7 de mar de 2013

Prefixo de Negação

Tenho pensado um pouco sobre uma falta de lógica em alguns aspectos da língua, e esse é o primeiro de alguns posts que farei sobre o assunto, provavelmente.

Tudo começou quando lembrei de um ocorrido da minha 7ª série. Na época, não conhecia a palavra "assalariado", no que, ao vê-la no livro de geografia (e ao ouvi-la pela boca da professora), através de um conjunto de regras internalizado pela lógica que acreditava que a língua tivesse, concluí que significasse "sem salário". Afinal, quem tivesse salário deveria ser "salariado", não?

Então comecei a perceber que são muitíssimos os casos em que esse prefixo "a", que me ensinaram ser de negação, na verdade não servia pra nada (só pra embelezar a palavra mesmo). [aliás, nem consigo pensar em muitas palavras onde o "a" seja de negação]. Assim, palavras como arruinar, assaltar, ater, ajuntar (tá no Aurélio), abrilhantar e até avoar (coisa que gente mais "grossa" do interior diz) têm um "a" inútil, que, se muda o significado (como em assaltar e ater) não o faz para o sentido oposto.

Outro prefixo que funciona como que de negação e que me vêm à mente frequentemente é o "des" (com sua variante "dis"). Ao menos esse parece funcionar direito, indicando "remoção de", "falta de". Assim, desmerecer significa "remover o merecimento" [ok ok, e também perder a cor, o que não vem ao caso], desconstruir é "remover a construção", desinteressar é "perder interesse", desalojar é "tirar o alojamento de", etc...

Problema é que o "des" é um prefixo guloso, que acaba engolindo um significado oposto aos prefixos "cons", "ins" e "en" em alguns casos, como em destituir, destruir, destronar e discordar (não consigo pensar em mais exemplos). Assim, me causa confusão, falta de lógica. Mais: por algum motivo, apesar de produtivo, às vezes não consigo usá-lo, mesmo quando ele denotaria exatamente aquilo que eu gostaria de dizer (como em "dislógica", i.e., "falta de lógica, que usei no início desse texto). Creio que meio que falta fazer uma diferença entre "falta de" e "remoção de", a qual eu não consigo perceber no "dis".

Por fim, como prefixo de negação, consigo pensar no "i" (e suas variações "in" e "im"), como em ilógico, impróprio e incomum. Aqui, eles denotam simplesmente "não". O problema com o "i" é que ele é (ou ao menos me parece) não muito produtivo: não geramos novas palavras com "i" (e variações) quando queremos negar coisas. Usamos "inerte" mas não criamos "inespirituoso" (não espirituoso); usamos "inóspito" mas não ousaríamos criar "inaristocrático", "inameaçador", "inotário", "imetódico", "inórdico", "inamarelo". No lugar, preferimos dizer "não" ("não nórdico", "não azul", ...), o que me desagrada.

É claro que há palavras em que o "i" não denote negação (ou ao menos não me pareça fazê-lo), como inteligente, imolar (verbo), imbecil ou imperador, mas achá-las foi bem mais difícil do que as que achei que começavam com um "a" inútil.



Tendo apresentado os prefixos de negação, eu sinto que temos alguns problemas que poderiam ser melhor resolvidos. Supondo que eu pudesse instituir uma nova língua, um novo português, eu definiria algo como o seguinte:
  1. "a" deixa definitivamente de ser tratado como prefixo de negação.
  2. "i" torna-se o prefixo padrão para negação.
  3. "des" torna-se o prefixo padrão para "remoção de", "perda de".
  4. Surge o prefixo "ne" (que tenho pensado em passar a usar, mesmo que não me entendais) para indicar "falta de".
No caso, "falta de lógica", do início desse texto, passaria a ser "nelógica" (enquanto "dislógica" seria "remoção da lógica"), e eu me sentiria feliz em comunicar mais, com menos.

