada adjetiva restritiva"... e isso não é o que eu quero. Daqui a pra frente, ignorarei essa questão, que "está fora do escopo dessa publicação" -- anyways, em alemão isso estaria entre vírgulas sem dúvida]

Diferentemente do que, o qual concorda em gênero e em número, e ainda exige um outro pronome (pessoal oblíquo, creio) (o vbuaraujo me fez notar que provavelmente seja um artigo) o antecedendo.

O menino o qual jogava bola tinha ódio.
As meninas as quais jogava bola eram masculinizadas.

Nessas frases, o pronome relativo aparece como sujeito da oração subordinada. Quem tinha ódio? O menino! Quem estava feliz? A menina! ... Mas a oração subordinada pode usar o pronome relativo para tornar em objeto direto o argumento "sugado" da primeira oração:

O lápis quebrou. O menino entregou o lápis à menina.
O lápis que o menino entregou à menina quebrou.
O lápis o qual o menino entregou à menina quebrou.

Apesar de a diferença me parecer sutil em português, ela é gritante em alemão [na real, nem tanto: só no masculino], onde a declinação se torna diferente do sujeito pra o objeto.

Uma última possibilidade, é usar um argumento da primeira oração como objeto indireto da segunda oração (e aqui as coisas ficam um pouco mais complicadas). O "gramatical" (i.e., o "certo") seria fazermos o seguinte:

A guria invocou a lei Maria da Penha. A cara da guria foi arrebentada.
A guria da qual a cara foi arrebentada invocou a lei Maria da Penha.

O guri foi pro hospital. O pé do guri se quebrou.
O guri do qual o pé se quebrou foi pro hospital.

Esse é o obstáculo. Eu devo passar por esse obstáculo.
Esse é o obstáculo por que eu devo passar.
Esse é o obstáculo pelo qual eu devo passar.

Nos dois primeiros exemplos acima, eu não pus a versão com que por um motivo: ela me soa mal, e o que a gente acaba fazendo é pôr um quem no lugar. E isso está relacionado à tal "assimetria" título dessa postagem... mas eu chegarei lá:

A guria de *que a cara foi arrebentada invocou a lei Maria da Penha.
O guri de *que o pé se quebrou foi pro hospital.

Algo que direto acontece é omitirmos a preposição quando o contexto não é ambíguo (acontece especialmente com as preposições a, de e em) e adicionarmos um novo pronome oblíquo:

O guri que o pé [dele] rachou já foi pro hospital.
O apartamento que eu fui ontem era tri bom.

E isso gera algumas coisas muito estranhas:

Aquele é um cara legal com quem conversar.
Aquele é um cara legal de conversar [com ele].

Essa é uma tecnologia boa junto da qual trabalhar.
Essa é uma tecnologia boa de trabalhar junto [com ela]. [frase verídica]

[mas eu tava tentando "dividir" essas orações e não consegui... então talvez haja algo que eu não entenda aí no meio. O problema pra mim é o infinitivo ali]

Continuando... eu gosto de pensar que a declinação em genitivo do que (através da qual a preposição de passa a ser desnecessária) é o cujo. De fato, durante as aulas de alemão, toda vez que um pronome relativo estava declinado no genitivo, era possível utilizar cujo (e variações) na tradução. O cujo funciona como artigo na oração subordinada, e corcorda em gênero e número exatamente como um.

A guria, cuja cara foi arrebentada, invocou a lei Maria da Penha.
O guri, cujo pé se quebrou, foi pro hospital.

Existe ainda o de/por/para/sobre/... cujo, ou seja, o caso em que a oração subordinada se refere a algo que é do elemento extraído, e o põe no objeto indireto. Mesmo assim, essa opção já está morta na fala, e, por isso, listo formas alternativas a ela logo abaixo.

Essa é a menina. Eu te falei sobre o vestido da menina.
Essa é a menina sobre cujo vestido te falei.

Essa é a menina sobre o vestido de quem eu te falei.
Essa é a menina de quem eu te falei sobre o vestido [dela].
Essa é a menina que eu te falei sobre o vestido [dela]. [popular]

Um último detalhe, antes de extendermos o nosso conjunto de pronomes relativos: há algumas orações principais onde o argumento é justamente a oração subordinada (daí a oração subordinada é "substantiva", até onde eu lembro). Nesses casos, um pronome (pessoal oblíquo?) aparece na oração principal pra servir de "gancho" pra subordinada. É engraçado que nesses casos o que me parece substituível não pelo qual, mas pelo aquele/aquilo. Nos exemplos a seguir, o pronome aparece em vermelho:

Tu vais ver 3 luzes. A [luz] que estiver piscando é boa. [sujeito]
Essa arma é a [arma] que matou minha mãe. [obj. direto]
Tu vais ver 3 luzes. Olha pra [luz] que estiver piscando. [obj. indireto]

E isso explica o funcionamento do o que:


O que eu não quero ver é a sua cara nunca mais.


Bom... cansei. Acho que já expliquei bem (se é que eu sei realmente do que to falando) o que são esses tais pronomes. Se quiserdes mais infos, uma explicação mais "profissional" do assunto se encontra aqui:


Ok. O que acontece agora? Extenderemos o nosso conjunto de pronomes relativos! No início da postagem, eu disse que as "palavras interrogativas" também agiam normalmente como pronomes relativos. Pois bem, aqui vão alguns exemplos:

Gostava daquele tempo, quando me alimentava a base de doce. [em que]
Esse foi o jeito como eu resolvi o problema. [através do que (?)]
Ontem fui a um apartamento, onde deixei meu cachorro. [em que]

Mas [e agora chegamos ao ponto onde eu queria chegar] tem um pronome que me parece não dar certo. Simplesmente, não é usado... e me soa muito mal aos ouvidos: o quem. Em inglês [e alemão?], por outro lado, soa perfeitamente ok:

A vida do homem era triste. O homem atirava de metralhadora.
A vida do homem *quem atirava de metralhadora era triste.

The life of the man who shot with a machinegun was sad.

E tem mais. Quando ele aparece no objeto indireto (ou seja, quando o pronome relativo espera uma preposição), é o que que soa errado:

As pessoas passeavam pela rua. As vidas das pessoas foram arrancadas.
As pessoas *de que as vidas foram arrancadas passeavam pela rua.

Eu ainda não consegui pensar bem sobre quando o quem substitui um sujeito, mas eu tenho a impressão de que há frases em que a coisa dá certo e há frases em que não:

Eu tomei café. Eu fiz bagunça.

Eu, que fiz bagunça, tomei café.
Eu, *quem fez bagunça, tomei café. [?]

Fui eu quem destruiu a cafeteira.

Enfim. Tudo isso pra falar meia dúzia de palavras sobre o quem. Espero que essa postagem sirva pra ajudar-vos com pronomes relativos, caso não vos interessais pela tal da "Assimetria do Quem" (na verdade, agora, pensando melhor, talvez seria melhor chamar de "Não-hortogonalidade do Quem", não?).

R$

Nenhum comentário:

Postar um comentário