20 de mar de 2013

Dar uma + particípio feminino

Anteontem eu estava voltando pra casa no ônibus conversando com alguém que faz mestrado na universidade em que estudo -- e que conheci através de um pseudo-evento que o Matehackers fez na usina do Gasômetro -- e percebi mais uma dessas coisas legais sobre que eu vivo pensando ultimamente. [Essa postagem é só pra não deixar que isso se perca no meu esquecimento]

Em qualquer momento, estávamos falando sobre concursos de "quem consegue fazer mais em menos bytes de programas" (ele empolgadamente me comentava sobre como isso tinha alguns eventos grandes voltados ao assunto e sobre como era legal ver gente escrevendo programas incríveis em pouquíssimos bytes) e ele me mandou que entrasse em um site (que eu esqueci) para dar uma olhada no assunto.

Por acaso, na hora, atinei: "bááá... mas esse dar uma olhada é o mesmo que olhar". E, na hora, fiquei comparando qual seria a diferença de dar uma conversada e conversar, ou dar uma incomodada e incomodar. A diferença, percebe-se, está no "aspecto", i.e., apesar de ambos funcionarem como "infinitivo", dar uma olhada me dá muito mais a impressão de que eu realizarei o verbo só "um pouquinho" (isso é aspecto, né? [dúvida])

Daí hoje eu tava pensando que às vezes soa estranho dizer que alguém vai dar uma + particípio feminino, mas não consegui definir exatamente quando. Por exemplo, todo mundo diz que vai dar uma cagada, mas ninguém diz que vai dar uma matriculada do Pelé na natação, ou que vai dar uma conseguida.

Enfim... era só pra comentar sobre isso v_V

R$

9 de mar de 2013

Anotativos #2 -- O quié-quié melhor em infinitivos?

Ok ok... vou repetir: tenho passado um tempão cuidando o jeito dos outros de falar e tentando entender o que há de não gramatical na fala por aí. Aqui vão algumas dessas coisas...


Socialmente, "Que + Subjuntivo" > "Infinitivo Conjugado"

O infinitivo conjugado me causou altas felicidades no tempo em que estava na Alemanha. Demorei muitíssimo pra aceitar que em alemão frases como

Ela balança sua bolsa para os outros verem sua profissão.

precisam ser ditas assim:

Ela balança sua bolsa para que os outros vejam sua profissão. 

Ou seja, orações finais (Finalsätze) que têm sujeito diferente do sujeito da oração coordenada a que ela está subordinada precisam de uma construção especial (para que essa troca de sujeitos seja feita). Digo "construção especial" porque, realmente, se o sujeito fosse o mesmo em ambas as orações, a construção relacionada ao "que" não apareceria e o verbo ficaria no infinitivo, como em

Ela balança sua bolsa para ganhar dinheiro.

Ao descobrir que esse infinitivo conjugado era uma característica específica nossa (e do galego -- que, aliás, é tudo a mesma coisa u.u), resolvi abraçá-lo e adotá-lo. Mas tem um problema: ao longo do tempo, tenho percebido que quanto mais formal uma situação, menos "esperado" é usar o infinitivo. Na televisão, jornalistas, políticos e até mesmo policiais, ao falar em público, preferem o "que + subjuntivo", deixando a alternativa para o povão, pobre, que "não sabe falar".


Minha pergunta é "por quê?". Vale a pena deixar morrer -- ou tentar levar à morte (apesar de eu não crer isso ocorrerá tão cedo) -- uma estrutura quase que exclusiva da nossa língua? Sério isso?

Bem... sei lá... só quis comentar sobre o assunto u.u (e, bem, na real, essa é minha impressão. Talvez seja só algo que ocorra entre as pessoas que eu andei cuidando... não sei).


Como É QUE tá?

Algumas pessoas frequentemente me perguntavam coisas sobre português, durante os meus tempos de Alemanha. Depois de "como perguntar o nome da pessoa?", "o que dizer ao encontrar alguém ou chegar no meio de um grupinho?" figurava certamente como a pergunta mais popular.

Se a primeira pergunta tem uma versão bastante simples e significativamente parecida com o espanhol (eu tendia a dizer "Como te chamas?" para satisfazê-los, apesar de sempre também pensar em "Qual teu nome?"), as outras duas, se têm, não servem muito bem.


