1 de mar de 2013

Anotativos

Nos últimos tempos, venho notando uma série de coisas no que outros falam. Muitas delas se perdem, dado que ocorrem em lugarem/ocasiões onde não posso anotá-las, por qualquer motivo (tipo aquela idéia maravilhosa e incrível que vem à cabeça logo antes de dormir e que no dia posterior não se revela à mente não importante o esforço que a gente faça ).

Bem... mas algumas delas eu andei anotando, e essa postagem é talvez a primeira de uma série andei pensando em fazer.


Cópula

Numa postagem anterior já havia comentado que havia lido sobre o que é "Cópula", apesar de não ter comentado sobre ela em si. Na época, achei interessante que o artigo em português para o qual eu era redirecionado ao "trocar de língua" vindo do artigo "Copula", em inglês, era o dos "Verbos de Ligação". Assim, ok, temos várias cópulas, sendo as mais importantes o "ser" e o "estar".

Aliás, também fiquei orgulhozinho porque esse artigo aqui diz que o português tem essa outra cópula no verbo "ficar" -- como em "A igreja fica na Cidade Baixa".

Mas e daí? Bem, antes de continuar, peço que leiais as seguintes frases:

1 - Qual o problema contigo?
2 - Qual o maior estado brasileiro?
3 - Cadê tua mãe?
4 - Quê isso?

A minha pergunta: cadê o verbo nessas frases? Todas as frases, com exceção da última (que talvez tenha forçado um pouco a barra) são frases que eu tenho certeza de que qualquer um (ao menos no meu meio social) usaria sem problema algum. Mais: todas elas exigem cópula. E o que ocorre? A gente tende a omitir a cópula em situações bem específicas.

Daí eu li o seguinte: "Russian and other East Slavic languages generally omit the copula in the present tense." (Russo e outras línguas eslavas do leste em geral omitem a cópula no tempo presente)

Nós também, às vezes, dependendo de como começamos nossas frases (e, aliás, isso me remete à escola quando os professores sempre ditavam as perguntas com "Qual é" e eu escrevi somente "Qual" pra economizar mão).

Sei lá... é algo que achei legal compartilhar n_n

Vim

Estava conversando com um amigo e ele me reclamou de ter visto alguém no Facebook escrevendo "vir" como futuro do subjuntivo do verbo "ver". Na hora o "exortei" [palavra de crente detected], explicando que a pessoa havia feito certo e que o futuro do subjuntivo do verbo "vir" seria "vier".

Na mesma hora atinei de uma coisa: e o "vim"? Consagrado na fala de todo brasileiro, tanto no RS quanto no RJ e até mesmo no PE (dada a minha amostra, que abrangia pessoas desses três estados), percebi que essa forma (que, na real, deveria ser somente o pretérito perfeito do indicativo) se tornou padrão para tanto o futuro do subjuntivo quanto o infinitivo conjugado da primeira pessoa do singular do verbo "vir". Em palavras mais simples, as frases

Quando eu vier morar aqui, farei uma festa. [futuro do subjuntivo]
Vai arrecadar dinheiro, pra eu vir morar aqui. [infinitivo conjugado]

se tornaram, no nosso dia-a-dia,

Quando eu vim morar aqui, farei uma festa. [futuro do subjuntivo]
Vai arrecadar dinheiro, pra eu vim morar aqui. [infinitivo conjugado]

Mais: como pouca gente conjuga a segunda pessoa (tanto do singular quanto do plural), ninguém tenta dizer coisas como "quando tu vinheres", ou algo do gênero. Mesmo assim, na terceira pessoa do plural, o verbo "vim" [que eu passei a gostar de chamar de "o primeiro verbo cujo infinitivo não tem R na nossa língua"] acaba perdendo o "e" e assumindo a mesma forma do "ver":

Quando eles virem morar aqui, farei uma festa. [virem, em vez de vierem]

Apesar das "perdas", não posso dizer que me incomoda a confusão toda. A língua seguirá seu caminho e se houver necessidade fará suas diferenciações ao longo do tempo. Digo isso porque, de tantas perdas que tenho notado ultimamente, esse tipo de coisa é o menor dos nossos problemas.

"Aberrações"

Alguns os chamariam de aberrações; eu os abraço e ultimamente tenho até meio que me esforçado (mas falhado quase que miseravelmente) pra usá-los: estou falando de coisas como "a nível de", "tirar a temperatura" e os famigerados "gerundismos".

Lembro de quando estava fazendo cursinho: os professor abominavam aparições de "a nível de"! Me fizeram acreditar que era um problema, que era algo que devia ser eliminado, e que os seus usuários deveriam ser levados à fogueira. Tá tá, não foi pra tanto, mas a verdade é que por muito tempo eu o evitei. Preferia qualquer artimanha a usá-lo. Poderia ser "ao nível de", poderia ser "em nível de", até mesmo "a nível + adjetivo", ou qualquer outra coisa.

