31 de dez de 2013

Brasileirismos

Desde há pouco mais de 3 meses, um conjunto de pessoas novas foram introduzidas à minha convivência diária. Algumas delas não são gaúchas, e dentre essas há ainda um grupo de pessoas que morou em outro estado (não o RS e nem o seu) antes de chegar aqui. Assim, frequentemente algumas "features" (como dizer feature em português? Atributo? Detalhes? Nem sei... mas só sei que pra mim feature é feminino xP) da sua fala me chamam tanto a atenção que eu nem consigo prosseguir atento ao que dizem.

[Mudando dos paus pra canoa...]

Esse natal, duas primas com quem eu me dou muito bem passaram lá em casa. Uma delas mora em Salvador há já uns 10 anos (mais?), e a outra mora em Floripa há pouco menos e agora voltou pra cá. Um primo que morou 25 anos no Espírito Santo também estava por casa, e pra completar um amigo de Recife passou o natal por lá. Conversa vai e conversa vem, eu frequentemente me pegava divagando da conversa e notando quando o seu sotaque ficava forçado ou quando usavam de forma bizarra (para o meu português) algumas palavras.

Essas interações me motivaram a fazer uma postagem sobre alguns brasileirismos que já me chamaram a atenção demais para eu não escrever em algum lugar.

Eu randomly achei essa tirinha uns dias atrás e ela agora deu MUITO bom
Mas antes de qualquer coisa eu faço questão de adicionar um disclaimer (com título garrafal pra que todos entendam):

Disclaimer

Percebei que todas as "não-gramaticalidades" listadas a seguir não estão erradas. Errada deve estar a gramática, por não tratar dessas especificidades. Se essas "não-gramaticalidades" permitem (e até mesmo facilitam) a comunicação, então elas devem ser tratadas como melhorias, como patches, como plug-ins à gramática, talvez somente não aceitas em contextos mais formais.

Digo isso para que não me surja ninguém a dizer coisas along the lines of "como a gente fala errado" ou "como gente de [lugar X] fala errado", etc...


Em --> Ne

Essa parece ser típica dos mineiros e capixabas. O primo a que me referi, que morou 25 anos no ES, já me havia comentado como o povo de lá dizia ne mim em vez de em mim.

Quando comecei a conviver quase diariamente com as pessoas a quem referi no primeiro parágrafo, logo notei o mesmo uso por parte de um mineiro. Aliás, vereis que boa parte da responsabilidade pela criação dessa lista de "brasileirismos" é culpa dele xP

Bom... continuando com o que interessa, essa substituição me fez notar algo legal. Em português, temos dois sons para a letra m (acho que o nome disso é alofonia, certo?). Quando acompanhado de vogal, o m tem o som de m normal (ou seja, /m/). Quando em fim de sílaba, o m, que antes era labial, passa a ser nasal-palatal-aproximante, o que é denotado no IPA (o alfabeto fonético internacional) pelo símbolo /ȷ̃/ (notai a sua pronúncia em palavras como amém, alguém, porém, ..., e como ela se assemelha à pronúncia do n em palavras como dengue, capenga, incas, enrolar).

Aí eu fiquei me perguntando: qual a diferença entre em algum e nhalgum, foneticamente, para nós brasileiros? E me convenci de que a resposta simplesmente é "nenhuma!". E aí eu notei o quanto nhalgum se assemelha de nalgum, e fiquei me perguntando se não teria sido daí que surgiu essa regra totalmente sem sentido (até então) de quem em + o = no (e variações).

Eu não tenho a resposta para isso ainda, mas acho que faz um mínimo de sentido xP



Pra mim + infinitivo

Tá tá... eu sei que o título é "brasileirismos", mas a utilização por parte de outrem (gente de fora, que vem pra cá e incorpora nosso jeito de falar) dessa "não-gramaticalidade" me obrigou a pôr esse item, típico de gaúchos, nessa postagem. A gente vive aprendendo, e reouvindo, e redizendo, e reexplicando pras pessoas que "mim não conjuga verbo" e aí dando exemplos de como fiz esse bolo pra ti comer não significa fiz esse bolo pra tu comeres, mas não adianta.

Em casos capciosos como esse aí de cima, a prosódia é quem nos diz tudo 6__6
Achei interessante pôr isso aqui porque um amigo meu diz que só gaúcho diz isso; mas o mineiro ali a que referi acima inconsistentemente (ou seja, às vezes sim e às vezes não) diz isso também.


Sobre o "Pila"

Fiquei sabendo que pila (dinheiro) se diz em tudo que é lugar. Enquanto, por outro lado, pila indica pouco dinheiro, uma recifense me disse que usaria pila para falar de algo que custou caro O_o

No mais, ela e um outro recifense disseram que pila era algo que se entendia mas que pouco se falava. Fiquei pensando que talvez fosse como cafageste e canalha, que, apesar de perfeitamente audíveis como xingamentos (acho que por causa da TV), nunca sairiam da boca de um gaúcho.

Agora me veio a curiosidade sobre se pila lá fora se usa no plural. No sul as pessoas tendem a marcar o plural em somente uma palavra [ou seja, não há concordância de número, quase] e eu fiquei me perguntando se esse efeito também ocorre nas outras regiões. Percebo que fazemos o mesmo com barão (R$1000, pra mim, pelo menos) e conto (de fato, acho que nunca ouvi barão no plural).


O uso da palavra Guri

Eu já disse que tenho uma prima que mora em Salvador. Lá, naturalmente, é de se esperar que não se diga guri. Eu não gosto de pensar no Brasil através de isoglosses, mas tenderia a pensar que a partir de uma certa região do país a palavra guri receba uma conotação negativa (em Floripa já é negativo, por exemplo) e dali pra frente a coisa só piora.

Eu lembro que o Wolverine, no desenho do X-Men antigo (aquele com a abertura Age of Empires-like -- comparai com isso), chamava a Jean Grey de guria e eu achava estranho isso.

Nevertheless... a minha prima disse que descobriu um uso de guri que os baianos aceitam perfeitamente: quando dentro da expressão quando eu era guri. Diz ela que o baiano com quem ela conversava achou até um absurdo que ela questionasse o seu uso de guri no meio dessa expressão, como se nem houvesse outro modo de dizer a mesma coisa. Eu achei legal que essa é certamente mais uma dessas expressões formuláicas que não são analizadas por inteiro e que usamos sem nem pensar em como elas pouco ou nenhum sentido fazem, como quem me dera (onde o dera é um resquício de pretérito mais que perfeito na nossa fala) ou assim que [X ocorrer] (qual o sentido de assim que aqui? O_o].


Enfraquecimentos e Assimilações

Na postagem anterior, eu comentei que andara lendo sobre algumas mudanças sonoras e listei quatro tipos por que eu mais me havia interessado no momento. O motivo do meu interesse pelo assunto e por aqueles tipos em especial era que eu andei notando (tendo a impressão, pelo menos -- mais uma vez por culpa de uns "mineirismos") que algumas mudanças sonoras estão em "passos diferentes" dependendo da região.

Quatro expressões foram as causadoras dessa minha impressão: doce de leite, de jeito nenhum, desse jeito e monte de coisa. Eu tentei criar uma tabela com o modo como eu espero que elas sejam pronunciadas abaixo. Em casos em que o d está acompanhado de um e ou i, ele normalmente muda a sua pronúncia (o que também ocorre com o t). Para representar essa alofonia, eu uso os grupos dg e tch. Eu também tentei criar uma transcrição pelo IPA, mas sou n00b com o IPA e nem sei se o usei certo xP Eu represento o fim em "nenhum" como um ɐ̃, mas não tenho certeza de o quão certo está isso. Todas essas pronúncias são o que eu espero quando essas frases são pronunciadas rapidamente (como dentro de uma frase proferida por uma pessoa relativamente brava).

-- RS RS -- IPA MG MG -- IPA 
Monte de coisa Montchcoiss ou
Montchcoia (eu) 
Mont͡ʃi'kojs ou 
Mont͡ʃi'koja
Mondgicoi Mond͡ʒi'koj
Doce de leite Doss dgi leitch Dos d͡ʒi 'lejt͡ʃ Dojdgi lei Doʒd͡ʒi 'lej:
Desse jeito Dess jeit Des 'ʒeit Dejei De'ʒej
De jeito nenhum Dgei tnehum Dʒej tne'ɐ̃ Dgeinihum Dʒejne'ɐ̃

O que eu acho legal notar é que, enquanto em MG os ts e os ds já sofreram enfraquecimento affuuuu, a fala do pessoal gaúcho ainda é mais conservadora. Detalhe é que esses enfraquecimentos mineiros em geral não causam dificuldade no entendimento (na maior parte das vezes xP), e, sinceramente, eu só espero que eles não continuem evoluindo muito mais por causa da interação deles com o resto do país (que começaria a se tornar problemática a partir de um certo nível).

Mesmo assim, me é interessante que paradoxalmente eu fale (pra não dizer que "as pessoas falam isso no RS") coisas como ó aí ó (com o sentido de olha para isso olha), poblema ou pa/po (no lugar de pra e pro) -- isso pra não citar o (toma), que entrou artificialmente no meu vocabulário.

M de Monchito [...], T de Monchito, e O de Oscar


Falando em sons, eu achei que seria legal comentar sobre alguns alófonos. Os comuns todo mundo já conhece: quem não gosta de folgar no r de roceiro de uns paulistas, ou no r "trinado" (que eu queria muito ter) de uns interioranos? E os ds e ts de uns nordestinos (pra ser justo, são só algumas regiões), que não mudam de pronúncia quando acompanhados de sons de i?