Ao chegar em meio a um grupo de pessoas aqui no Brasil, tendo a simplesmente dizer "Iaê?" [ou variações] e isso serviria pra satisfazê-los (suficientemente simples, não?) não fosse a parte em que eles perguntavam exatamente o que isso significava. Dizer que não fazia sentido nenhum e que literalmente significava "And there?" era ok, até o ponto em que eles perguntavam se isso funcionaria em Portugal "as well".


A verdade é que eu não fazia/faço idéia de se "Eaí?" funcionaria em Portugal... e isso me obrigava a explicar que a versão em bom e velho português de "Eae?" era algo como "Como é que tá?". Novamente, a tradução literal era um problema (uhh gente curiosa ): em algum momento era obrigado a explicar que esse "é que" não servia pra nada e poderia ser eliminado, mas fazê-lo daria um som esquisito à frase.


Esse "problema" ocorreu tantas vezes que acabei concluindo que não valia a pena tentar explicar o "é que" e que eu tornaria a minha vida mais feliz se simplesmente dissesse que a pergunta é "igual ao espanhol": "Como estás?". Aí era só dizer que nós não tínhamos aqueles "Que pasa?" que os espanhóis frequentemente diziam (ou ao menos um dos meus amigos dizia demais).

Dado algum tempo, comecei a cuidar que esse "é que" aparece o tempo todo e nós nem mesmo percebemos o seu uso. Parece que as "WH-questions" do português perderam um pouco sua "força", sua "independência", seu sentido de viver e finalmente resolveram encontrar alguém que os acompanhasse (lol... "é que" baita polígamo).
  • O que é que o senhor gostaria de comer?
  • Quem é que chegou aí?
  • Como é que se liga essa coisa?
  • Quando é que vamos sair amanhã?
  • Onde é que ele vai com toda essa pressa?
  • Por que é que tá tudo esculhambado desse jeito?
Me pergunto: gerará isso alguma mudança na língua no futuro? Será que isso vai se tornar "certo"? Engraçado é que [oops?] tem sempre a variação sem o "é":
  • O que que o senhor gostaria de comer?
  • Quem que chegou aí?
  • Como que se liga essa coisa?
  • Quando que vamos sair amanhã?
  • Onde que ele vai com toda essa pressa?
  • Por que que tá tudo esculhambado desse jeito?
Enfim... algo que me chama a atenção e que me é bem estranhinho.


Intensamentor, Melhor, Rapidor, Fortor

O inglês tem essa coisa: escreve-se "better", "harder", "bigger", "stranger", ..., mas escreve-se também "more complex", "more difficult", "more interesting", ....

Esses dias me peguei cuidando: a gente também tem palavras cujo "aumentativo" segue o padrão do inglês. Em especial, somente 4 palavras me vêm à mente. Não sei se essa é uma lista extensiva de todas as pertencentes à língua, mas ao menos são suficiente pra causar a confusão de crianças e obrigar pais e professores a corrigir durante eras expressões como "mais grande" ou "mais bom". São elas: maior, menor, pior e melhor.

Pior! [dizem meus parentes quando eu lhes digo algo bastante óbvio de que eles não tinham se ligado ainda u.u]

Antes de escrever isso aqui, perguntei à minha mãe o que ela acharia se disséssemos "estranhor" (pronunciai com o "ó" aberto, como em "melhor") em vez de "mais estranho". Ela só faltou me sentar um tapa... disse que tenho cada idéia. Mas é sério: por que falamos desse jeito? Não seria legal se seguíssemos o padrão e pudéssemos dizer coisas como "esquisitor", "fortor", "azulor"? Na verdade, eu queria somente ao menos que isso fosse gramatical, aceito.

(Ok ok, eu sei que seguir essa lógica seria dizer "grandor" pra "mais grande"; mas quem disse que não podemos ter irregularidades?)


Concluindo

Enfim, esse foi mais um texto desses em que falo dessas bobagens que me vêm à mente. Comentai aí \o/ Ficarei feliz em receber comentários, mesmo que sejam dizendo que meus textos são uma bosta n_n

R$

7 de mar de 2013

Prefixo de Negação

Tenho pensado um pouco sobre uma falta de lógica em alguns aspectos da língua, e esse é o primeiro de alguns posts que farei sobre o assunto, provavelmente.