Infelizmente, eles estavam errados. Quem eles pensam que são, para quererem controlar a língua? São meros usuários seus que precisam acostumar-se a dobrar-se perante sua soberania. A língua está viva e empresta seu poder a quem quiser usá-la (apesar de estar perdendo de longe na competição com o inglês como "a língua de prestígio" entre os falantes brasileiros).

Bem, enfim... apesar de perceber algumas coisas engraçadas do que dizemos aqui ou ali, tenho tentado comentar sempre com as pessoas sobre essa idéia de que a língua evolui por si só e que nada do que falamos é de verdade "errado". Por outro lado, tendo a tentar conscientizar (apesar de não ser muito bom nisso) de que, se somos seus falantes, podemos influenciá-la falando do modo como queremos que ela fique. Afinal, cada um tem o seu "dialeto".

Assim, tendo a tentar comentar sobre o quão legais são os gerundismos, que em geral indicam um futuro pelo qual o falante não dá quase nenhuma garantia. Por exemplo, frases como

Às 10h estarei chegando aí.
Às 10h estou chegando aí.
Às 10h vou estar chegando aí.

me dão a impressão de dar muito menos garantia ao ouvinte de que "o locutor realmente chegará lá às 10h" do que

Às 10h chegarei aí.
Às 10h vou chegar aí.
Às 10h chego aí.

Enfim... o "tirar a temperatura" é a mesma coisa. Quando eu era criança, ouvi infinitas reclamações dos professores de português comentando sobre como "tirar a temperatura" era errado e sobre que o certo deveria ser "inferir a temperatura". Fico me perguntando: que importância isso tem? Não é até mais bonito termos palavras fortemente associadas a outras com um claro significado não relacionado ao seu significado natural? Eu acho, ao menos!

Assim, não me interessa se "tiramos um curso de direito", se "digerimos uma informação", se "lavramos uma ata" ou o que for: pra mim, quanto mais cheio de detalhes e pequenas sutilezas a língua for, melhor.




Terminando...

Essas coisas são só algumas das várias que tenho escritas no meu caderninho [e, por acaso, lembrei de mais uma que esquecera de anotar].

Aliás, a criação de palavras também tem tentado ser frequente ultimamente, já que tem me ocorrido bastante de não encontrar a palavra certa pra pequenas coisas que às vezes quero dizer. Por exemplo, no parágrafo anterior, onde disse "coisas", quis dizer "coisas que percebo"... e, na falta de algo como "percepções" ou "percebidas" ou "percebentes" ou coisa do gênero acabei usando um simples "coisas". Talvez no futuro tome a coragem necessária para tacar alguma dessas no meio dos meus textos por aqui e acreditar que não vos escandalizareis por isso.

E, aliás, se tiverdes percebido, tenho tentado referir-me ao leitor através da segunda pessoa do plural. Soa mais próximo do modo como tenho tentado pelo menos pensar ultimamente.

R$

3 comentários:

  1. Qualquer pessoa que condene "tirar a temperatura" mas não "tirar uma foto" merece uma morte horrível. :P (Embora entre as pessoas com quem eu convivo se diga "medir a temperatura".)

    Viu? Ficou enrolando para escrever os posts e eu escrevi um sobre o "vim" primeiro. :P Mas não tinha me ligado disso do vim -> virem...

    Interessante isso da "zero copula" em português. "Cadê" é o mais bizarro de todos, porque nesse caso a cópula não é simplesmente opcional, mas sim proibida. "Cadê" é praticamente um verbo (embora eu já tenha experimentado dizer "cadeva" (= "onde estava") e as pessoas consistentemente não entendem o que eu quis dizer; a imaginação das pessoas me decepciona :P). O DLPO diz que "cadê" é uma contração de "que é de"...

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  2. Que que é "DLPO"? Não sei D= (digo, não consigo encontrar o significado da sigla, apesar de perceber que tem alguma relação com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

    Sobre "cadê", acho legal que minha família diz "quedelhe" (o Priberam até sugere "Quedê" como sinônimo). Também... sobre a contração, eu não sei o porquê, mas acho que se eu fosse pôr no passado ía tentar algo como "cadia" (HEUAHEUHAEUAHEUAH), acho que porque "cadê" me soa como verbo da segunda conjugação (tipo "cader").

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  3. DLPO = Dicionário da Língua Portuguesa Online (o ex-nome do Priberam, segundo a página). Eu chamo ele de DLPO por causa da URL; nem lembrava mais do significado da sigla...

    Faz sentido o "cadia", mas por alguma razão "cadeva" soa mais "normal" pra mim, embora isso não faça muito (a.k.a. nenhum) sentido :P

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