2 de mar de 2013

Pronomes Oblíquos

Uma coisa me tem perturbado na fala de todos que conheço: a falta de pronomes oblíquos.

Agora já fazem em torno de 2 meses (eu não sei bem quando comecei) que tenho feito um esforço enorme para colocar no meu discurso esses pronomes que, se na primeira e segunda pessoa persistem (não sem um mínimo de desânimo), na terceira estão à beira da morte. Mas, pera, antes de sair xingando todo mundo ao menos quero me certificar de que entendais do que falo.

Na nossa língua, os únicos elementos que ainda de alguma forma declinam são os pronomes. Os pronomes pessoais, assim, "acontecem" em dois distintos casos gramaticais: o caso reto e o caso oblíquo. Os pronomes do caso reto são justamente aqueles mais comuns: eu, tu, ele, nós, vós, eles. Relacionados a cada um deles, existem pronomes no caso oblíquo. A wikipedia tem uma tabela tri legal sobre o assunto (a qual eu aqui reproduzo aqui embaixo). Como podeis ver, o caso oblíquo também tem uma classificação entre "tônico" e "átono".

Agora eu vos pergunto: quando é que o caso oblíquo deve ser usado? (uma pergunta para que a resposta poucos ainda sabem) Minha resposta: em geral, quando o pronome pessoal não for o sujeito da frase. Exemplos óbvios:

Ela te viu saindo do cinema.
Esse cachorro me mordeu.
Eu vou lá buscar um sorvete pra ti.
Mãe! Traz uma água pra mim?

Nessas quatro frases, somente a primeira e segunda pessoa do plural aparecem, e ambos pronomes oblíquos átonos e tônicos parecem soar bem (ao menos pra mim). Tá... e qual é o problema então? Calma... preciso só fazer mais uma pergunta: qual a diferença entre pronomes oblíquos átonos e tônicos?

Pronomes pessoais oblíquos átonos substituem o nome nos objetos diretos e, em geral, tendem a ser realmente átonos (do ponto de vista da acentuação). Pronomes tônicos substituem nomes em objetos indiretos (i.e., precedidos de alguma preposição) e tendem a ser tônicos.

A grande exceção à regra são os pronomes átonos lhe e lhes, que apesar de átonos agem como objeto indireto e engolem a preposição junto com o nome. Há restrições a seu uso, porém: as únicas preposições que o permitem são a e para.

Agora posso falar do que me aflige. Apreciai a seguinte frase:

Ela viu ele saindo do cinema.

O que há de bizarro nessa frase? Apesar da frase me parecer perfeitamente proferível por qualquer brasileiro, tenho minhas dúvidas sobre qual a probabilidade de um português dizê-la (i.e., me pergunto se o erro ocorre também em Portugal). Ele no exemplo substitui um objeto direto e, de acordo com a tabela, o único pronome oblíquo possível para essa situação seria o o, como em:

Ela o viu saindo do cinema.

A outra possibilidade seria a ênclise, que em Portugal acontece bastante no início das frases:

Ela viu-o saindo do cinema.

E por que isso ocorreu? Eu não sei! Mas tenho uma crença... e na minha opinião o problema está com um "pronome" sobre o qual eu ainda não comentei até agora: a culpa é do você!

O problema é do você!
(eu to com um monte de coisas na cabeça pra falar mas ainda não consegui estruturar tudo de um jeito que faça sentido)

Qual o problema com o você, agora? Bem... ao longo do tempo, mais ou menos temos perdido o tu e implantado uma ditadura do você. Ao usar você, nada declina, nada muda, tudo fica rígido em pedra. Os pronomes oblíquos da "segunda" pessoa se tornam desnecessários. As seguinte frases são as mesmas de antes, só que substituindo o te e ti por você.

Ela viu você saindo do cinema.
Eu vou lá buscar um sorvete pra você.
Você nem falou comigo hoje.

Mais do que isso, pronomes oblíquos átonos de terceira pessoa podem causar ambiguidades:

Ela o viu saindo do cinema.
Eu vou lá  buscar-lhe um sorvete.