Tudo começou quando lembrei de um ocorrido da minha 7ª série. Na época, não conhecia a palavra "assalariado", no que, ao vê-la no livro de geografia (e ao ouvi-la pela boca da professora), através de um conjunto de regras internalizado pela lógica que acreditava que a língua tivesse, concluí que significasse "sem salário". Afinal, quem tivesse salário deveria ser "salariado", não?

Então comecei a perceber que são muitíssimos os casos em que esse prefixo "a", que me ensinaram ser de negação, na verdade não servia pra nada (só pra embelezar a palavra mesmo). [aliás, nem consigo pensar em muitas palavras onde o "a" seja de negação]. Assim, palavras como arruinar, assaltar, ater, ajuntar (tá no Aurélio), abrilhantar e até avoar (coisa que gente mais "grossa" do interior diz) têm um "a" inútil, que, se muda o significado (como em assaltar e ater) não o faz para o sentido oposto.

Outro prefixo que funciona como que de negação e que me vêm à mente frequentemente é o "des" (com sua variante "dis"). Ao menos esse parece funcionar direito, indicando "remoção de", "falta de". Assim, desmerecer significa "remover o merecimento" [ok ok, e também perder a cor, o que não vem ao caso], desconstruir é "remover a construção", desinteressar é "perder interesse", desalojar é "tirar o alojamento de", etc...

Problema é que o "des" é um prefixo guloso, que acaba engolindo um significado oposto aos prefixos "cons", "ins" e "en" em alguns casos, como em destituir, destruir, destronar e discordar (não consigo pensar em mais exemplos). Assim, me causa confusão, falta de lógica. Mais: por algum motivo, apesar de produtivo, às vezes não consigo usá-lo, mesmo quando ele denotaria exatamente aquilo que eu gostaria de dizer (como em "dislógica", i.e., "falta de lógica, que usei no início desse texto). Creio que meio que falta fazer uma diferença entre "falta de" e "remoção de", a qual eu não consigo perceber no "dis".

Por fim, como prefixo de negação, consigo pensar no "i" (e suas variações "in" e "im"), como em ilógico, impróprio e incomum. Aqui, eles denotam simplesmente "não". O problema com o "i" é que ele é (ou ao menos me parece) não muito produtivo: não geramos novas palavras com "i" (e variações) quando queremos negar coisas. Usamos "inerte" mas não criamos "inespirituoso" (não espirituoso); usamos "inóspito" mas não ousaríamos criar "inaristocrático", "inameaçador", "inotário", "imetódico", "inórdico", "inamarelo". No lugar, preferimos dizer "não" ("não nórdico", "não azul", ...), o que me desagrada.

É claro que há palavras em que o "i" não denote negação (ou ao menos não me pareça fazê-lo), como inteligente, imolar (verbo), imbecil ou imperador, mas achá-las foi bem mais difícil do que as que achei que começavam com um "a" inútil.



Tendo apresentado os prefixos de negação, eu sinto que temos alguns problemas que poderiam ser melhor resolvidos. Supondo que eu pudesse instituir uma nova língua, um novo português, eu definiria algo como o seguinte:
  1. "a" deixa definitivamente de ser tratado como prefixo de negação.
  2. "i" torna-se o prefixo padrão para negação.
  3. "des" torna-se o prefixo padrão para "remoção de", "perda de".
  4. Surge o prefixo "ne" (que tenho pensado em passar a usar, mesmo que não me entendais) para indicar "falta de".
No caso, "falta de lógica", do início desse texto, passaria a ser "nelógica" (enquanto "dislógica" seria "remoção da lógica"), e eu me sentiria feliz em comunicar mais, com menos.