Uma coisa que eu ando notando já há uns tempos é como o ê e o i são mais ou menos alófonos também aqui no RS. Expressões como desculpa aí ou e aí? são facilmente deturpadas para desculpa aê (e daí desculpaê) e iaê? (ou eaê?). Eu to pra dizer que isso só ocorre em fins de frase, mas vislubraria o dia em que alguém dissesse quase caê ali hoje (com ares de maloqueiro, que é bem o tipo de gente que eu espero que conduza essa mudança xP). Talvez isso seja bem coisa de gaúcho mesmo: a gente vive querendo mudar sons de vogais, como uns que viram lããã e depois uns lææææ.

Precisa + verbo

Um tempo atrás, quando eu ainda via meu pai com mais frequência, eu assisti a uma propaganda do canal Futura em sua casa onde um cara saía às ruas perguntando qual era o certo: precisar de fazer ou precisar fazer?.

A resposta é obviamente a segunda opção: o verbo precisar, quando catenativo, não espera a preposição de. Eu sempre achei que isso fosse conhecimento comum, e algo que as pessoas normalmente não "errassem" (não que isso seja errado). Mas lembro que ao ver a propaganda comecei a supor que talvez isso não fosse verdade.

O convívio com o mineiro já referido (bá... essa é a última vez que pego no pé dele... sério xP) me mostrou que definitivamente não era verdade: ele quase sempre diz precisar + de+ verbo no infinitivo.

Lembro que uma vez eu vi uma mulher que cometia esse erro no Casos de Família do SBT (a que minha vó assistia frequentemente =/ ), e lembro que ela foi a mesma que me fez perceber que tem paulistas (creio que no interior) que não usam subjuntivo (e falam coisas como ela queria que ele se mudava pra lá O_o). O Geraldo Alckmin também me chamava a atenção errando uma vez lá que outra esses precisa + de (procurei um video em que ele o fizesse mas fiquei sem saco e logo desisti) -- aa, bom, mas se até o Alckmin erra isso, então deve não ser grandes problemas, né?


Ques coisa... e os s gaúchos

Gaúcho tem mania de não terminar palavras em s. Quando conjugamos verbos na primeira pessoa do plural, os s logo vão embora. Quem é que diz vamos, quando vamo já é suficiente? E comemo, andamo, ...

Mais do que isso, temos o costume de não conjugar a segunda pessoa do singular. Enquanto outros estados, quando o fazem, frequentemente comem um t do pretérito perfeito (pernambucanos, catarinenses, paraenses e mesmo os riograndinos daqui do RS dizem fizesse no lugar de fizeste [um típico caso de elisão xP]), nós simplesmente nos rendemos à terceira pessoa, e mais uma vez eliminamos os s de tudo: tu come, tu anda, ...

Nessa perda de s de tudo que é lugar, perdemos nossos plurais também: quem é que precisa dizer os litros, os tomates, quando os litro e os tomate são suficientes? Os s são marcados somente nos artigos; mas o que acontece quando omitimos os artigos? A minha crença é que eu faça o mesmo que quem não usa pronome relativo: coloque um pronome depois, onde eu possa marcar o plural (ex.: tomates, eles são bons pra saúde). Mas acho que tem gente que ainda marca o plural no próprio nome.

Mais do que isso, temos cada vez mais eliminado a necessidade do nós e usado a gente no lugar. Eu já notei que uso a mesma estratégia do parágrafo anterior pra evitar a conjugação na primeira pessoa do plural. Assim, em vez de dizer Eu e a minha mãe fomos ao mercado ontem, eu digo Eu e a minha mãe, a gente foi ao mercado ontem [aliás, isso me soa meio francês u.u].

Tá... então agora surgiu uma regra pra nós de que plurais são marcados somente em artigos e pronomes, certo? Nessa regra, um pronome acabou passando a concordar em número: o que. Se antes se dizia eu não sei de que tomates tu tá falando, agora a regra define (algo que eu não digo naturalmente, mas faço todo um esforço pra usar -- porque acho legal) que se diga eu não sei de ques tomate tu tá falando. Isso fica mega evidente quando alguém quer fazer uma reclamação contra algo plural. Em vez de dizer, por exemplo, Potz... mas que crianças do inferno, muitos dizem Potz... mas ques criança do inferno [notai o "Potz" ali, mais um caso de gaúchos mudando a pronúncia de uma vogal u.u].


O vocativo

Notei esses dias que o português marca sim o vocativo -- pelo menos na fala. Frequentemente, quando eu quero chamar a atenção de alguém, eu não digo, como na bíblia, coisas como Oh homens de pouca fé (um Oh aberto, como o o em pobre); mas se eu estivesse querendo interpelar alguém, diria naturalmente "Ô pessoa" (com o O fechado).

Apesar de eu nunca ter notado, isso ocorre o tempo todo. Fiquei me perguntando se isso ocorreria somente no Brasil ou se ocorreria também em Portugal. Digo isso porque a Wikipedia em inglês diz somente:

Catalan and Portuguese use the personal article, but drop it in front of vocative forms.
O que pra mim não significa nada (eu não dropo nada quando quero chamar alguém O_o). Já a Wikipedia em português diz isso:

Entre as línguas românicas o vocativo foi conservado apenas no romeno.
O que não é verdade, na real, dado que, se a nossa marcação de vocativo não é morfológica, pelo menos nós temos uma marcação.

Infelizmente, essa marcação só ocorre às vezes, e os exemplos comuns de vocativo normalmente não contemplam o Ô ali de cima =/ Um exemplo típico pra mim é algo como "Eles trazem o almoço aqui, João". Me é engraçado que uma das frases mais proferidas por crianças (e alguns adultos xP) normalmente já marquem o vocativo tranquilamente: Ô mãe!


Bônus


Eu tenho sérias dificuldades pra achar verbos frasais em português. Por acaso, esses dias, notei a existência de vários. Escrevi aqui -- e tomara que alguém consiga me dizer mais alguns:


ir atrás, ir embora, deixar para trás, jogar pra escanteio, deixar de canto, deixar de fora, deixar de lado, jogar fora, entregar de volta

Eu não sei direitinho ainda como "analisá-los", mas os deixo aqui pra um futuro distante, quando eu talvez queira pensar nisso denovo.


...

R$

29 de dez de 2013

Random Links pós-TCC

Bom... então... como todos sabeis, eu terminei o TCC há poucos dias. E, como eu já disse anteriormente, no tempo em que eu estava fazendo-o, eu deixei muitas abas no meu navegador abertas, esperando por alguma atenção. Algumas delas ficaram abertas até que eu as referenciasse por aqui; outras, ainda nem lidas haviam sido.

Mudanças sonoras

As abas contemplam vários assuntos: desde recursão em línguas, passando por verbos frasais, e finalizando em alguns links sobre criação de painéis e gráficos em R. Num dos últimos dias, por exemplo, passei o tempo todo lendo sobre mudanças de sons em línguas (o motivo ficará evidente numa próxima postagem). Estou longe (e nem tenho a pretensão) de esgotar o assunto, mas gostei bastante do que aprendi. Foquei mais ou menos em 4 grandes tipos de mudanças:

  • Assimilação (que engloba vários outros tipos de mudanças sonoras, dentre os quais os que mais me interessaram foram metafonia [e, daí, a nomenclatura vai à loucura e eu só vou deixar os links de harmonia vocálica e umlaut aqui], e harmonia consonantal): o efeito em que um som de uma palavra se torna mais próximo de um outro som em suas redondezas (um bom exemplo é como o n muda de lugar conforme a consoante que o segue: enquanto ele é pronunciado "na frente da boca" em palavras como dentro [ok ok, exceto em alguns sotaques como o de Bento Gonçalves, no interior gaúcho], ele é pronunciado "no fundo da boca" em palavras como dengue).
  • Elisão (que eu conhecia com o nome de síncope): o sumiço de uma parte de uma palavra para facilitar a sua fala (como o sumiço do p em excepto, ou do c em facto e em insecto. Outros bom exemplo é a contração para o --> pra o --> pro ou o pronome cada vez mais comum ). Quando a elisão ocorre no fim de uma palavra, ela é chamada de apócope.
  • Lenição: o enfraquecimento de uma consoante (um ótimo exemplo são os particípios passados do latim, que fizeram a transformação tus --> do pra chegar ao português).
  • Fortição: o oposto de lenição xP (bem mais incomum, obviamente)

Verbos frasais

Bom... voltemo-nos a verbos frasais agora. Ao longo do meu TCC, eu citei vários verbos frasais como exemplo de algo [que eu queria exemplificar no momento]. Como verbos frasais tendem a ser um tópico "avançado" de inglês, eu me sentia [e sinto] frequentemente inseguro para criar exemplos que não os que eu já havia visto alhures. Por isso, eu fui atrás de novos verbos na internet em lugares que parecessem minimamente confiáveis.

Nessa busca, acabei percebendo o quanto verbos frasais são frouxamente definidos por aí. Nesse link, por exemplo, dos 4 verbos "frasais" que ele menciona, somente um (fall through -- intransitivo) é realmente um verbo frasal de acordo com a definição que eu uso. Todos os outros são verbos normais cuja regência exige uma preposição transitiva (ou seja, uma preposição que exige um "objeto").

Por outro lado, 100% dos verbos desse link eram frasais de acordo com a minha definição (e, aliás, apesar de ele não dizer nenhuma grande novidade, vale a leitura xP). Por fim, eu encontrei um link que tentava dar uma idéia de como é difícil determinar exatamente o que são verbos frasais e o que não são, e mostrava como o significado dos frasais pode mudar conforme o contexto (no caso dele, blow up poderia significar ambos "explodir" e "soprar pra cima" -- ou talvez a versão blow up que significa "soprar pra cima" não seja um frasal, daí u.u). De bônus, eu acabei encontrando um artigo da wikipedia (que não existe em outras línguas O_o) sobre verbos "catenativos", que achei mega interessantes xP


Recursão

Em alguns momento do meu TCC, eu percebi que havia escrito uma frase comprida demais e que, por causa do tamanho, o seu entendimento ficava difícil. Lembro que no mesmo dia eu tinha dito a um colega que existe uma língua que não permite recursão, e, como a frase me lembrou do assunto, resolvi "espraiar a cabeça" procurando um pouco sobre o assunto.