[Esse texto ficou completamente bizarro e tosco. Escrevi em meio a conversalhadas dos meus parentes falando o tempo todo na minha volta. Acho que ficou uma droga, mas, que se dane, é só pra dizer que eu to incomodado com o que são os nossos prefixos de negação e que acho que tudo seria perfeito se tivéssemos ao menos algumas regras decentes de produtividade]

R$

8 comentários:

  1. O senhor está a um passo de se tornar um conlanger, e com esse "ne" a meio passo de se tornar um esperantista. :P

    Eu fiquei muito tempo sem entender a moral do "a-que-às-vezes-nega", até que em algum momento eu descobri que etimologicamente existem *dois* prefixos "a-": um que vem do prefixo grego "a(n)-", e que sempre (tanto quanto me consta) é negação, e um que vem da preposição latina "ad", que é a mãe da nossa preposição "a", e que os romanos aparentemente adoravam tacar como prefixo em tudo que era palavra. Daí temos coisas como "assimilar" (assimilare = ad+similare, tornar similar) e assemelhados (oops! :P).

    (Ok, talvez tenha algum princípio melhor por trás do "ad" além de os romanos gostarem muito dele, mas este me escapa.)

    O detalhe interessante é que em latim (e em inglês, graças à tão xingada ortografia etimológica) é possível distinguir os dois "a-", já que o "ad" não perde seu 'd' sem deixar marcas. O que acontece é que o latim normalmente não permite certos encontros consonantais, e nas situações em que eles ocorreriam, a segunda consoante sofre assimilação (!!) pela primeira. Assim, o "a- de 'ad'" é reconhecível por deixar uma consoante dupla: assimilate, appear, attend, etc. O mesmo princípio está por trás de support (sub+portare, carregar por baixo), suppress, immolate, etc.

    O caso do 'in' é mais complicado, porque em latim existe tanto um prefixo 'in-' (que é parente do 'a(n)-' grego e indica negação), quanto uma preposição 'in' (que é a mãe do nosso "em", e também pode ser usada como prefixo em latim), e como ambas terminam em 'n', ambas causam assimilação, e portanto não tem como distingui-las pela consoante dupla.

    Quanto ao "des-", vou ter que pensar/pesquisar direito, mas suspeito seriamente que no caso do construir/destruir/instruir o radical é '-struir', não '-truir' (afinal 'com/con' e 'in' são prefixos freqüentes, mas 'cons-' e 'ins-' não constam [heh, con-stare :P] na minha lista de fatos... e nesse caso o "des-" não é "des-", e sim "de-"...

    ResponderExcluir
  2. HEUAHEUHAUEHUAH... tive de procurar na internet o que era "conlanger" e o motivo de o "ne" me aproximar do Esperanto. Quiviáji... nunca esperaria que o Esperanto usasse "ne" também. Por algum motivo, o "ne" me soa natural pra "não". Seria um "cognato" do "non-" do inglês, na minha cabeça.

    Sobre o "a" latim e o "a" grego, eu lembro que no primeiro ano do ensino médio a gente estudou sobre prefixos e o "a" aparecia entre ambos os prefixos gregos e latinos. Não sabia, porém, de onde teriam vindo. Me incomoda não saber quase nada sobre latim. Uma hora vou ter de aprender pra ver se posso supôr melhor as origens das coisas.

    O lado bom do "i"/"in"/"im" é que ele tem meio que regras de uso de quando ele quer expressar negação:

    1 - usa-se in antes de vogais ou palavras começadas com n;
    2 - usa-se im antes de palavras começadas com m;
    3 - usa-se i nos outros casos.

    Palavras como importar, imigrante e inspirar [e até mesmo "entorno", com o "em"] não seguem essa regra. Por outro lado, "inalar" segue v_V

    Sobre o "struir", é bem provável que tu esteja certo. Eu tava só agoniado que com aquelas palavras ali -- e talvez outras em que eu não consegui pensar -- as minhas idéias não funcionavam. Aí tive de escrever um pouco sobre isso =)

    ResponderExcluir
  3. Acho que não, hein: impossível, interminável, insustentável, etc. Aaacho que as regras são as mesmas para os dois 'in's (e correspondem às manias de assimilação do latim), mas eu posso ter overlooked (supervisionado? :P como se diz isso em português?) isso...

