9 de mar de 2014

Sobre o Português e o Espanhol

Há algum tempo alguém me fez um comentário-pergunta (relacionado a linguagens, porque por qualquer motivo o assunto surgiu) que, na hora, pareceu mais crível do que um pouco depois: se o latim é mais complicado que o português e o português tem mais sons que o espanhol, então será que o espanhol não seria "uma segunda derivada" do português?

Porque estávamos discutindo sobre como o espanhol faz menos diferença entre vogais do que nós falantes de uma das mais ricas fonologias vocálicas de todas as línguas românicas, a pergunta pareceu fazer pleno sentido. Mas um pouco depois, pensando sobre como, por exemplo, o Latim não tinha artigos e nem futuro do subjuntivo (estruturas complexas que ambas as línguas desenvolveram independentemente da sua língua "mãe"), a coisa começou a degringolar.

Essa postagem, assim, meio que tinha a pretensão de linkar coisas que eu considero que possam me dar argumentos contra essa idéia.

Na postagem anterior eu falei um pouco sobre interações entre línguas. O que eu aprendi com isso foi que, normalmente, quando populações falantes de exclusivamente uma de duas línguas não mutuamente inteligíveis precisam se comunicar, elas criam um pidgin, que tem como uma de suas principais características o fato de ser uma linguagem simples. Daí eu gosto de extrapolar a idéia de que a interação entre essas duas populações tenderia a causar a perda de estruturas gramaticais de ambas as línguas.

Com essa idéia em mente, e tendo lido que os espanhóis só expulsaram os mouros quase 300 anos depois dos portugueses (aliás, um link bonzinho sobre o assunto foi esse aqui), eu gosto de pensar que talvez tenha sido culpa disso que o espanhol faça tão pouca diferença entre sons vocálicos.

A Wikipedia, aliás, mais uma vez se mostra bastante conveniente quando consultada sobre o assunto. Não esperava encontrar um artigo de comparação entre as duas línguas, por exemplo (e nem que os artigos de história de ambas fossem tão completos grandes).

Bom... de qualquer forma, acho que é meio simplista achar que tudo foi culpa dos mouros. Ambos portugueses e espanhóis foram muito influenciados por franceses durante todo o tempo, e o espanhol não era a única língua falada na região da atual Espanha (o que dizer do Aragonês, do Basco, do que hoje a Wikipedia chama de "Mozarabic" e do Leonês? [entre outros?]). Assim, eu acho muito mais crível que talvez toda essa interação entre línguas é que os tenha obrigado a dropar alguns sons pra permitir a mútua inteligibilidade. Ou então que os sons simplesmente tenham se [des]desenvolvido independentemente (o que, anyways, me parece sempre improvável, já que, em se tratando de línguas, a suruba é sempre o mais comum v_V).

Eu meio que paro minhas especulações por aqui. Essa busca só me fez abrir um monte de abas com texto demais para pouco tempo para leitura. Mesmo assim, não posso deixar de postar aqui algumas coisas que achei interessantes.

Eras isso...

R$

8 de mar de 2014

Coisas aleatórias

De tempos em tempos eu me obrigo a fazer uma postagem aqui com conteúdo de um monte de coisas que eu vi, quero compartilhar, mas que não é suficiente pra ganhar uma postagem inteira.

Expletivos

Enquanto procurando por argumentos que mostrassem que o Espanhol não é "derivado" do Português como tem muita gente que de vez em quando supõe (engraçado é que falantes nativos de inglês creio que tendam a pensar justamente o oposto, já que o Espanhol é mais popular), acabei encontrando três artigos da Wikipedia que julguei interessantes.

O primeiro deles fala sobre um tal de Atributivo Expletivo, do qual o melhor exemplo que consegui achar foi

This is fucking awesome!
(Isso é realmente incrível!)

A idéia é que o adjetivo ou advérbio não contribui com significado, mas serve como intensificador. Tenho a impressão de que em português essa estrutura não seja lá tão bem desenvolvida quanto em inglês... e que se ela fosse talvez pudéssemos usar o expletivo como infixos, como ocorre em algumas frases do inglês:

This was un-fucking-believable!
(Isso foi in-fucking-acreditável!)

LOL... depois de escrever aqui que eu fui ver que no artigo ali da Wikipedia (eu não tinha lido ainda até o fim) inclusive se fala sobre como o inglês permite infixação dos expletivos.