[Esse texto ficou completamente bizarro e tosco. Escrevi em meio a conversalhadas dos meus parentes falando o tempo todo na minha volta. Acho que ficou uma droga, mas, que se dane, é só pra dizer que eu to incomodado com o que são os nossos prefixos de negação e que acho que tudo seria perfeito se tivéssemos ao menos algumas regras decentes de produtividade]

R$

3 de mar de 2013

Codecademy

(WOW! Ataque de produtividade? Três postagens uma atrás da outra? Sim... é que finalmente a internet tem funcionado e eu terminei de limpar e-mails, ver videos no Youtube e ler coisas que queria ler [na real, esse último ainda anda meio interminado; mas como ler me é cansativo, fico meio que procrastinando e venho pra esse blog, daí])

Apesar de estudar Ciência da Computação, sou meio "abitolado" com linguagens de programação: entendo aceitavelmente de C/C++, Java e eras isso. Quero dizer, já brinquei com banco de dados, já escrevi pequenos programas usando o Shell, ou Python, ou Lua, ou até mesmo Schala (porque o professor da cadeira me obrigava a fazê-lo), etc. Mas não tenho grandes conhecimentos e não consigo "pensar nessas linguagens".

Desde que cheguei da Alemanha, no dia 25 de janeiro, tenho pensado em tentar arranjar um estágio. Estagiar me parece a única boa forma de arranjar um dinheiro "fácil" no momento e deve me ajudar a "adquirir experiência no mercado de trabalho" (pfff... como se esse tal mercado fosse de qualquer forma bom ou se essa tal experiência fosse mais importante do que alguém que me indique para uma vaga).

Há tempos quero fazer um "site" para mim: um lugar onde eu possa postar minhas bobagens e ser feliz na internet. Esse blog tem sempre funcionado como tal, mas me sinto desprotegido contra o vigiar constante do Google sobre minhas informações. Afinal, querendo ou não, esse blog vincula à minha conta Google tudo o que digo, a saber, onde estudo, do que eu gosto, o que tenho feito, o que eu sei ou não sei sobre vários assuntos, etc. Ok ok... o blog é público, mas essa vinculação não me agrada.

[Após três parágrafos até que bastante desconexos, chega a hora de uni-los] Com o interesse em arranjar dinheiro fácil que possibilitaria talvez a hospedagem (em algum lugar não necessariamente meu, mas provavelmente) de uma página na internet para mim, e dado que não sei nada de Web (o que me impediria de "produzi-la"), comecei a brincar com o Codecademy, que tem se mostrado um grande amigo no meu aprendizado de HTML/CSS (e, futuramente, em JavaScript e Python). Estou adorando as lições e aprendendo bastante rápido \o/ Mais: acho que logo poderei postar sobre o que gosto e o que não gosto do que aprendi por aqui.

Aprender "coisas relacionadas a Web" tem sido uma vontade já há algum tempinho e quero também ver se -- se tudo der certo -- tento arranjar um emprego nessa mesma área (não que eu esteja todo cheio de dedos e que empregos estejam tão aos montes a ponto de se tornarem "escolhíveis"... afinal, quem eu penso que sou pra querer fazê-lo?; mas vou tentar, né?) pra me obrigar a exercitar o aprendizado \o/

Era isso... to feliz com o Codecademy xD Só uma propaganda n_n

R$

2 de mar de 2013

Pronomes Oblíquos

Uma coisa me tem perturbado na fala de todos que conheço: a falta de pronomes oblíquos.

Agora já fazem em torno de 2 meses (eu não sei bem quando comecei) que tenho feito um esforço enorme para colocar no meu discurso esses pronomes que, se na primeira e segunda pessoa persistem (não sem um mínimo de desânimo), na terceira estão à beira da morte. Mas, pera, antes de sair xingando todo mundo ao menos quero me certificar de que entendais do que falo.

Na nossa língua, os únicos elementos que ainda de alguma forma declinam são os pronomes. Os pronomes pessoais, assim, "acontecem" em dois distintos casos gramaticais: o caso reto e o caso oblíquo. Os pronomes do caso reto são justamente aqueles mais comuns: eu, tu, ele, nós, vós, eles. Relacionados a cada um deles, existem pronomes no caso oblíquo. A wikipedia tem uma tabela tri legal sobre o assunto (a qual eu aqui reproduzo aqui embaixo). Como podeis ver, o caso oblíquo também tem uma classificação entre "tônico" e "átono".