Aí eu achei esse blog, que dá uma explicada bem de leve no problema, e esse artigo, que só agora eu fui ter tempo de ler com calma. Como recursão em lingüística frequentemente aponta pra gramáticas generativas, criação e objeto de estudo do Chomsky (algo que eu só fui descobrir há pouco tempo), eu já concluí que isso não é algo que eu possa parar pra ler por agora xP [tem coisa demais nesse meio pra eu me afundar T__T].


Procrastinartigos...

Dentre as coisas que achei por aí, havia 3 artigos que eu deixei pra ler "depois" e que só agora fui terminar de ler.

EDIT: eu ía fazer uma postagem separada, mas fiquei com preguiça. Dane-se... vai ficar aqui mesmo u.u

Os três artigos são os seguintes:
David Wood -- Formulaic Language in Thought and Word: Vygotskian Perspectives

Alison Wray -- Formulaic Language in Computer-supported Communication: Theory Meets Reality
Kathy Conklin and Norbert Schmitt -- Formulaic Sequences: Are They Processed More Quickly than Nonformulaic Language by Native and Nonnative Speakers?
O que dizer? O primeiro deles tenta linkar as idéias dos estudos sobre linguagem formuláica (relacionados a como a gente lida com sequências formuláicas, e a por que processos mentais a gente passa pra fazê-lo) às idéias propostas por um cara chamado Vygostki (que eu não conhecia, mas que um amigo meu e uma prima minha me disseram ser top na pedagogia).

Enquanto descrevendo as idéias do Vygostki, me chamaram a atenção algumas partes relacionadas a como ele acreditava que o desenvolvimento do pensamento ocorria:
In Vygotsky's view (Vygotsky, 1934/1986), there are two planes of speech, the inner, semantic one, and the outer, or phonetic representation of it. A child masters outer speech from word to sentence, from part to whole, and inner speech from whole, meaningful complex to whole. These two processes run in opposite directions. At first, a child's thought is a vague, shapeless whole, and needs expression in a word. As thought gets more differentiated over time, there is less need for words, but for whales such as phrases and sentences and texts. As speech progresses to wholes in this way, thought also progresses in the opposite direction, becoming more particular and less holistic.
[... e depois, mais pra frente ...]
Another key point in Vygotsky's ideas of the development of speech and thought is the development of egocentric and inner speech (Vygotsky, 1934/1986). Both of these forms of speech in children are speech for oneself, while external speech is speech for others. Inner speech, the foundation of thought, is preceded by egocentric speech, a transition from the social connections through language of the child to individual activity and thought development. Egocentric speech, or talking aloud to oneself, serves mental orientation to tasks and conscious understanding of the environment. It especially appears to help the child overcome difficulty, and it increases in frequency when tasks require reflection and focus of consciousness. Egocentric speech is evident in young children who imitate speech sequences and structures observed in adult conversation, and use them to talk to themselves during individual play. Over time, this egocentric speech transforms into inner speech, a more internal, less vocalized, and less readily understood form of self-talk. In the end, inner speech separates completely from speech for others or social speech, and vocalization stops altogether. This is the foundation of thought.
 O que me "incomoda", de certa forma, é a parte em negrito logo ali em cima. Me pergunto: é incomum que vocalization não páre? Porque no meu caso eu acho que ele não tá nem longe de parar (sim, eu vivo falando comigo mesmo como forma de pensar -- e isso me ajuda affuuuu a estruturar meu pensamento ).

Já sobre o segundo artigo, ele é só uma descrição sobre como, realmente, boa parte das idéias propostas pela autora em vários outros escritos dela dão certo quando postas em prática -- e a leitura é tri agradável xP Uma idéia que eu acho legal que ela comenta no seu artigo é um tal de "princípio da needs only analisys", através do qual as partes de uma expressão idiomática só são analizadas separadamente se o seu significado como um todo não tiver sido recuperado com sucesso (ou seja, o significado da expressão "inteira" não fizer sentido).

O que eu achei tri é que justamente o terceiro artigo mostra que as expressões idiomáticas tendem a ser processadas mais rápidamente do que o mesmo número de palavras separadamente, mas que o nosso cérebro é rápido o suficiente pra se ligar quando o sentido da expressão é literal ou idiomático.



Random Links of Happiness

Bom... tem links que não caem em categoria alguma. Um deles é esse teste de vocabulário de inglês que um amigo meu me mandou e com que eu brinquei um pouco quando conheci. É bem legal, mas fica roubado quando a gente é latino, já que várias das palavras "difíceis" são nossas xP

A definição de idioma da wikipedia, essa lista de idiomas do inglês e essa definição de frasema da wikipedia (a nomenclatura pra Expressões Multipalavra não é muito bem definida ainda, e frasema é só mais um nome para um fenômeno muito parecido) também entram como links não muito bem classificados. Por fim, uma definição de gêmeos siameses em lingüística -- esse artigo é bem legal n_n




Finalmente, já to notando que eu to prometendo um monte de postagens e eu to com medo de não conseguir cumpri-las. Tomara que eu consiga e que gosteis delas: se a minha produtividade quanto a escritos aqui tem sido baixa, pelo menos a minha vontade de produzir tem sido bem alta xP

Eras iss...

R$

22 de dez de 2013

Gente com "Mente forte"

[essa postagem é bem inútil. É um comentário meu sobre um link que achei. O link está no segundo parágrafo do texto. Acho que nem achareis grandes coisas. Estais avisados u.u]

[hãn hãn? Entendeu o trocadilho?]
Esses tempos, enquanto eu estava meio atucanado com o TCC, um amigo postou um treco no Facebook que eu acabei lendo "pra espraiar a cabeça". Não era algo MEGA importante, mas foi algo pelo menos marcante sobre que eu resolvi que escreveria por aqui em algum momento.

Apesar de estar CHEIO de abas da Wikipedia clamando por leitura no meu navegador, eu queria muito comentar sobre a postagem de que falo, que está nesse link. O esquema é o seguinte: a postagem é composta por 13 coisas que as pessoas mentalmente fortes evitam (mentalmente, aqui, pra mim está relacionado a "ter equilíbrio psicológico"); e daí pra cada coisa eu faço um comentário. Eles não definem o que é "força", mas dá pra ter uma idéia com base nos itens. O motivo de escrever isso por aqui é que, ao longo do tempo, tenho cada vez mais percebido [a ausência de] essas características (algumas delas, mesmo antes de tê-las lido por aqui) nas pessoas que eu considero "prósperas" e, realmente, cada vez mais "entendido" que aprendê-las [ou melhor, a evitá-las] é um passo em direção a me tornar [quem sabe] uma pessoa melhor. Vereis =)


1. Perder tempo sentindo pena de si mesmas

Você não vê pessoas mentalmente fortes sentindo pena de si mesmas ou suas circunstâncias. Elas aprenderam a assumir a responsabilidade por suas ações e resultados, e têm uma compreensão inerente de que muitas vezes a vida não é justa. Elas são capazes de emergir de uma situação difícil com consciência e gratidão pelas lições aprendidas. Quando uma ocasião acaba mal para elas, pessoas fortes simplesmente seguem em frente.
Pois é... eu não vejo "pessoas mentalmente fortes [...]" porque nenhuma definição disso me foi dada até agora v_V

Não, mas, falando sério. Acho que essa característica, apesar de não muito bem, eu já domino mais ou menos. Eu entendo que, às vezes, mesmo que algo não dê certo, esse algo pelo menos pode me ter servido de aprendizado. Não ter conseguido o intercâmbio pra Berlim ou não ter conseguido usar o que eu fiz na Alemanha como TCC são exemplos de pseudo-insucessos. Chamo de "pseudo" porque, ao não ter conseguido isso, não tive nenhuma perda real. Por outro lado, o que me faz achar que eu ainda não sou bom em evitar esse tópico é justamente o eu nunca ter experimentado uma perda real (e, sim, eu já me ter torturado bastante com as minhas frustrações familiares em algum momento da minha vida -- apesar de todo o esforço para não fazê-lo).

2. Ser controladas ou subjugadas

Pessoas mentalmente fortes evitam dar aos outros o poder de fazê-los sentir-se inferiores ou ruins. Elas entendem que estão no controle de suas ações e emoções. Elas sabem que a sua força está na sua capacidade de reagir de maneira adequada.
Bom... nesse aspecto, acho que ainda tenho muito a trabalhar. Vós que me conheceis em geral sabeis que eu não me considero muito bom em muita coisa. Inclusive, até pouco tempo atrás, tinha sempre um certo medo de competição.

Por outro lado, acho que estou trabalhando bem nisso. Hoje em dia eu sei em quê eu sou "bom" e faço sempre um esforço pra me "afirmar" quanto a isso -- sempre evitando, por outro lado, me achar melhor do que outrem (e, sobre esse aspecto, talvez eu faça uma postagem relacionada num futuro relativamente próximo).

3. Fugir de mudanças

Pessoas mentalmente fortes aceitam e abraçam a mudança. Seu maior “medo”, se tiverem um, não é do desconhecido, mas de tornarem-se complacentes e estagnadas. Um ambiente de mudança e incerteza pode energizar uma pessoa mentalmente forte e estimular o seu melhor lado.
AAA... mudanças...

Mudar é sempre uma tortura. Chama a atenção, é difícil, é irritante, etc. Tem coisas que eu gostaria de poder não mudar: meus contatos sociais, por exemplo, às vezes gostaria que fossem estagnados. Tem gente em quem eu confio o suficiente já no meu círculo de amigos, e adicionar novas pessoas sempre me deixa com um pé atrás. Mas nisso eu posso dizer que estou trabalhando! E acho que estou progredindo bem nessa coisa de "lidar com pessoas" (mas é um aprendizado já de mais de 6 anos -- e bem longe de chegar ao fim).