O artigo da Wikipedia diz também que expletive vem do latim explere, que significa preencher. E outra coisa que também é chamada de expletiva são os Pronomes Expletivos (ausentes no português). Esses pronomes ocupam o lugar dos nossos sujeitos indeterminados em frases como

It is raining today.
(__ está chovendo hoje.)

Esses pronomes ocupam o lugar do que é chamado de Expletivo Sintático, i.e., lugares vazios que precisam ser preenchidos para que a sintaxe "funcione".

Dois videos interessantes

Eu queria muito compartilhar esses dois videos a que assisti já há algum tempo. O primeiro deles é do Vsauce. Apesar de não gostar lá tanto do modo como eles estruturam seus videos (dando informação sobre muita coisa bem pouquinho de cada uma -- e não aprofundando em nada, daí), eu entendo que o objetivo deles é direcionar o espectador interessado naquilo que ele quiser aprender. Assim, um dos links foi o segundo video, que me foi muito interessante:





Contato lingual

[Preferi chamar de "contato lingual" pra não traduzir como "contato linguístico" e não ficar explícito que eu to falando do contato entre línguas. Mas não sei se ficou claro, no fim u.u]

Nesses artigos da Wikipedia que eu vou linkar a seguir frequentemente eu caio por acidente e, porque eles são tão fortemente relacionados, eu nunca consigo abrir um sem abrir quase todos os outros. Também... eu nunca consegui terminar de ler todos -- porque eles falam todos de assuntos muito relacionados e sempre eu tenho a impressão de que eu não to sabendo de alguma coisa na hora de lê-los.

O primeiro deles fala de contato entre línguas. Os efeitos que esse contato pode ter são vários possíveis. Um primeiro do qual eu gosto muito (e do qual eu tenho sido vítima há algum tempo, digamos assim, porque eu tenho quase todo dia falado com uma pessoa gringa que me obriga a pensar durante algum tempo em inglês) é o empréstimo de palavras entre as duas línguas. Às vezes esse empréstimo é tão forte que o vocabulário inteiro de uma das línguas pode ser substituído pelo da outra -- apesar de o mesmo não ocorrer com as estruturas gramaticais. Outra possibilidade é que ambas as línguas convirjam (é essa a conjugação certa?) para uma situação em que elas sejam menos diferentes do que eram inicialmente.

Outras coisas podem acontecer. Quando uma das línguas tem mais prestígio do que a outra em meio à população onde elas são faladas, essa língua pode, ao longo de muitas gerações, substituir a que tem menos prestígio. Por fim, quando duas populações precisam se comunicar mas não são fluentes em ambas as línguas (i.e., cada membro é fluente em somente uma das línguas), então uma "língua simplificada" pode surgir (que não é a língua nativa de ninguém). Se esse contato entre as duas populações perdurar por tempo suficiente para que crianças nasçam e aprendam a "língua simplificada" como língua nativa, então essa língua pode acabar se tornando um crioulo. Às vezes, porque o prestígio de uma das línguas da população é maior do que o da outra, o crioulo pode "se aproximar" da língua de maior prestígio.

Às vezes, nem mesmo é necessário que duas populações interajam para que a língua da população mude (aliás, às vezes eu penso que isso inclusive tem acontecido no Brasil, que não me surpreenderia se daqui a 150 anos fosse bilingual em inglês -- ou mesmo monolingual em inglês [mas eu não to dizendo que seja isso que vá acontecer u.u] --, apesar de o mais esperado por mim seria que a gente só se orgisse com o inglês um pouco -- e criasse uma coisa bem mais próxima de um Porglish [no puns intended]).

O mais engraçado de tudo pra mim é que realmente tem gente que crê numa tal de "teoria monogenética dos pidgins", que diria que todos os pidgins seriam derivados de um único dialeto (**raising eyebrown**). Esse artigo da wikipedia, por outro lado, linka um outro artigo do qual eu gosto bastante: a "teoria da linguagem bioprogramada" (tradução advinda da versão em galego da mesma página). Apesar de o artigo aparentar dizer que a teoria não funciona muito bem, ela me parece muito próxima da idéia de "gramática universal" super-popular hoje entre lingüistas u.u (mas é verdade que eu acho que entendo pouco demais sobre isso pra querer debater =/)

Bonus

Descobri duas coisas legais hoje enquanto lendo. A primeira é que praeter- em latim é um prefixo que significa além, exceto, e que praeterire é proveniente de praeter + ire e significa desconsiderar, negligir (além de umas outras coisas). Assim, praeteritus significaria desconsiderado, negleto, e seria uma boa forma de se referir ao passado.