Agora eu vos pergunto: quando é que o caso oblíquo deve ser usado? (uma pergunta para que a resposta poucos ainda sabem) Minha resposta: em geral, quando o pronome pessoal não for o sujeito da frase. Exemplos óbvios:

Ela te viu saindo do cinema.
Esse cachorro me mordeu.
Eu vou lá buscar um sorvete pra ti.
Mãe! Traz uma água pra mim?

Nessas quatro frases, somente a primeira e segunda pessoa do plural aparecem, e ambos pronomes oblíquos átonos e tônicos parecem soar bem (ao menos pra mim). Tá... e qual é o problema então? Calma... preciso só fazer mais uma pergunta: qual a diferença entre pronomes oblíquos átonos e tônicos?

Pronomes pessoais oblíquos átonos substituem o nome nos objetos diretos e, em geral, tendem a ser realmente átonos (do ponto de vista da acentuação). Pronomes tônicos substituem nomes em objetos indiretos (i.e., precedidos de alguma preposição) e tendem a ser tônicos.

A grande exceção à regra são os pronomes átonos lhe e lhes, que apesar de átonos agem como objeto indireto e engolem a preposição junto com o nome. Há restrições a seu uso, porém: as únicas preposições que o permitem são a e para.

Agora posso falar do que me aflige. Apreciai a seguinte frase:

Ela viu ele saindo do cinema.

O que há de bizarro nessa frase? Apesar da frase me parecer perfeitamente proferível por qualquer brasileiro, tenho minhas dúvidas sobre qual a probabilidade de um português dizê-la (i.e., me pergunto se o erro ocorre também em Portugal). Ele no exemplo substitui um objeto direto e, de acordo com a tabela, o único pronome oblíquo possível para essa situação seria o o, como em:

Ela o viu saindo do cinema.

A outra possibilidade seria a ênclise, que em Portugal acontece bastante no início das frases:

Ela viu-o saindo do cinema.

E por que isso ocorreu? Eu não sei! Mas tenho uma crença... e na minha opinião o problema está com um "pronome" sobre o qual eu ainda não comentei até agora: a culpa é do você!

O problema é do você!
(eu to com um monte de coisas na cabeça pra falar mas ainda não consegui estruturar tudo de um jeito que faça sentido)

Qual o problema com o você, agora? Bem... ao longo do tempo, mais ou menos temos perdido o tu e implantado uma ditadura do você. Ao usar você, nada declina, nada muda, tudo fica rígido em pedra. Os pronomes oblíquos da "segunda" pessoa se tornam desnecessários. As seguinte frases são as mesmas de antes, só que substituindo o te e ti por você.

Ela viu você saindo do cinema.
Eu vou lá buscar um sorvete pra você.
Você nem falou comigo hoje.

Mais do que isso, pronomes oblíquos átonos de terceira pessoa podem causar ambiguidades:

Ela o viu saindo do cinema.
Eu vou lá  buscar-lhe um sorvete.

E os pronomes oblíquos tônicos são iguais aos pronomes pessoais!

Percebam também que a ordem da frase muda:

Ela o viu saindo do cinema. [Forma que seria mais comum num Brasil sem você]
Ela viu você saindo do cinema.

E daí? E daí que tem mais um efeito colateral, dessa vez nos pronomes possessivos, decorrente do uso de você: passamos a preferir dele/dela a seu/sua. O uso de você fez com que seu/sua passasse a causar ambigüidades e padronizou a ordem "nome --> de + pronome oblíquo tônico [que, no caso, acaba sempre confundível com o pronome reto]" sempre que o pronome estiver na terceira pessoa (e também na segunda pessoa do plural).




Tá... aqui eu chego na parte em que eu xingo a Rede Globo. Andei assistindo a um monte de TV ultimamente, já que minha internet andava um lixo. Depois de acostumar mais ou menos com essa coisa de "usar pronomes oblíquos átonos", admito que fico meio "agredido" toda vez que ouço um "ele" fora do lugar [estou exagerando, mas, enfim].

Ao assistir alguns filmes dublados, tive de tirar meu chapéu: a sua imensa maioria ainda fala tudo direitinho. É de se emocionar \o/ As legendas das séries legendadas também! Mas estive vendo algumas novelas da Globo e admito que, se antes eu já não gostava, agora não consigo nem parar muito tempo na sua frente: não tem um o ou lhe usado decentemente na terceira pessoa. Os da "segunda" [você] vão OK, mas a terceira é sempre ele pra cá, ele pra lá... um horror =O E isso que eu nem to reclamando dos "pra tu" que os vileiros falam (porque como se já não bastasse matar os pronomes da terceira pessoa eles ainda querem eliminar os da segunda).