Noutros aspectos, eu percebo que, se eu tiver, de alguma forma, uma segurança para "voltar atrás caso algo dê errado", mudar não me fica tão difícil assim. Mas, sim, ainda tenho um longo caminho pela frente u.u

4. Gastar energia em coisas que não podem controlar

Pessoas mentalmente fortes não reclamam (muito) do tráfego, da bagagem perdida e especialmente das outras pessoas, pois reconhecem que todos esses fatores estão, geralmente, fora do seu controle. Em uma situação ruim, elas reconhecem que a única coisa que sempre podem controlar é a sua própria resposta e atitude.
AA... nisso eu sou bom \o/ Em alguns aspectos, acho que nisso eu sou bom até demais xP Deve ser culpa da vida semi-metódica que sigo. Nem tenho muito o que dizer nisso aí u.u


5. Preocupar-se em agradar os outros

É impossível agradar a todos. Pior ainda é quem se esforça para desagradar outros como forma de reforçar uma imagem de força. Nenhuma dessas posições é boa. Uma pessoa mentalmente forte se esforça para ser gentil e justa e para agradar aos outros quando necessário, mas não tem medo de dar sua opinião ou apoiar o que acha certo. Elas são capazes de suportar a possibilidade de que alguém vai ficar chateado com elas, e passam por essa situação, sempre que possível, com graça e elegância.
Eu sei que, nesse tópico, estou meio caminho andado. A parte da "graça e elegância" ainda me é um problema. Eu normalmente digo as coisas bem alemão-like: na cara v_V Mesmo assim, fazer "o que é certo" (de acordo com meus valores) é normalmente o que eu [pelo menos acho que] faço.

Ainda virá uma nova postagem, talvez, que contemple esse assunto um pouco mais aprofundadamente (provavelmente a mesma de que eu falei ali no item 2), focando no "lidar com as pessoas" -- algo sobre que eu tenho muito pensado ultimamente.

6. Ter medo de assumir riscos calculados

Uma pessoa mentalmente forte está disposta a assumir riscos calculados. Isso é uma coisa completamente diferente do que pular de cabeça em situações obviamente tolas. Mas com a força mental, o indivíduo pode pesar os riscos e benefícios completamente, e avaliar plenamente as potenciais desvantagens e até mesmo os piores cenários antes de tomar uma atitude.
Riscos 6_6

Uma pessoa muito "influente" atualmente na minha vida (e que foi um dos motivos pelos quais eu achei legais esses 13 pontos, já que eu ponderei que ela vai bem em boa parte deles xP) me tem dito frequentemente que eu sou "avesso ao risco" (enquanto ela seria "propensa" a isso). Pode ser verdade; e talvez isso seja culpa de eu ser "bastante" (i.e., "que basta", "que chega", "suficientemente") metódico. Nesse ponto, através dela, venho [tento, pelo menos] aprendendo bastante sobre isso, e entendendo que, querendo ou não, a vida é feita de decisões, as quais a gente precisa tomar -- sendo elas arriscadas ou não.

O Stormtrooper talvez devesse ter se prevenido melhor contra esses 13 tópicos...


7. Saudosismo freqüente

Há força em reconhecer o passado e, sobretudo, as coisas aprendidas com as experiências passadas, mas uma pessoa mentalmente forte é capaz de evitar se afundar em decepções antigas ou fantasias dos “dias de glória” de outrora. Elas investem a maior parte de sua energia na criação de um presente e futuro melhores.

8. Cometer os mesmos erros repetidamente

Não adianta realizarmos as mesmas ações repetidas vezes esperando um resultado diferente e melhor do que o que já recebemos. Uma pessoa mentalmente forte assume total responsabilidade por seu comportamento passado e está disposta a aprender com os erros. Pesquisas sugerem que a capacidade de ser autorreflexivo de forma precisa e produtiva é uma das maiores características de executivos e empresários bem-sucedidos.
Falo desses dois tópicos num mesmo comentário, já que acho que estão relacionados.

Sinceramente, eu acho que eu passo por um "algoritmo de machine learning" quando eu levo em conta o passado (tá, na real, pior que isso, uma mera Maximum Likelihood Estimation, bem porcalhona u.u). Se eu só vir casos em que algo causa outralgo, então eu vou achar que sempre algo --> outralgo (ou seja, eu raramente paro pra pensar que talvez em uma certa ocasião em que eu me encontre no momento aquela implicação não seja verdadeira, porque talvez haja variáveis novas sobre que eu não tinha pensado até então).

Isso aconteceu esses tempos, e eu me provei estar totalmente errado quanto ao julgamento que eu tinha feito com base no "aprendizado" que tinha tido de experiências anteriores. No caso, felizmente, me foi perfeitamente possível corrigir o erro.

Quanto a investir a maior parte de sua energia na criação de um presente e futuro melhores, estou certo de que é justamente isso que estou fazendo =)

9. Ressentir o sucesso dos outros

É preciso ter força de caráter para sentir alegria genuína pelo sucesso de outras pessoas. Pessoas mentalmente fortes têm essa capacidade. Elas não ficam com ciúmes ou ressentidas quando outros alcançam sucesso (embora possam tomar nota do que o indivíduo fez bem). Elas estão dispostos a trabalhar duro por suas próprias chances de sucesso, sem depender de atalhos.
Eu pensei bastante sobre esse tópico nos últimos tempos (desde que li esse textículo, tinha ficado com os tópicos na cabeça, matutando sobre eles). Acho que esse tópico pode ser dividido em dois aspectos, sobre o quais eu discuto separadamente.

Em primeiro lugar, sim, é legal ficar feliz pelo sucesso alheio -- e não ficar ressentido ou com ciúmes, como diz ali. Eu acho que isso eu faço bem: normalmente sou bastante "empático", e fico feliz com a felicidade alheia e triste com a tristeza alheia -- apesar de, acho, não conseguir externar isso muito bem =/

Por outro lado, tem um caso que me é frequentemente difícil aceitar (e que me estressa, e sobre o qual eu tenho trabalhado xP): quando o sucesso de alguém que me é importante não é "compartilhado" comigo (o que, como dá pra ver, é obviamente egoísmo, ligado à frustração de esperar algo de alguém e isso não ocorrer). Mas, meh, ao longo do tempo eu aprendo =)

10. Desistir depois de falhar

Cada fracasso é uma oportunidade para melhorar. Mesmo os maiores empresários estão dispostos a admitir que seus esforços iniciais invariavelmente trouxeram muitas falhas. Pessoas mentalmente fortes estão dispostas a falhar de novo e de novo, se necessário, desde que cada “fracasso” os traga mais perto de seus objetivos finais.
Sim... Eu gosto de pensar que esse tópico é inútil. Ele está por um lado vinculado ao tópico 6 (sobre assumir riscos -- e, daí, falhar) e por outro, ao tópico 13.

Quando eu chegar ao 13 eu falo mais =)

11. Ter medo de passar tempo sozinhas

Pessoas mentalmente fortes apreciam e até mesmo valorizam o tempo que passam sozinhas. Elas usam esse tempo de inatividade para refletir, planejar e ser produtivas. Mais importante, elas não dependem de outros para reforçar a sua felicidade e humor. Elas podem ser felizes com os outros, bem como sozinhas.
Por um lado, eu já aceitei que "sozinho" será o meu estado durante um bom tempo ainda. Eu gosto de estar "sozinho" e, de fato, de tempos em tempos eu preciso ficar sozinho.

Por outro lado, eu definitivamente dependo de outros pra reforçar a minha felicidade e humor. E eu não vejo isso como algo de todo ruim, apesar de que realmente seria muito bom não precisar disso para estar sempre de bem. Enfim... um bom trabalho pela frente ainda me espera u.u

Acho que esse tópico está muito ligado ao número 5: se eu me preocupo em agradar aos outros demais, talvez eu precise demais estar com esses outros, e isso me atrapalhe.

12. Sentir que o mundo lhes deve algo

Na economia atual, executivos e funcionários de todos os níveis estão ganhando a percepção de que o mundo não lhes deve um salário, um pacote de benefícios e uma vida confortável, independentemente da sua preparação e escolaridade. Pessoas mentalmente fortes entram no mercado preparadas para trabalhar e ter sucesso de acordo com seu mérito, ao invés de já chegar com uma lista de coisas que deveriam receber de mão beijada.
Um tapa na cara da esquerdalha xP

Tá não... sério... eu concordo totalmente com esse tópico, e apesar de eu achar às vezes que seria bem mais fácil se, sim, algumas coisas nos fossem fornecidas, eu já aprendi a aceitar (tópicos 1 e 4) que as coisas nem sempre serão do jeito que a gente gostaria.

13. Esperar resultados imediatos

Quer se trate de um treino, um regime nutricional ou de começar um negócio, as pessoas mentalmente fortes entram nas situações pensando a longo prazo. Elas sabem que não devem esperar resultados imediatos. Elas aplicam sua energia e tempo em doses e celebram cada etapa e aumento de sucesso no caminho. Elas têm “poder de permanência” e entendem que as mudanças genuínas levam tempo.
Finalmente, um tópico em que eu sou mestre xP Definitivamente, nisso eu vou bem. E é legal o quanto eu já me conheço quanto a isso \o/ Quando eu começo a ler um livro técnico, eu normalmente já sei que logo o largarei de mão (e não conseguirei terminá-lo de primeira -- uma "falha", pensando do ponto de vista do tópico 10). Mas isso não é motivo para não lê-lo: eu leio até uma parte com a certeza de que, no futuro, poderei voltar a lê-lo a partir de onde parei.

O mesmo aconteceu com o francês: eu comecei a estudar ciente de que logo pararia e esqueceria algumas coisas. Mas com o que eu ainda lembro logo poderei retomar os estudos e chegar a um patamar além daquele em que tinha parado inicialmente. E assim vou progredindo, aos poucos.

