9 de mar de 2013

Anotativos #2 -- O quié-quié melhor em infinitivos?

Ok ok... vou repetir: tenho passado um tempão cuidando o jeito dos outros de falar e tentando entender o que há de não gramatical na fala por aí. Aqui vão algumas dessas coisas...


Socialmente, "Que + Subjuntivo" > "Infinitivo Conjugado"

O infinitivo conjugado me causou altas felicidades no tempo em que estava na Alemanha. Demorei muitíssimo pra aceitar que em alemão frases como

Ela balança sua bolsa para os outros verem sua profissão.

precisam ser ditas assim:

Ela balança sua bolsa para que os outros vejam sua profissão. 

Ou seja, orações finais (Finalsätze) que têm sujeito diferente do sujeito da oração coordenada a que ela está subordinada precisam de uma construção especial (para que essa troca de sujeitos seja feita). Digo "construção especial" porque, realmente, se o sujeito fosse o mesmo em ambas as orações, a construção relacionada ao "que" não apareceria e o verbo ficaria no infinitivo, como em

Ela balança sua bolsa para ganhar dinheiro.

Ao descobrir que esse infinitivo conjugado era uma característica específica nossa (e do galego -- que, aliás, é tudo a mesma coisa u.u), resolvi abraçá-lo e adotá-lo. Mas tem um problema: ao longo do tempo, tenho percebido que quanto mais formal uma situação, menos "esperado" é usar o infinitivo. Na televisão, jornalistas, políticos e até mesmo policiais, ao falar em público, preferem o "que + subjuntivo", deixando a alternativa para o povão, pobre, que "não sabe falar".


Minha pergunta é "por quê?". Vale a pena deixar morrer -- ou tentar levar à morte (apesar de eu não crer isso ocorrerá tão cedo) -- uma estrutura quase que exclusiva da nossa língua? Sério isso?

Bem... sei lá... só quis comentar sobre o assunto u.u (e, bem, na real, essa é minha impressão. Talvez seja só algo que ocorra entre as pessoas que eu andei cuidando... não sei).


Como É QUE tá?

Algumas pessoas frequentemente me perguntavam coisas sobre português, durante os meus tempos de Alemanha. Depois de "como perguntar o nome da pessoa?", "o que dizer ao encontrar alguém ou chegar no meio de um grupinho?" figurava certamente como a pergunta mais popular.

Se a primeira pergunta tem uma versão bastante simples e significativamente parecida com o espanhol (eu tendia a dizer "Como te chamas?" para satisfazê-los, apesar de sempre também pensar em "Qual teu nome?"), as outras duas, se têm, não servem muito bem.


Ao chegar em meio a um grupo de pessoas aqui no Brasil, tendo a simplesmente dizer "Iaê?" [ou variações] e isso serviria pra satisfazê-los (suficientemente simples, não?) não fosse a parte em que eles perguntavam exatamente o que isso significava. Dizer que não fazia sentido nenhum e que literalmente significava "And there?" era ok, até o ponto em que eles perguntavam se isso funcionaria em Portugal "as well".


A verdade é que eu não fazia/faço idéia de se "Eaí?" funcionaria em Portugal... e isso me obrigava a explicar que a versão em bom e velho português de "Eae?" era algo como "Como é que tá?". Novamente, a tradução literal era um problema (uhh gente curiosa ): em algum momento era obrigado a explicar que esse "é que" não servia pra nada e poderia ser eliminado, mas fazê-lo daria um som esquisito à frase.


Esse "problema" ocorreu tantas vezes que acabei concluindo que não valia a pena tentar explicar o "é que" e que eu tornaria a minha vida mais feliz se simplesmente dissesse que a pergunta é "igual ao espanhol": "Como estás?". Aí era só dizer que nós não tínhamos aqueles "Que pasa?" que os espanhóis frequentemente diziam (ou ao menos um dos meus amigos dizia demais).

Dado algum tempo, comecei a cuidar que esse "é que" aparece o tempo todo e nós nem mesmo percebemos o seu uso. Parece que as "WH-questions" do português perderam um pouco sua "força", sua "independência", seu sentido de viver e finalmente resolveram encontrar alguém que os acompanhasse (lol... "é que" baita polígamo).
  • O que é que o senhor gostaria de comer?
  • Quem é que chegou aí?
  • Como é que se liga essa coisa?
  • Quando é que vamos sair amanhã?
  • Onde é que ele vai com toda essa pressa?
  • Por que é que tá tudo esculhambado desse jeito?
Me pergunto: gerará isso alguma mudança na língua no futuro? Será que isso vai se tornar "certo"? Engraçado é que [oops?] tem sempre a variação sem o "é":
  • O que que o senhor gostaria de comer?
  • Quem que chegou aí?
  • Como que se liga essa coisa?
  • Quando que vamos sair amanhã?
  • Onde que ele vai com toda essa pressa?
  • Por que que tá tudo esculhambado desse jeito?
Enfim... algo que me chama a atenção e que me é bem estranhinho.