A segunda é bem mais tri. Matricula é descendente de matrix + ula, onde ulus é um sufixo que se usa para formar o diminutivo (portanto, matricula significaria matrizinha). Mais do que isso... matrix é derivado de mater, i.e., mãe.

Legal, né?

R$

Usando a internet de verdade

Apesar de ter uma conta no Facebook, eu sempre o considerei um veneno: sempre tive a impressão de que ele só serve para me fazer perder tempo quando meu tempo é livre.

Alguns dias atrás eu havia resolvido finalmente fazer uma conta no Reddit e substituir cada vez mais o meu uso de Facebook por uso no Reddit, um dos lugares em que a internet realmente acontece (tá certo que tem coisas que ocorrem em vários outros grandes lugares da internet, mas pelo menos normalmente elas não ocorrem no Facebook u.u). Tendo criado a conta lá, me subscrevi em vários subreddits relacionados a lingüística onde eu poderia aprender alguma coisa. Me seria divertido (me está sendo, na real).

Hoje, porém, conversando com a minha mãe, descobri algumas coisas interessantes. Descobri que ela, já há algum tempo, havia começado a participar de um grupo (que tem algo como 4k membros) onde as pessoas compartilham livros. De um, ela foi entrando em outros e outros e quando viu já estava nuns 20. Todos eles totalmente brasileiros (i.e., em português), e em todos eles ocorre criação de conteúdo original (autores postam seus livros por lá), fanfics e até mesmo traduções. A maior parte deles ou fechado ou mesmo secreto

Achei o máximo: minha mãe estava fazendo o que eu considero que a maior parte das pessoas no Facebook não deve fazer: usando a internet de verdade. Como eu ía imaginar que esse tipo de coisa ocorreria no Facebook?!?! Ao comentar com ela sobre o Reddit, ela me comentou que o seu grande problema é que o conteúdo por lá é normalmente em inglês.

Tendo procurado por Latim lá, encontre esse grupo, que parece bom o suficiente para achar material de leitura e tal.

Fiquei feliz: minha impressão sobre o Facebook melhorou (apesar de ainda ser péssima) bastante depois dessa descoberta.

R$

Um pouco mais sobre Latim

Pra quem convive comigo não deve ser surpresa alguma que estou aprendendo latim. Passo muito tempo (DEMAIS!) pensando, matutando, lendo e rindo sozinho das coisas que aprendo. Hoje resolvi apresentar por aqui algumas delas (já que faz uma era que não posto por aqui xP).

Sufixo Incoativo


Ontem estava indo comer um xis com um amigo que não via há muito e, no caminho, ía pensando sobre o verbo adolescere em latim. Há algum tempo (sozinho, do nada) eu tinha notado/descoberto que adultus era o seu particípio passado e, porque havia lembrado sobre o ocorrido, fiquei me perguntando se o ad do início não seria decorrente da preposição ad. O motivo é que estava comparando com a preposição ab, que se torna a quando precedida de consoante (algo que também me tomou algum tempo para notar -- eu notei "sozinho" quando li que a preposição ex sofria o mesmo tipo de alteração [apesar de haver exceções]).

Na hora, minha suposição foi a seguinte: que adolescere viria de ad + dolescere. Questão é que eu tinha já em mente a idéia de que todos os ecer do português são criação "mais nova" vinda do latim vulgar e ausentes no latim clássico (sim, é verdade, estava ignorando o sc ali). Um exemplo seria

oboedir --> oboedecere --> obedecer

Porque eu supunha que ecer/escer fossem invenções do povo (o latim vulgar é o latim "que o povo falava" -- porque vulgus é povo em latim, anyways), eu passei a imaginar a possibilidade de dolescere significar dolere. E dolere significa doer em português, e então tudo me pareceu fazer muito sentido: o adultus seria uma pessoa sofrida e, portanto, já digna do status de "completa" na sociedade.