Quanto ao latim, eu não espero decorar todas as declinações e sair fluente em latim de um dia para o outro. Eu sei que aprender uma língua demora muito, e que não é de uma hora pra outra que eu vou poder começar a ler São Tomás de Aquino. O Vim pra mim é outro exemplo: me demorou meio ano até que eu conseguisse me sentir confortável para usá-lo. Mas a trabalheira inicial certamente valeu a pena, e o esforço tornou-se conforto com o enorme ganho de produtividade que eu tive mais à frente.



Enfim... como eu disse, achei esses pontos bastante interessantes para o meu progresso "como pessoa", e pensei que escrever sobre a minha situação quanto a eles aqui seria legal. Foi bom ter posto todo esse pensamento "no papel": eu vejo que eu entendo melhor sobre algo depois que eu o faço.
 
Eras isso...

R$

Forma[n]do

Nas últimas três semanas, eu passei por momentos que, se não foram os mais estressantes (porque, sim, certamente, já tive momentos mais estressantes -- como os últimos dias do ano passado), certamente se aproximaram deles.

Meu TCC, sobre o qual eu já até que bastante escrevi aqui, tendo tomado "corpo", finalmente pôde ser entregue à banca, lido, apresentado (falo mais da apresentação logo) e entregue à biblioteca. Apesar do stress, tudo ocorreu aceitavelmente bem, e agora estou só pela formatura, no próximo dia 18.

Minha apresentação me deu um pouco de orgulho. Foi a primeira vez em que apresentei algo durante 30min e não parei pra pensar, não me perdi e não me distraí com coisa alguma que causasse a platéia a rir (o que frequentemente ocorre xP). Foi natural: depois de ter ensaiado uma vez pra mim mesmo e "apresentado" uma segunda vez pra minha co-orientadora e um mestrando do grupo -- os quais me fizeram várias sugestões convenientes -- eu fiquei bastante seguro. Fiquei feliz: me parece que a banca gostou.

Bom... dada a minha correria, deixei esse blog um pouco parado. Não tão parado quanto em outros momentos ele já esteve, mas mais parado do que eu gostaria. Não vos preocupeis: já sabeis que direi que acho que os próximos dias verão um número mais elevado de postagens por aqui. Como acho que vós leitores assíduos já notastes, as postagens por aqui vêm em rajadas, e normalmente falam sobre os assuntos lingüísticos sobre os quais tenho pensado ultimamente. Como voltei a ler o livro "An Introduction to Language", da "Viktoria Fromkin", várias coisas devem surgir por aí =)

No mais, no futuro próximo, vejo alguns caminhos a seguir. O nome "pós-graduação", apesar de bastante genérico, soa suficientemente específico pra mim nesse momento: só agora é que olharei melhor, com calma e serenidade, como prosseguirei meus estudos.

Estou feliz! E gostaria de desejar aos leitores -- como eu normalmente não faço -- um feliz natal e próspero ano novo \o/

R$

20 de nov de 2013

Um pouco sobre Fórmulas e Verbos Irregulares

[Eu deveria estar escrevendo meu TCC ou então terminando a implementação de um certo parser que gostaria de entregar amanhã; as circunstâncias do meu psicológico contudo mo impedem -- e o procrastinar se dá através desse blog]

Hoje quero falar de um conceito que me deixou muito interessado enquanto eu estudava sobre os "trabalhos relacionados" do meu TCC: o conceito de fórmula.

Quem o definiu foi um tal de Otto Jespersen, num livro que me pareceu ser bem popular, já que, desde a sua primeira publicação em 1924, foi republicado várias vezes: The Philosophy of Language. No capítulo inicial, "Living Grammar", ele comenta sobre um conjunto de assuntos "abertos" da língua, como como palavras homônimas podem significar coisas distintas, como palavras com o mesmo som podem ser escritas de formas completamente diferentes, e como tem coisas na língua que simplesmente "são", ou seja, que não seguem regra alguma. A essas últimas, ele dá o nome de fórmula. Com suas palavras:

A formula may be a whole sentence or a group of words, or it may be one word, or it may be only part of a word, -- that is not important, but it must always be something which to the actual speech-instinct is a unit which cannot be further analyzed or decomposed in the way a free combination can.

Traduzindo livremente:  Uma fórmula pode ser uma sentença ou um grupo de palavras, ou pode ser uma palavra, ou pode ser somente parte de uma palavra, -- isso não é importante, mas deve ser sempre algo que para o real discurso-instinto é uma unidade que não pode ainda ser analizada ou decomposta da forma como uma combinação livre pode.

O que me é interessante sobre esse assunto é que, para ele, ela não se limita à sintaxe, mas engloba também a fonética. Um exemplo que ele dá são as palavras com sufixo able, que, no surgimento desse sufixo, tendiam a ser "pré-proparoxítonas", como em 'despicable [o apóstrofo indica a sílaba acentuada], 'comparable, 'lamentable e 'preferable. Por acaso, algumas dessas acentuações acabavam caindo justamente na mesma sílaba da acentuação do verbo correspondente:

con'sider --> con'siderable

Com o tempo, a regra "mudou", e cada vez mais os falantes nativos passaram a pôr a acentuação na mesma sílaba onde o verbo é acentuado. Assim,

'acceptable --> ac'ceptable (ac'cept)
'respectable --> re'spectable (re'spect)

, e assim por diante [aliás... pra mim, sílaba em inglês é um negócio que só nativo entende u.u]. Eu quero deixar claro que esse é um exemplo em que a regra pra formação de palavras novas (o que ele chama de "free formations") mudou.

Ter visto esse exemplo me fez pensar num conjunto de verbos em português que, se houve qualquer free formation que levou à sua construção no passado, hoje ela não existe mais -- e só nos sobrou a fórmula. São verbos que seguem a estrutura:


início + a + consoante + segunda_conjugação

que, [ir]regularmente, mudam de raiz no seu meio. Por exemplo:

haver --> eu houve
caber --> eu coube
trazer --> eu trouxe
saber --> eu soube

Apesar do "o" na primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo, eu sempre disse "eu cube". Até pouco tempo atrás, não entendia daonde poderia ter saído isso; mas claramente a regra também se aplica ao verbo saber. Na minha cabeça, a conjugação é:

Eu sube
Tu soubeste
Ele soube

Faço o mesmo com o verbo trazer -- e é daí que sai o famigerado trusce [escolhei a grafia -- eu sempre escrevi assim], por causa dos quais as coleguinhas pseudo-intelectualizadas da escola se fartavam de xingar os outros de burros u.u [eu sempre direi trusce]. Pra mim é "claro" (evidente) que eu extraio essa estrutura de forma "pré-fabricada" da minha cabeça. Eu não aplico qualquer análise: eu trusce pra mim é tão certo (e padrão) quanto eu tive ou eu pus [outras conjugações "sem sentido", mas aceitas].

(Anyways... uma coisa a dizer é que o verbo "haver" já caiu em desuso (ou virou preposição) -- e só aparece quando queremos falar de forma mega-cuidada)

Outro exemplo pra mim super interessante de algo que é definitivamente uma "fórmula" são muitos verbos que seguem o padrão

início + e + consoante + terceira_conjugação
início + o + consoante + terceira_conjugação

que [a esmagadora maioria -- ou ao menos os mais comuns] troca o e/o por i/u em algumas conjugações:

ferir --> eu firo dormir --> eu durmo
sentir --> eu sinto demolir --> eu demulo
mentir --> eu minto engolir --> eu engulo
seguir --> eu sigo cobrir --> eu cubro
progredir --> eu progrido tossir --> eu tusso
refletir --> eu reflito

Pra mim eles são um bom exemplo de fórmula porque me parece que outros verbos menos freqüentes não soam muito bem quanto sofrendo o mesmo tipo de flexão:

gerir --> eu giro
emergir --> eu emirjo
abolir --> eu abulo
polir --> eu pulo
extorquir --> eu exturco
remir --> eu rimo
acodir --> eu acudo

Mais do que isso, ainda tem uns verbos que passam por cima de tudo [fórmula?] e só permitem mudanças depois do radical:

sorrir --> eu sorrio (presente) --> eu sorri (passado)
florir --> eu florio (presente) --> eu flori (passado)  [só eu digo isso?]
rir --> eu rio (presente) --> eu ri (passado)

[aliás... eu digo que as plantas estão floridas -- de onde eu tiro o verbo florir --; mas aceitaria naturalmente também as variações florescidas (florescer) e floreadas (florear)]

Um último conjunto de verbos que é claramente recuperado da nossa memória de forma pré-fabricada são aqueles que constróem a segunda e terceira pessoas do singular do presente do indicativo com "ói[s]":

moer --> ele mói
doer --> ele/isso dói
construir --> ele constrói
destruir --> ele destrói

[coloque-se o verbo poer --> põe nesse grupo, diga-se de passagem. Fico pensando: se esses verbos tivessem evoluído junto com o põe, talvez tivéssemos um conjunto de verbos da quarta conjugação completamente vivo e produtivo]

Bom... eu tenho mais um monte (um monte MESMO) de anotações sobre verbos irregulares presentes na nossa língua de que a gente simplesmente não se dá conta. Essas expressões não-livres me são interessantes porque freqüentemente não aparecem sozinhas: cada vez mais me convenço do quão raro é que uma irregularidade aconteça com somente uma palavra. Fico pensando em quão legal seria "regularizar" essas exceções... ou ainda torná-las produtivas de volta.

Enfim... eu preciso parar de procrastinar though... já perdi tempo demais por aqui hoje.