Intensamentor, Melhor, Rapidor, Fortor

O inglês tem essa coisa: escreve-se "better", "harder", "bigger", "stranger", ..., mas escreve-se também "more complex", "more difficult", "more interesting", ....

Esses dias me peguei cuidando: a gente também tem palavras cujo "aumentativo" segue o padrão do inglês. Em especial, somente 4 palavras me vêm à mente. Não sei se essa é uma lista extensiva de todas as pertencentes à língua, mas ao menos são suficiente pra causar a confusão de crianças e obrigar pais e professores a corrigir durante eras expressões como "mais grande" ou "mais bom". São elas: maior, menor, pior e melhor.

Pior! [dizem meus parentes quando eu lhes digo algo bastante óbvio de que eles não tinham se ligado ainda u.u]

Antes de escrever isso aqui, perguntei à minha mãe o que ela acharia se disséssemos "estranhor" (pronunciai com o "ó" aberto, como em "melhor") em vez de "mais estranho". Ela só faltou me sentar um tapa... disse que tenho cada idéia. Mas é sério: por que falamos desse jeito? Não seria legal se seguíssemos o padrão e pudéssemos dizer coisas como "esquisitor", "fortor", "azulor"? Na verdade, eu queria somente ao menos que isso fosse gramatical, aceito.

(Ok ok, eu sei que seguir essa lógica seria dizer "grandor" pra "mais grande"; mas quem disse que não podemos ter irregularidades?)


Concluindo

Enfim, esse foi mais um texto desses em que falo dessas bobagens que me vêm à mente. Comentai aí \o/ Ficarei feliz em receber comentários, mesmo que sejam dizendo que meus textos são uma bosta n_n

R$

5 comentários:

  1. Eu espero que esse infinitivo pessoal viva por muito tempo, e não tenho notado nenhuma decadência ainda. :-) Uma pena que em poucos casos ele seja distinguível do infinitivo normal: os mais comuns são "vermos" e "verem" mesmo.

    Esse quié-quié é um negócio que tem me incomodado ultimamente (a ponto de tentar diminuir meu uso dele... às vezes). O intensificador "é que" ficou tão comum que [1] muitas frases soam mal sem ele (embora a gente ainda o transponha pouco para a escrita); [2] e parece até que vão surgir novas palavras: quié-quié, queque, quenque, cômoque, ôndeque.

    Imaginem noutras épocas onde a tradição literária e a alfabetização fossem menores e surgisse uma ortografia própria do português totalmente desconectada das outras línguas latinas. Esquecendo que um dia já houve um "é que" no meio dessas expressões, poderíamos ter os interrogativos:

    Ukek, kenk, kômok, kwândok, ôndek, purkek. Com esses Ks no final, até parece outra língua :-)

    Aliás, estou faz tempo tentando relacionar o francês Qu'est-ce que (pronuncia-se kesk) com o nosso quié-quié. Tem tudo a ver uma coisa com a outra, mas aquele "ce" ali no meio continua sem tradução... (aliás, preciso voltar a estudar francês, continuo sabendo quase nada)

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  2. Somewhat related:

    http://en.wikipedia.org/wiki/Cleft_sentence

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  3. Se fosse pra traduzir literalmente, eu traduziria "como é que te chamas?" por "how is it that you're called?". Esse tipo de coisa pode ser menos comum em inglês, mas certamente é "padrão".

    Quanto ao "e aí?", "aí" é mais versátil do que meramente "there":

    "Eu estava na rua, e aí veio um carro..." (~ "and then")

    "Fui na festa ontem."
    "E aí?" (~ "so?")
    "Foi terrível!"

    "Está chovendo."
    "E daí?" (~ "so what?")

    "Se chovesse, aí sim seria um problema." (~ "then")

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  4. Marcus: Sim sim... o infinitivo conjugado não tá pra morrer. Mas ele sempre soa mais povão, não? Sei lá... eu espero mais frequência do "que + subjuntivo" numa fala "formal" do que do infinitivo conjugado u.u

    Vitor: sim sim, mas a moral é que esse "é que" tem bem menos "força" no português do que me parece ter no inglês, não? Acho que se eu fosse traduzi-lo pro português acabaria me obrigando a pôr um "mesmo" no fim da frase. Tipo um "Como é que tu te chamas mesmo?".

    E, sobre o "eae" ali, nem tinha me ligado que o usava em tantos outros lugares assim também <o

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  5. Pois é, em português isso é bem mais comum, acho. E eu tenho uma prima que dizia (não sei se ainda diz, agora ela é maiorzinha :P) "onde que" meio que consistentemente ao invés de "onde". Coisas do tipo "eu fui lá onde que o vô tinha ido". :P

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