Mas, bem, sim, eu estava errado. Acontece que na verdade adolescere vem de ad + alescere, onde alescere significa "começar a alimentar" (o uso é meio estranho: apesar de alescere ser usado de forma ativa, ele tem um significado na verdade passivo. Assim, na verdade, alescere significaria "começar a ser alimentado").

Tá... mas aí o Wiktionary dizia algo bem legal sobre alescere:

Etymology

Inchoative or inceptive form from alō (foster), + inceptive suffix -ēscō.
 
(forma Incoativa ou inceptiva de alō (“eu alimento), + sufixo inceptivo -ēscō.)

No caso, alere é o verbo alimentar (daonde vem aluno, alimento, ...). Eu fui atrás do "sufixo inceptivo -esco" e, quem diria, ele era um sufixo produtivo no latim que indicava o aspecto "incoativo" ou "inceptivo/incetivo" (eu gosto de traduzir como incetivo porque foi-se o tempo em que as palavras guardavam esses p mudos no português), que, no caso, indicava "início de". Assim, em latim, se eu quisesse dizer que eu "ía começar a fazer tal coisa", me bastava adicionar um -sc- e tava feito o carreto \o/

O que eu achei legal disso é que aquela minha suposição de que ecer era coisa de latim vulgar caiu por terra / foi por água abaixo. Um exemplo é a palavra aparecer (que tem aparente [e não aparecente] como particípio presente):


Etymology

From Old Portuguese aparecer, from Late Latin appārēscere, present active infinitive of appārēscō (begin to appear), from Latin appareō.

(do Português Antigo aparecer, do Latim Tardio [tardio?] appārēscere, infinitivo presente ativo de appārēscō ("começo a aparecer"), do Latim appareō.)


Prevérbios

O leitor astuto deve ter notado que o o em adolescere não aparece na construção ad + alescere. Tendo clicado na palavra inceptive no Wiktionary, notei sua etimologia:

Etymology

From the French inceptif, from the Latin inceptīvus, from incipiō (I begin).

(do Francês French inceptif, do Latim inceptīvus, de incipiō (eu começo).)

Cliquei na etimologia de incipio e descobri que vem de in + capio. Como assim? O verbo não era incipio? Daonde saiu aquele a em capio?

[aliás, diga-se de passagem, o particípio passado de incipio é inceptus, de onde vem a palavra inception, no inglês xP]

Eu não tenho muito para explicar aqui, mas a moral é que essa parte da postagem foi feita só para eu pôr esse link aqui (do Elmord's Magic Valley), onde o autor descreve sobre a existência de prevérbios e de algumas mudanças vocálicas quando a preposição é "acoplada" ao verbo.

No mais, outros exemplos incluem incidir, que é derivada de in + cadere (onde cadere significa cair -- e é daonde veio a expressão "estrela cadente" [i.e., estrela que cai]); e a oposição placere (gostar) vs. displicere (não gostar).

Infinitivo Futuro Passivo

Na minha busca por informações sobre "incoativo", acabou me chamando a atenção como os infinitivos futuros passivos são formados. Normalmente eles são compostos por dois verbos: o verbo "principal" em sua versão "supino" + o verbo eo (que significa ir) no infinitivo presente passivo (i.e., iri).

Assim, o infinitivo "ir ser cantado" é conjugado como cantatum iri.

Pra mim isso é interessante porque me mostra como há 2000 já se usava o verbo "ir" para marcar o futuro (como fazemos hoje -- sim, de forma diferente, mas enfim).

Aspecto Frequentivo

Por fim, ao procurar por mais informações sobre as coisas que escrevi logo aqui em cima, acabei descobrindo que a palavra cantare é proveniente da flexão do verbo canere (cantar) no aspecto frequentivo. Assim, da mesma forma que se usa -sc- para indicar "início de", se usam os sufixos -tāre/-sāre, -itāre e -titāre/-sitāre para indicar "feito com frequência".

A página da Wikipedia sobre o assunto dá até vários exemplos de verbos que se usam hoje e que são provenientes do uso dessa regra.



Enfim... isso cobre várias abas que deixei abertas desde ontem sobre vários assuntos. Tomara que isso crie pelo menos algum interesse no leitor sobre essa língua que pra mim tem trazido muita diversão.

R$