R$

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Edit: no início eu pensei que estivesse escrevendo bobagem, e no fim acabei removendo uma parte da postagem original, a qual, agora, depois de um pouco melhor pensar, resolvi, merece voltar:

Existe um conjunto de verbos que segue o caminho oposto ao conjunto início + o + consoante + terceira_conjugação. São verbos na estrutura

início + u + consoante + terceira_conjugação

que, na segunda e terceira pessoas do singular trocam o u por o. É como se eles antigamente fossem com "o" (é que eles seguem a mesma regra que "tossir", por exemplo) ou algo assim xP [aliás, minha suposição é de que eles "formem conjunto" com os que terminam em ói ali em cima -- a idéia é a mesma, só que lá em cima não tinha uma consoante pra "enrigecer" o som como aqui]. Assim, enquanto alguns verbos nesse formato não trocam vogal alguma

punir --> ele pune
curtir --> ele curte
grunir --> ele grune
ebulir --> ele ebule [se diz isso?]

, alguns outros realizam essa estranha troca:

zumbir --> ele zombe
fugir --> ele foge
cuspir --> ele cospe
sumir --> ele some
acudir --> ele acode


A minha conclusão é que, apesar de os verbos da terceira conjugação serem bem "chatos" de conjugar -- ou seja, seguirem regras muito frouxas --, errar aqui não torna o verbo difícil de entender (para o deleite dos não-nativos xP -- apesar de que, me parece, é justamente aqui que eles se "denunciam" quando falando português).

R$

19 de nov de 2013

Expressões Multipalavras

Nos últimos 10 meses or so, eu venho trabalhando, no grupo de Processamento de Linguagem Natural, com um tópico que, se não se demonstra o meu maior interesse quando o assunto é lingüística, pelo menos se tornou um "assunto amigo" sobre que me é interessante conversar: Expressões Multipalavras.

O leitor deve [ou não] ter notado os [até que] freqüentes [demais] grifos no parágrafo anterior. Todos eles são exemplos -- em níveis diferentes de "rigidez" -- desse fenômeno recorrente através das línguas do mundo. Inclusive o próprio nome: "Multiword Expression", em inglês. Os grifos prosseguirão ao longo dessa postagem, evidenciando (ou, como eu gostaria de dizer, "evendo") o quão comum é essa classe. Aliás... eu poderia grifar até mais do que o faço; mas haveria discordantes, talvez, sobre se um grupo de palavras faz ou não parte de tal conjunto.

De fato... não precisamos ir muito longe: o motivo que me levou a escrever essa postagem foi que eu disse que a perícia médica deveria ter recomendado o uso de óleo de peroba, de 12 em 12 horas, pelo José Genoíno, tamanha a sua cara de pau.

Aí talvez o leitor se pergunte: mas por que diabos [sério... eu não to forçando o uso dessas expressões ] é que se usam essas expressões? Ou seja... como é que a língua "evolui" de forma a, com o tempo, desenvolver esses conjuntos "semi-fixos" de palavras? A resposta é grande, mas em sua versão resumida se limita a "não sei" [só sei que foi assim].

O que eu sim sei é que isso já ocorre desde línguas muito antigas -- e muitíssimas das nossas palavras de hoje são decorrentes desse tipo de coisa.

Quando eu comecei a escrever meu TCC, eu tinha alguns artigos através dos quais eu me baseava e aos quais eu gostaria de fazer referência na seção de "trabalhos relacionados". Como eu me sentia inseguro de referir sem muito conhecimento, comecei a ler freneticamente vários artigos, vários dos quais referiam outros artigos. É óbvio que nisso eu acabei caindo numa toca de coelho ("rabbit hole" -- parece que se tem usado essa expressão na internet ultimamente): referências referiam outras referências, num loop infinito do qual eu só conseguia fugir quando não era capaz de encontrar certo livro na internet.

Bom... o resultado foi que, no fim das contas, eu li até que bastante sobre as diferentes áreas que estudaram esse fenômeno. Por exemplo, um pessoal do leste europeu começou uns estudos sobre uma tal de "fraseologia", por exemplo, que engloba boa parte do que hoje chamam de expressões multipalavra; um outro cara chamado Otto Jespersen definiu a palavra "formula" pra se referir a tudo o que é "retrieved as a whole" (recuperado "como um inteiro") pela nossa memória durante a fala, em vez de dependente das regras da gramática [sintática- ou fonologicamente]  -- e aí várias pessoas passaram a usar termos como "prefabs", "formulaic language" (língua formuláica) e "formulaic sequence" (sequência formuláica) para se referir a esses fenômenos.

Mais um grifo... dessa vez do Dragon Quest xP


Enfim... esse é simplesmente o primeiro, o mais simples, mais introdutório, e provavelmente menos direto texto meu sobre esse assunto. Já deu pra perceber, pelos grifos do meu texto, expressões multipalavras são coisa recorrente, tanto na nossa fala quanto na nossa escrita. De fato, tem um tal de Ray Jackendoff que chegou a estimar que elas compõem cerca de 50% do nosso vocabulário nativo (diga-se de passagem, alguns outros caras defendem que são justamente essas "expressões formulaicas" que denunciam os falantes não-nativos de que eles não o são), e eu acredito nele: apesar de certamente mais de 50% do total deste texto não serem grifos, tem muitas expressões mais que poderiam estar grifadas. É o caso dos superlativos no início desse parágrafo, por exemplo. Afinal, em português, constróem-se os superlativos através da formação "artigo + mais + adjetivo", formação essa composta por mais de uma palavra. E o que falar sobre os verbos que exigem preposição? E os reflexivos? E os nomes de pessoas? [o Jackendoff os contava]

Não importam muito, na verdade, quais são os limites que definem quando uma construção "entra como" uma expressão multipalavra ou não. O que importa, no momento, é que elas existem... que são freqüentes demais para serem ignoradas, ao passo em que, na verdade, elas o são.

Enfim... eras isso...

Próximas postagens deverão focar em assuntos mais bem definidos e [quem sabe?] mais interessantes xP

R$

16 de nov de 2013

Quick update

[sério: eu pensei eu nomear essa postagem com alguma coisa como "rápida sobredata" ou coisa do gênero, mas achei que ficaria forçado demais xP]

Bom... já sabeis o que direi: que ando meio "sem tempo" [i.e., com outras prioridades, ou coisa do gênero] e que por isso acabei ficando sem postar no blog. É bem isso mesmo.

Na real, estou a mais ou menos duas semanas de terminar o meu TCC (e, com isso, basicamente, terminar o meu curso inteiro \o/) e tenho perdido muito tempo escrevendo. O tempo livre dos últimos dias tem tentado (nem sempre conseguido) ser completamente dedicado a dormir ou/e (porque eu fico insistentemente sonhando com isso) fazer coisas relacionadas a meu TCC.

Com a escrita, acabei encontrando uma série de "trabalhos relacionados" (muitos deles acabaram virando referências na seção de "embasamento teórico" sobre o assunto) que me pareceram muito interessantes. Por isso, estou pretendendo construir, nos próximos tempos, uma série sobre expressões multipalavra, já que esse é o foco do meu trabalho.

É claro que ainda vou acabar escrevendo um monte de coisas loucas que eu andei notando nos últimos tempos sobre latim. Para aqueles de vós leitores que convivem comigo frequentemente, admita-se que não haverá muita surpresa: só um monte de coisas sobre etimologia que eu andei notando nos últimos tempos; espero surpreender -- ou, pelo menos, deixar feliz -- aqueles outros de vós que não me vêem com tanta freqüência.

Que mais? Queria ter posto uma imagenzinha aqui, e falado sobre como várias coisas aleatórias de línguas que sem motivo eu aprendo são legais... mas... infelizmente... por agora... é só o quick update.

É isso...

R$

21 de set de 2013

A quarta conjugação

Esses dias, enquanto lendo sobre a gramática do latim, descobri que a língua tinha 4 conjugações. As 3 conjugações "oficiais" do português são derivadas diretamente delas: ar, er e ir.

O que eu não esperava descobrir era essa página, que falava sobre a existência de uma quarta conjugação, que foi extinta em 1959. A partir de então, passou-se a ensinar nas escolas que os verbos terminados em or faziam parte da segunda conjugação. O motivo é que o verbo pôr deriva do verbo ponere, que ao longo do tempo virou poer (evisto [i.e., evidenciado] inclusive pelo seu particípio presente poente), fazendo parte da segunda conjugação.

Como verbos monossilábicos no português já tendem a ser irregulares por natureza, fazia sentido simplesmente acrescer o pôr ao grupo e esquecer de mais um enorme conjunto de regras que o falante nativo, apesar de saber, acha que não sabe e tem que decorar v_V Dá pra ver que as variações do verbo pôr são bem produtivas (repor, compor, decompor, dispor, impor, supor, depor, expor, propor, ...), ou pelo menos já foram (se hoje não são). Quando mo ensinaram na escola, minha professora inclusive me fez crer que realmente as terminações desses verbos eram as mesmas das dos verbos terminados em er.

Nunca questionara... sempre aceitara isso como verdade. Até esses dias, quando sem querer escrevi o verbo dormor (em vez de dormir) e quis conjugá-lo, de brincadeira.

[agora pensando bem... como eu fui bocaberta durante todo esse tempo =S]

Enfim... para tornar o exemplo bem engolível, fiz inclusive uma tabela aqui (baseada fortemente na tabela do link que postei ali em cima) [ela é grande demais pra ver miudinha assim... então acho que o ideal é clicar nela].

Eu vislumbro a possibilidade de usar essa conjugação com qualquer radical (palavras como torpor, pavor, amor e calor poderiam quem sabe tornar-se verbos também), mas imagino o quão estranho deva soar aos ouvidos alheios xP

R$

20 de set de 2013

Latim -- Primeira, segunda e terceira declinações

Achei que valeria a pena escrever um pouco sobre o meu processo de aprendizado. Nos últimos dias, antes de dormir, tenho passado quaisquer 10min tentando decorar [e achar lógica] nos grupos de declinações das palavras em latim.

[Caso não saibais o que são casos gramaticais (o que é nominativo, genitivo, dativo, acusativo ...), eu sugeriria ler a postagem que fiz quando estava aprendendo sobre sua existência e suas funcionalidades. Relendo agora notei algumas bobagens, mas acho que tá valendo. Ao menos não ficaríeis completamente perdidos]

Como comecei porque queria saber declinar direitinho a palavra thesaurus, acabei decorando a segunda declinação primeiro. Aqui, porém, começarei pela primeira, e explicarei a lógica que tento manter na minha mente na hora de decorar.