E os pronomes oblíquos tônicos são iguais aos pronomes pessoais!

Percebam também que a ordem da frase muda:

Ela o viu saindo do cinema. [Forma que seria mais comum num Brasil sem você]
Ela viu você saindo do cinema.

E daí? E daí que tem mais um efeito colateral, dessa vez nos pronomes possessivos, decorrente do uso de você: passamos a preferir dele/dela a seu/sua. O uso de você fez com que seu/sua passasse a causar ambigüidades e padronizou a ordem "nome --> de + pronome oblíquo tônico [que, no caso, acaba sempre confundível com o pronome reto]" sempre que o pronome estiver na terceira pessoa (e também na segunda pessoa do plural).




Tá... aqui eu chego na parte em que eu xingo a Rede Globo. Andei assistindo a um monte de TV ultimamente, já que minha internet andava um lixo. Depois de acostumar mais ou menos com essa coisa de "usar pronomes oblíquos átonos", admito que fico meio "agredido" toda vez que ouço um "ele" fora do lugar [estou exagerando, mas, enfim].

Ao assistir alguns filmes dublados, tive de tirar meu chapéu: a sua imensa maioria ainda fala tudo direitinho. É de se emocionar \o/ As legendas das séries legendadas também! Mas estive vendo algumas novelas da Globo e admito que, se antes eu já não gostava, agora não consigo nem parar muito tempo na sua frente: não tem um o ou lhe usado decentemente na terceira pessoa. Os da "segunda" [você] vão OK, mas a terceira é sempre ele pra cá, ele pra lá... um horror =O E isso que eu nem to reclamando dos "pra tu" que os vileiros falam (porque como se já não bastasse matar os pronomes da terceira pessoa eles ainda querem eliminar os da segunda).



Enfim... essa postagem era mais pra "levantar conhecimento" [raise awareness?] sobre esse assunto. Sei que é bem provável que ninguém se interesse em mudar seu modo de falar só pra tentar manter uma característica na língua... e penso que é até que bem provável que ao longo do tempo a eliminemos, mas não me custa tentar.

R$

7 comentários:

  1. "Raise awareness" = conscientizar? Chamar atenção para?

    Não sei se a culpa é do "você". Mesmo aqui na terra do "tu" os pronomes oblíquos de terceira pessoa já foram mostly por água abaixo. Se bem que aqui existe (e já foi mais forte, eu acho) o costume de se usar "o senhor / a senhora" como pronome de tratamento, o que tem basicamente o mesmo efeito do "você".

    Eu acho estranho que em Portugal eles gostem tanto da ênclise ("Ele viu-o"), porque pelo que eu lembro dos (questionáveis) livros de português do colégio nesse caso o pronome reto "atrai" o oblíquo. Não sei se isso é uma particularidade do português do Brasil, se é loucura dos livros, ou se é loucura da minha memória. :P O que eu sei é que eu acho que nunca escreveria "Ele viu-o" (muito menos falaria, já que eu estou no time do ele-oblíquo no que diz respeito à língua falada :P).

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  2. Unrelated com qualquer coisa: fui me inscrever para a monitoria no Portal do Aluno agora, e me deparei com a seguinte frase:

    "1 - Entrar em contato com os departamentos que se inscreveu para definição da data de Seleção. Período para seleção inicia em: 01/03/2013"

    Meu fígado se dilacerou em 327 partes. :P

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  3. HEUAHEUHAUEHAUHEA... que tenso. Aliás, aproveitando a frase (com alto número de coisas estranhas), acho ótimo esse "infinitivo imperativo" que tem se tornado cada vez mais comum quando se quer manter um tom mais formal na escrita. Meu irmão me andou reclamando que ele chega a nem entender às vezes o que o chefe dele quer quando lhe manda e-mails mandando fazer coisas através desse "infinitivo imperativo" ali.