Enfim... essa postagem era mais pra "levantar conhecimento" [raise awareness?] sobre esse assunto. Sei que é bem provável que ninguém se interesse em mudar seu modo de falar só pra tentar manter uma característica na língua... e penso que é até que bem provável que ao longo do tempo a eliminemos, mas não me custa tentar.

R$

1 de mar de 2013

Anotativos

Nos últimos tempos, venho notando uma série de coisas no que outros falam. Muitas delas se perdem, dado que ocorrem em lugarem/ocasiões onde não posso anotá-las, por qualquer motivo (tipo aquela idéia maravilhosa e incrível que vem à cabeça logo antes de dormir e que no dia posterior não se revela à mente não importante o esforço que a gente faça ).

Bem... mas algumas delas eu andei anotando, e essa postagem é talvez a primeira de uma série andei pensando em fazer.


Cópula

Numa postagem anterior já havia comentado que havia lido sobre o que é "Cópula", apesar de não ter comentado sobre ela em si. Na época, achei interessante que o artigo em português para o qual eu era redirecionado ao "trocar de língua" vindo do artigo "Copula", em inglês, era o dos "Verbos de Ligação". Assim, ok, temos várias cópulas, sendo as mais importantes o "ser" e o "estar".

Aliás, também fiquei orgulhozinho porque esse artigo aqui diz que o português tem essa outra cópula no verbo "ficar" -- como em "A igreja fica na Cidade Baixa".

Mas e daí? Bem, antes de continuar, peço que leiais as seguintes frases:

1 - Qual o problema contigo?
2 - Qual o maior estado brasileiro?
3 - Cadê tua mãe?
4 - Quê isso?

A minha pergunta: cadê o verbo nessas frases? Todas as frases, com exceção da última (que talvez tenha forçado um pouco a barra) são frases que eu tenho certeza de que qualquer um (ao menos no meu meio social) usaria sem problema algum. Mais: todas elas exigem cópula. E o que ocorre? A gente tende a omitir a cópula em situações bem específicas.

Daí eu li o seguinte: "Russian and other East Slavic languages generally omit the copula in the present tense." (Russo e outras línguas eslavas do leste em geral omitem a cópula no tempo presente)

Nós também, às vezes, dependendo de como começamos nossas frases (e, aliás, isso me remete à escola quando os professores sempre ditavam as perguntas com "Qual é" e eu escrevi somente "Qual" pra economizar mão).

Sei lá... é algo que achei legal compartilhar n_n

Vim

Estava conversando com um amigo e ele me reclamou de ter visto alguém no Facebook escrevendo "vir" como futuro do subjuntivo do verbo "ver". Na hora o "exortei" [palavra de crente detected], explicando que a pessoa havia feito certo e que o futuro do subjuntivo do verbo "vir" seria "vier".

Na mesma hora atinei de uma coisa: e o "vim"? Consagrado na fala de todo brasileiro, tanto no RS quanto no RJ e até mesmo no PE (dada a minha amostra, que abrangia pessoas desses três estados), percebi que essa forma (que, na real, deveria ser somente o pretérito perfeito do indicativo) se tornou padrão para tanto o futuro do subjuntivo quanto o infinitivo conjugado da primeira pessoa do singular do verbo "vir". Em palavras mais simples, as frases

Quando eu vier morar aqui, farei uma festa. [futuro do subjuntivo]
Vai arrecadar dinheiro, pra eu vir morar aqui. [infinitivo conjugado]

se tornaram, no nosso dia-a-dia,

Quando eu vim morar aqui, farei uma festa. [futuro do subjuntivo]
Vai arrecadar dinheiro, pra eu vim morar aqui. [infinitivo conjugado]

Mais: como pouca gente conjuga a segunda pessoa (tanto do singular quanto do plural), ninguém tenta dizer coisas como "quando tu vinheres", ou algo do gênero. Mesmo assim, na terceira pessoa do plural, o verbo "vim" [que eu passei a gostar de chamar de "o primeiro verbo cujo infinitivo não tem R na nossa língua"] acaba perdendo o "e" e assumindo a mesma forma do "ver":

Quando eles virem morar aqui, farei uma festa. [virem, em vez de vierem]

Apesar das "perdas", não posso dizer que me incomoda a confusão toda. A língua seguirá seu caminho e se houver necessidade fará suas diferenciações ao longo do tempo. Digo isso porque, de tantas perdas que tenho notado ultimamente, esse tipo de coisa é o menor dos nossos problemas.