Substantivos que declinam segundo a primeira declinação são em sua grande maioria femininos. Algumas palavras masculinas relacionadas a ocupação (como poeta, agricola ou nauta), porém, também "adotaram" esse uso.

(Fonte: Wiktionary)
O Wiktionary ainda comenta sobre como a primeira declinação sugou algumas palavras do grego, e mostra tabelas com suas declinações. Porém, como as declinações dessas palavras, pelo que entendi, tendem a ser irregulares (e causar confusão ao aprendiz novo -- meu caso), acabei por ignorá-las temporariamente. Em todo caso, se encontrasse uma delas, declinaria de acordo com as regras em "stella", e suporia que o falante nativo [que já não mais existe, lol] seria capaz de entender.

Então, que lógica devo dizer que essas declinações seguem? Inicialmente, acho que me direis "nenhuma". Mas esperai até que eu apresente a segunda declinação, e aí muito mais sentido encontrareis.

Pois então? Que estamos esperando? Vamos à segunda declinação!


(Fonte: Wiktionary)
Em oposição à primeira declinação, composta primariamente por palavras femininas, substantivos na segunda declinação são normalmente ou neutros ou masculinos. Novamente, o Wiktionary comenta sobre a existência de palavras femininas vindas do grego que também declinam da mesma forma. Como eu sou principiante ainda, resolvi ignorá-las completamente.

Normalmente, o nominativo singular da segunda declinação termina em um (para neutros) e us (para masculinos). Mas isso me pareceu estar longe de ser a regra, e o Wiktionary inclusive apresenta os exemplos ager e puer.

Bom... finalmente cheguei a um ponto onde eu posso começar a achar lógica na minha decoreba. A existência de dois grupos de declinações que "se opõem" um ao outro me permite notar algumas regras. A primeira coisa a notar é a seguinte: olhai como os o's tornam-se a's na maioria das declinações, ao converter uma palavra do masculino para o feminino. A única exceção é o acréscimo de um e no dativo singular da primeira conjugação. Esse acréscimo, aliás, é a única diferença entre o dativo e o ablativo.

[diga-se de passagem, o Wiktionary inclusive comenta sobre como "filia" declina como "filiabus" no dativo -- ou seja, de acordo com outra regra --, só para fazer distinção entre "aos filhos" e "às filhas"]

Para saber o nominativo plural, normalmente olho para o genitivo singular. Exceto os nomes neutros, ambos normalmente são idênticos. Os nomes neutros, por sua vez, são ainda melhores: nominativos, acusativos e vocativos são idênticos \o/

Ainda cuidando os gêneros, notai como acusativos singulares declinam com "a vogal do gênero" + m, e como os plurais declinam idênticos ao português (exceto os nomes neutros -- leia o parágrafo acima).

Por fim, sobram vocativos (idênticos ao nominativo, fora o e da segunda declinação) e genitivos plurais (esses eu relacionei aos sufixos ário e ório do português [como em tributário -- ou seja, "de tributo" --, e classificatório -- ou seja, "de classificação"], que normalmente me indicam o caso genitivo).

...

Daí me vieram os nomes da terceira conjugação, e bagunçaram todas as minhas regras mentais. Ali, qualquer gênero é permitido, e o nominativo nem serve pra achar a raiz da palavra (já que é frequentemente diferente dos outros casos). Mesmo assim, ao menos ele sempre idêntico ao vocativo.

(Fonte: Wiktionary)
Se a letra "tema" da primeira conjugação era o a, e a da segunda era o o, na terceira conjugação ela definitivamente é o e. No acusativo, por exemplo, basta pegar a segunda declinação e substituir os o's por e's. O i do genitivo singular também vira e no nominativo plural; e o ablativo singular, que antes "combinava" com o português (e com o espanhol), agora também recebe um e pra diferenciar.

Agora, ambos masculinos e femininos declinam idênticos. Os neutros, por sua vez, seguem exatamente a mesma "regra" da segunda declinação: nominativos, acusativos e vocativos são idênticos, declinando em -a no plural.

Finalmente, dativos e ablativos ganham -ibus no plural -- o que pra mim tornou bastante óbvia a etimologia da palavra ônibus.

Algumas palavras na terceira declinação também recebem um i antes de algumas declinações. Se há alguma regra para descobrir quais palavras o fazem e quais não, não consegui descobrir. Pelo visto, será mais algo a decorar -- o que, admito, me é meio frustrante.

...

Daí perguntar-me-eis "e os adjetivos?"... afinal, adjetivos podem assumir qualquer gênero (concordando em gênero com o nome que modificam). De fato, o maior motivo por eu ter escrito tudo até aqui foi justamente a descoberta: os adjetivos declinam "igual"! Tomemos por exemplo o adjetivo veteranus (veterano):

(Fonte: Wiktionary)
Notai o escrito "Inflection: First/second declension". Isso significa que, para o gênero feminino, essa palavra segue a primeira declinação (igualzinho a stella, lá em cima), enquanto, para os gêneros masculino e neutro, ela segue a segunda declinação (igualzinho a dominus e forum, lá em cima). Tri, não?


Pelo que percebi, os particípios presentes (amante, andante, paciente, potente), quando "adjetivados", declinam, daí, de acordo com a terceira declinação (olhai aí do lado). Da tabela ali, dá inclusive pra ver daonde saiu o nosso particípio presente: até onde sei, ele é formado pelo "acusativo sem o m" (ignorai o "neutro", já que, até onde também sei, ele foi "droppado" bem cedo pelo "vulgus").

...

Bem, por enquanto, isso é "tudo" (tem mais algumas coisas, mas, enfim, eu ainda não to seguro quanto a se realmente as sei) que eu tenho aprendido até agora. Por enquanto, to deixando o francês de molho... mas eu já sei que sou assim: de tempos em tempos crio alguma coisa nova, me dedico totalmente a ela, até que enjôo e mudo pra outra. Passado algum tempo eu volto pra primeira coisa e me dedico affuuuu denovo... e aí me desenvolvo um pouco mais. Certamente não será diferente com essas línguas, apesar de eu duvidar da possibilidade de um dia ler tranquilamente em latim xP

Tomara que a postagem tenha sido interessante =)

R$



16 de set de 2013

Aprendendo latim

Então eu resolvi fazer o que já há tempos queria mas nunca tomara coragem para: aprender latim.

Na verdade, eu tenho certeza de que meus conhecimentos de latim acabarão não ficando melhores do que os poucos conhecimentos de francês que adquiri nos últimos 3 meses (bem poucos, ainda insuficientes pra uma conversa), mas pelo menos eu to me divertindo com as declinações. Enquanto houver declinações pra decorar e conjugações pra memorizar minha vida estará mais feliz.

Ao término de cada dia, tenho dedicado alguns 10min para repetir cuidadosamente as terminações de nomes em alguma declinação "alvo" que deseja memorizar. Como começara com tudo isso com o intuito de somente aprender a declinar "thesaurus" (tesouro), palavra que uso constantemente na minha "pesquisa" (aqui entre aspas porque tenho picuinhas com essa palavra xP -- e me sinto meio "inferior" pra chamar o que eu faço de pesquisa), acabei aprendendo a segunda declinação antes da primeira. Agora já decorei ambas (primeira e segunda) e estou estudando (na real, eu acho que já decorei... mas to inseguro ainda) a terceira.

Meu vocabulário em latim, aliás, também, é quase totalmente dependente do meu vocabulário em português... ou seja, portanto, extremamente limitado. Mas tá valendo: enquanto eu me divertir estará tri. No mais, as conjugações de verbo ainda também me confundem. Latim é "completo demais", na minha opinião, e nem aos passivos ele dá o luxo de serem perifrásicos (ou seja, mais coisa pra lembrar).

No mais, alguns particípios passados [aliás, isso me lembra que eu ainda não escrevi sobre os particípios aqui ] são completamente irregulares (como pressus e lectus, que por acaso eu acabei lendo hoje), e a decoreba canta solta em mais esse aspecto da língua.

Enfim... essa postagem era mais pra dar um "update" do que tenho feito. Vai que algum leitor se empolga e resolve aprender alguma língua também xD Tenho uma lista até que bem grande de assuntos para escrever (verbos de segunda e terceira conjugação -- além de umas irregularidades dos de primeira --; minhas descobertas mágicas sobre os particípios; uma postagem sobre as tosqueiras do inglês; minha imagem sobre o alemão depois de ter começado com o latim; e talvez mais coisas que nem lembre agora).

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8 de set de 2013

Convertendo WMA para MP3 [on Linux xP]

[acho estranho que cada vez mais seja comum usar o gerúndio em nomes de tutoriais. Seguindo a onda, faço o mesmo v_V]

Eu descobri que tinha um CD dos Arautos do Rei no meu celular [a que eu tava tri a fim de ouvir] que o "Music" (o programa de ouvir música do Android) não conseguia ler: as músicas estavam no formato wma.

Arautos do Rei: harmonias geniais, músicas ótimas, muito bem cantadas, e sem teologia da prosperidade são o que o ouvinte espera encontrar em seus discos, que raramente decepcionam. [tá tá, eu acho que ficou claro que eu gosto affuuuu das suas músicas v_V -- de fato, minha diversão é ficar procurando onde tá cada voz on-the-fly nas músicas]
Procurei achar na internet o disco pra baixar em mp3, mas não tive sucesso [aliás, não encontrei também em wma: boa parte do que eu já tinha visto estava no 4shared, no qual eu agora preciso logar pra poder baixar coisas]. Então, achei esse link que me ensinou a converter as músicas.