    Mas mas mas... sobre a ênclise... acho que me expressei mal. Eu não sei se aquela frase ali "aceitaria" ênclise. Eu sempre fico na dúvida sobre isso. Mas eu achava que a ênclise ali não fosse proibida (vou verificar amanhã. Agora to com sono =S). Anyway... acho que vou substituir (e fazer uma "notinha de update" avisando) o "Ela viu-o" por "Viu-o", que daí a ênclise se faz "necessária" (na real, era a frase que eu ía pôr desde o início, mas fiquei agoniado porque ía ficar "assimétrico" com o outro exemplo anterior onde a palavra "Ela" existia). Vai ficar assim:

    Viu-o saindo do cinema.

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  4. Acho difícil os pronomes átonos o/a terem algum "ressurgimento". No máximo acho que podem se manter em casos especiais, como após um infinitivo: fazê-lo, achá-la, e alguns outros casos.

    Por que acho isso? Por causa do "jeito de falar", prosódia, entonação. Sério, eu não consigo me imaginar substituindo um «Ela viu ele» por «Ela viu-o». «Viwo»? Que língua é essa? Não parece português brasileiro! «Ela o viu»? «Ela ouviu» o quê? É quase como aprender uma língua estrangeira dentro da própria língua. A gente fica sem aquela "intuição" de como usar a entonação, de como separar as palavras, etc. Fica difícil soar natural.

    Quanto às regras de colocação pronominal, depois de muito "estudo" (cof, cof), cheguei à conclusão que não se trata de nada além de uma enganação de eruditos querendo se passar por mais eruditos do que são. O criador disso somou um pouco do estilo de Portugal, mais um pouco do jeito de falar da sua ópera favorita, mais um pouco de saudade dos "velhos tempos", mais algumas regras de "atração" inventadas na hora para aparar as arestas e voilà! Ótimas regras para colocar numa gramática de ficção.

    Por que penso isso?

    - A preferência de próclise é muito antiga no português brasileiro (li numa dessas revistas sobre língua portuguesa que tem em bancas de revista), já deixou de ser questão de "manter a língua" e passou a ser uma tentativa de guiá-la artificialmente, para um passado que talvez nunca tenha existido exatamente igual ao que se propõe no livro de gramática.

    - As regras são ridiculamente complexas, e não são necessariamente iguais nem ao que um professor universitário de letras falaria nem ao que um português falaria (tem um pouco de suposição minha aqui). Se não podemos tomar nem um professor universitário, nem um português (*), sobrou o quê como referência? Pergaminhos? Olhem para nós, gente que gosta do assunto e não tem certeza se «Ela viu-o» deve ser com ênclise ou não! (eu também não sei, hahahaha!)

    (*) Se os livros podem dizer impunemente que "consigo" é sempre reflexivo no Brasil, mas é usado como se fossem "com ele" ou "com você" em Portugal, por que a colocação pronominal não pode ser diferente? Desse jeito só o autor do livro (ou pergaminho(**)) fala corretamente, nem os outros brasileiros, nem os portugueses se salvam.

    (**) Aí você pega um pergaminho e a primeira palavra que encontra é «Ficão» (em vez do atual «Ficam»). Nem a hipótese do pergaminho sobrou...

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  5. Para mostrar que o ficão não é ficção (trocadilho parcialmente intencional):

    http://www.receita.fazenda.gov.br/TextConcat/Default.asp?Pos=4&Div=Historico/80AnosIR/Livro/

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  6. Tipo... eu concordo que os pronomes átonos estejam morrendo, mas ainda tenho minhas dúvidas sobre o que deles nos restará. Esses dias vi a Cláudia Raia dizer vários "xxxx-lo" e ninguém que tava assistindo percebeu/achou estranho. Agora mesmo, passei na frente da TV e vi a Luana Piovani [cujo nome só descobri agora ao procurar no site da Globo] dizendo "Você já o ajudou antes." e minha avó permaneceu indiferente.

    Sobre o pergaminha... HUEAHUEHAUEHAUHEUAHEUAH... eu não acreditei: achei que tivesse sido um erro de transcrição. Aí procurei na internet e achei outras duas referências ao mesmo "erro" e me obriguei a aceitar Meu Deus... que horror aquilo T___T

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  7. Hahaha, legal que "gostou" (entre aspas) do ficão :-)

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