    E estudar latim, mesmo que só um pouco, é realmente ótimo para adquirir poderes de adivinhar etimologias. :P Uma das coisas que eu acho mais interessantes e que essa história toda me lembrou é que o latim adora usar preposições como prefixos (tem um *monte* de palavras em português que a gente normalmente não pensa como compostas que são formadas dessa maneira, embora obviamente agora que eu quero um exemplo eu vou ficar meia hora pensando :P). Na verdade isso é bem parecido com os "phrasal verbs" do inglês, "só que ao contrário". E agora me ocorreu que o "ad" que-muitas-vezes-não-faz-grande-coisa-mas-às-vezes-faz-alguma-coisa-estranha parece um pouco com o "up" do inglês...

    P.S.: Viagem é o desmerecer = perder a cor... :P

    ResponderExcluir
  4. P.P.S.: "óbvio" é um ótimo exemplo... por essa eu não esperava :P

    ResponderExcluir
  5. Lol... nem me liguei. Achei que tinha um padrão bem reguladinho porque pensei só nas palavras do padrão. Tava convicto de que dava tudo certo. Viajei. Bááá... cada vez mais percebo sobre essa postagem que fiz suposições ultra loucas

    Sobre "overlook"... HUEAHUEHAUEHA... me lembra "fazer vista grossa". Eu teria dito "sobrevi" (até porque prefiro verbos da 2ª e 3ª conjugação), mas, sim, não sei como dizer (é uma boa nova palavra pra inventar \o/). "Grossever"... HEUAHEUHAUEHA...

    Pois é... estudar latim seria uma boa. To cada vez mais pensante em fazer um curso de lingüística ao terminar a graduação. Graduação mesmo, pra me fuder por mais uns anos. Problema é onde. Agora mesmo tava olhando universidades nas redondezas pra ter uma idéia de onde haveria um curso de Letras voltado pra Lingüística que valesse a pena. Uma droga a UFRGS ser tão "literária" D=

    No fim, a melhor sugestão até agora foi a UBA (Universidade de Buenos Aires). Motivo: me obrigaria a ao menos aprender uma nova língua. E tem "ênfase em lingüística! Confuso

    ResponderExcluir
  6. Me lembrei das aulas de português sobre afixos na escola... Eu pensava: pra que estudar o prefixo ab-, se não posso formar nenhuma palavra com ele?

    Aprendi muito mais quando aprendi esperanto, que também usa preposições como prefixo. Tem algumas palavras (que eu não lembro agora) que começam com al-, que corresponde ao nosso a- (quando não é negação), e outras que começam com kun-, que corresponde ao nosso co-/con- (kunlabori, kunvivi = colaborar ("cotrabalhar"), conviver).

    Sobre latim, aprender sempre me parece uma boa ideia, mas nunca consegui "engrenar". Deve ser porque gosto de coisas regulares, então me adaptei mais ao esperanto. Acho muito mais legal aprender um conceito (afixos, casos, etc.) e poder aplicá-lo livremente do que ter que estudar tantas exceções a ponto de perder de vista o conceito original. Ou então porque a primeira coisa que leio sempre é a ortografia/pronúncia, e acabo desanimando logo no começo quando falam das pronúncias clássica e eclesiástica, hahaha.

    Link de autopromoção obrigatório: https://marcuscf.wordpress.com/2009/07/29/como-me-confundir/

    ResponderExcluir
  7. Sobre aprender latim, eu encontrei esse livro esses tempos [1] que me pareceu tri bom -- mas eu nunca comecei a ler D= (anyway, eu nem me preocupo com a pronúncia. Pra mim é a parte menos preocupante. Se entender a moral da gramática já to mega feliz)

    Sobre a postagem do blog... HUEAHEUHAUEHAUEHAUEHUAHE... que viagem. Muito boa =)

    [1] http://en.wikibooks.org/wiki/Latin

    ResponderExcluir
  8. André Costa7/9/13 15:14

    a também é prefixo de negação
    a+moral
    a+síncrono
    a+tópico

    ResponderExcluir