Eu não usei a linha de comando de lá porque, por algum motivo, simplesmente não funcionou. Aí tentei entender o que tá acontecendo e gerei a seguinte linha:
mplayer -vo null -vc dummy -af resample=44100 -ao pcm:waveheader file.wma ; lame -h -V 6 audiodump.wav file.mp3 ; rm audiodump.wav

O que está acontecendo? Acho que é melhor destrinchar a linha em partes pra ficar mais claro:

mplayer -vo null -vc dummy -af resample=44100 -ao pcm:wa
veheader file.wma 
lame -h -V 6 audiodump.wav file.mp3 
rm audiodump.wav

Bom... em primeiro lugar, quem está convertendo os arquivos para mp3 é um programa chamado lame. Lá na man page dele dá pra ver vários exemplos de como converter arquivos pra mp3. Eu não sei se fiz a melhor escolha de opções, mas os arquivos que gerei [e a que estou ouvindo agora] parecem estar ok.

O problema é o seguinte: o lame não lê arquivos wma, mas sim wav. É pra isso que serve o mplayer, que através daquelas opções [sério, eu simplesmente usei as mesmas do link lá] gera um arquivo chamado audiodump.wav, legível pelo lame.

Por fim, o rm remove o arquivo.

Tomara que isso seja útil pra outrem como foi pra mim v_V

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1 de set de 2013

Umas músicas de flauta doce



Eu andei ouvindo músicas de flauta doce nesse fim de semana, influenciado por um amigo meu. Não tendo onde guardá-las e querendo voltar a elas num futuro relativamente distante... deixo-as aqui, no caso de alguém mais querer também ouvi-las. Enfim... nada de muito especial v_V












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Pronomes Relativos -- Assimetria do "Quem"

Na minha última postagem eu disse que a próxima coisa sobre que falaria seria uma tal de "Assimetria do Quem". Cá estamos, então xP

Quando eu ainda tratava todas as palavras interrogativas como pronomes (e me perguntava por que algumas delas seriam, afinal, pronomes), um dos argumentos que eu me dava para que o fossem era o fato de que elas em geral poderiam ser usadas como pronomes relativos. Mas, calma, talvez não saibais o que sejam esses tais. Então, aqui vai uma explicação.

Do modo como eu vejo, pronomes relativos são um conjunto de palavras que ligam duas orações, de modo que um dos argumentos do verbo (ou seja, sujeito, objeto direto ou objeto indireto... ou mesmo adjunto adverbial) da segunda oração seja "extraído" da primeira.

Exemplo:

A menina estava feliz. A menina desenhava.
A menina que desenha estava feliz.

O pronome relativo mais comum é o que. Mas o qual não fica muito atrás, já que o que pode ser trocado pelo qual em quase todos os casos em que funciona como pronome relativo:

O menino jogava bola. O menino tinha ódio.
O menino que jogava bola tinha ódio.
O menino o qual jogava bola tinha ódio.

[bom, aqui tem uma questão de pontuação. Eu não sei como funciona. Tenho a impressão de que se eu pôr entre vírgulas a oração subordinada ela vai virar uma "oração subordinada adjetiva explicativa", em vez de permanecer como "oração subordinada adjetiva restritiva"... e isso não é o que eu quero. Daqui a pra frente, ignorarei essa questão, que "está fora do escopo dessa publicação" -- anyways, em alemão isso estaria entre vírgulas sem dúvida]

Diferentemente do que, o qual concorda em gênero e em número, e ainda exige um outro pronome (pessoal oblíquo, creio) (o vbuaraujo me fez notar que provavelmente seja um artigo) o antecedendo.

O menino o qual jogava bola tinha ódio.
As meninas as quais jogava bola eram masculinizadas.

Nessas frases, o pronome relativo aparece como sujeito da oração subordinada. Quem tinha ódio? O menino! Quem estava feliz? A menina! ... Mas a oração subordinada pode usar o pronome relativo para tornar em objeto direto o argumento "sugado" da primeira oração:

O lápis quebrou. O menino entregou o lápis à menina.
O lápis que o menino entregou à menina quebrou.
O lápis o qual o menino entregou à menina quebrou.

Apesar de a diferença me parecer sutil em português, ela é gritante em alemão [na real, nem tanto: só no masculino], onde a declinação se torna diferente do sujeito pra o objeto.

Uma última possibilidade, é usar um argumento da primeira oração como objeto indireto da segunda oração (e aqui as coisas ficam um pouco mais complicadas). O "gramatical" (i.e., o "certo") seria fazermos o seguinte:

A guria invocou a lei Maria da Penha. A cara da guria foi arrebentada.
A guria da qual a cara foi arrebentada invocou a lei Maria da Penha.

O guri foi pro hospital. O pé do guri se quebrou.
O guri do qual o pé se quebrou foi pro hospital.

Esse é o obstáculo. Eu devo passar por esse obstáculo.
Esse é o obstáculo por que eu devo passar.
Esse é o obstáculo pelo qual eu devo passar.

Nos dois primeiros exemplos acima, eu não pus a versão com que por um motivo: ela me soa mal, e o que a gente acaba fazendo é pôr um quem no lugar. E isso está relacionado à tal "assimetria" título dessa postagem... mas eu chegarei lá:

A guria de *que a cara foi arrebentada invocou a lei Maria da Penha.
O guri de *que o pé se quebrou foi pro hospital.

Algo que direto acontece é omitirmos a preposição quando o contexto não é ambíguo (acontece especialmente com as preposições a, de e em) e adicionarmos um novo pronome oblíquo:

O guri que o pé [dele] rachou já foi pro hospital.
O apartamento que eu fui ontem era tri bom.

E isso gera algumas coisas muito estranhas:

Aquele é um cara legal com quem conversar.
Aquele é um cara legal de conversar [com ele].

Essa é uma tecnologia boa junto da qual trabalhar.
Essa é uma tecnologia boa de trabalhar junto [com ela]. [frase verídica]

[mas eu tava tentando "dividir" essas orações e não consegui... então talvez haja algo que eu não entenda aí no meio. O problema pra mim é o infinitivo ali]

Continuando... eu gosto de pensar que a declinação em genitivo do que (através da qual a preposição de passa a ser desnecessária) é o cujo. De fato, durante as aulas de alemão, toda vez que um pronome relativo estava declinado no genitivo, era possível utilizar cujo (e variações) na tradução. O cujo funciona como artigo na oração subordinada, e corcorda em gênero e número exatamente como um.

A guria, cuja cara foi arrebentada, invocou a lei Maria da Penha.
O guri, cujo pé se quebrou, foi pro hospital.

Existe ainda o de/por/para/sobre/... cujo, ou seja, o caso em que a oração subordinada se refere a algo que é do elemento extraído, e o põe no objeto indireto. Mesmo assim, essa opção já está morta na fala, e, por isso, listo formas alternativas a ela logo abaixo.

Essa é a menina. Eu te falei sobre o vestido da menina.
Essa é a menina sobre cujo vestido te falei.

Essa é a menina sobre o vestido de quem eu te falei.
Essa é a menina de quem eu te falei sobre o vestido [dela].
Essa é a menina que eu te falei sobre o vestido [dela]. [popular]

Um último detalhe, antes de extendermos o nosso conjunto de pronomes relativos: há algumas orações principais onde o argumento é justamente a oração subordinada (daí a oração subordinada é "substantiva", até onde eu lembro). Nesses casos, um pronome (pessoal oblíquo?) aparece na oração principal pra servir de "gancho" pra subordinada. É engraçado que nesses casos o que me parece substituível não pelo qual, mas pelo aquele/aquilo. Nos exemplos a seguir, o pronome aparece em vermelho:

Tu vais ver 3 luzes. A [luz] que estiver piscando é boa. [sujeito]
Essa arma é a [arma] que matou minha mãe. [obj. direto]
Tu vais ver 3 luzes. Olha pra [luz] que estiver piscando. [obj. indireto]

E isso explica o funcionamento do o que:


O que eu não quero ver é a sua cara nunca mais.


Bom... cansei. Acho que já expliquei bem (se é que eu sei realmente do que to falando) o que são esses tais pronomes. Se quiserdes mais infos, uma explicação mais "profissional" do assunto se encontra aqui:


Ok. O que acontece agora? Extenderemos o nosso conjunto de pronomes relativos! No início da postagem, eu disse que as "palavras interrogativas" também agiam normalmente como pronomes relativos. Pois bem, aqui vão alguns exemplos:

Gostava daquele tempo, quando me alimentava a base de doce. [em que]
Esse foi o jeito como eu resolvi o problema. [através do que (?)]
Ontem fui a um apartamento, onde deixei meu cachorro. [em que]

Mas [e agora chegamos ao ponto onde eu queria chegar] tem um pronome que me parece não dar certo. Simplesmente, não é usado... e me soa muito mal aos ouvidos: o quem. Em inglês [e alemão?], por outro lado, soa perfeitamente ok:

A vida do homem era triste. O homem atirava de metralhadora.
A vida do homem *quem atirava de metralhadora era triste.

The life of the man who shot with a machinegun was sad.

E tem mais. Quando ele aparece no objeto indireto (ou seja, quando o pronome relativo espera uma preposição), é o que que soa errado:

As pessoas passeavam pela rua. As vidas das pessoas foram arrancadas.
As pessoas *de que as vidas foram arrancadas passeavam pela rua.

Eu ainda não consegui pensar bem sobre quando o quem substitui um sujeito, mas eu tenho a impressão de que há frases em que a coisa dá certo e há frases em que não:

Eu tomei café. Eu fiz bagunça.

Eu, que fiz bagunça, tomei café.
Eu, *quem fez bagunça, tomei café. [?]

Fui eu quem destruiu a cafeteira.

Enfim. Tudo isso pra falar meia dúzia de palavras sobre o quem. Espero que essa postagem sirva pra ajudar-vos com pronomes relativos, caso não vos interessais pela tal da "Assimetria do Quem" (na verdade, agora, pensando melhor, talvez seria melhor chamar de "Não-hortogonalidade do Quem", não?).

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