"Aberrações"

Alguns os chamariam de aberrações; eu os abraço e ultimamente tenho até meio que me esforçado (mas falhado quase que miseravelmente) pra usá-los: estou falando de coisas como "a nível de", "tirar a temperatura" e os famigerados "gerundismos".

Lembro de quando estava fazendo cursinho: os professor abominavam aparições de "a nível de"! Me fizeram acreditar que era um problema, que era algo que devia ser eliminado, e que os seus usuários deveriam ser levados à fogueira. Tá tá, não foi pra tanto, mas a verdade é que por muito tempo eu o evitei. Preferia qualquer artimanha a usá-lo. Poderia ser "ao nível de", poderia ser "em nível de", até mesmo "a nível + adjetivo", ou qualquer outra coisa.

Infelizmente, eles estavam errados. Quem eles pensam que são, para quererem controlar a língua? São meros usuários seus que precisam acostumar-se a dobrar-se perante sua soberania. A língua está viva e empresta seu poder a quem quiser usá-la (apesar de estar perdendo de longe na competição com o inglês como "a língua de prestígio" entre os falantes brasileiros).

Bem, enfim... apesar de perceber algumas coisas engraçadas do que dizemos aqui ou ali, tenho tentado comentar sempre com as pessoas sobre essa idéia de que a língua evolui por si só e que nada do que falamos é de verdade "errado". Por outro lado, tendo a tentar conscientizar (apesar de não ser muito bom nisso) de que, se somos seus falantes, podemos influenciá-la falando do modo como queremos que ela fique. Afinal, cada um tem o seu "dialeto".

Assim, tendo a tentar comentar sobre o quão legais são os gerundismos, que em geral indicam um futuro pelo qual o falante não dá quase nenhuma garantia. Por exemplo, frases como

Às 10h estarei chegando aí.
Às 10h estou chegando aí.
Às 10h vou estar chegando aí.

me dão a impressão de dar muito menos garantia ao ouvinte de que "o locutor realmente chegará lá às 10h" do que

Às 10h chegarei aí.
Às 10h vou chegar aí.
Às 10h chego aí.

Enfim... o "tirar a temperatura" é a mesma coisa. Quando eu era criança, ouvi infinitas reclamações dos professores de português comentando sobre como "tirar a temperatura" era errado e sobre que o certo deveria ser "inferir a temperatura". Fico me perguntando: que importância isso tem? Não é até mais bonito termos palavras fortemente associadas a outras com um claro significado não relacionado ao seu significado natural? Eu acho, ao menos!

Assim, não me interessa se "tiramos um curso de direito", se "digerimos uma informação", se "lavramos uma ata" ou o que for: pra mim, quanto mais cheio de detalhes e pequenas sutilezas a língua for, melhor.




Terminando...

Essas coisas são só algumas das várias que tenho escritas no meu caderninho [e, por acaso, lembrei de mais uma que esquecera de anotar].

Aliás, a criação de palavras também tem tentado ser frequente ultimamente, já que tem me ocorrido bastante de não encontrar a palavra certa pra pequenas coisas que às vezes quero dizer. Por exemplo, no parágrafo anterior, onde disse "coisas", quis dizer "coisas que percebo"... e, na falta de algo como "percepções" ou "percebidas" ou "percebentes" ou coisa do gênero acabei usando um simples "coisas". Talvez no futuro tome a coragem necessária para tacar alguma dessas no meio dos meus textos por aqui e acreditar que não vos escandalizareis por isso.

E, aliás, se tiverdes percebido, tenho tentado referir-me ao leitor através da segunda pessoa do plural. Soa mais próximo do modo como tenho tentado pelo menos pensar ultimamente.

R$