27 de dez de 2012

Politicagens

Eu sei eu sei... esse blog andou parado um bom tempo ultimamente. A verdade é que ando meio atordoado (e revoltadamente desmotivado) com o assunto do meu TCC e com as coisas que tenho que resolver antes do dia 7 de janeiro, quando a minha implementação PRECISA estar terminada.

Na falta de vontade de fazer as coisas relacionadas à computação, passo os meus dias (ou as minhas noites, já que tenho invertido os meus horários e agora ido dormir às ~8h pra acordar às ~17h -- ee, diga-se de passagem, isso tem me ajudado a manter-me bem focado no que quer que eu faça) lendo wikipedia, lendo e-mails, e coisas tais.

Li bastante sobre lingüística, como era de se esperar... eee, bem, pretendo fazer uma postagem sobre o assunto; mas esse post não é sobre isso, mas sobre uns links que andei encontrando aqui e ali e que acho interessante que sejam compartilhados.

O primeiro deles é sobre DRM. Eu sei: é um assunto velho. Mas vale a pena voltar a atenção a ele denovo. A moral é que eu nunca tinha achado esse site -- apesar de já ter sobre ele ouvido falar -- e agora, por muito acaso, acabei cruzando o seu caminho.

O segundo é sobre a Amazon (eu não gosto do Richard Stallman, mas, aaa, esse link até que vale -- como sempre, ad hominen não conta v_V). Aos poucos eu vou percebendo o quanto eu não gosto da Amazon e o quanto ela ter chegado ao Brasil me incomoda. A Amazon é um câncer, uma abominação; mas não significa que não ponderaria comprar dela se o seu preço estivesse baixo o suficiente. Mesmo assim, a "venda" de livros eletrônicos (o único comércio de que a Amazon decidiu tomar parte aqui no Brasil) praticada por ela é suja e malevolente. Esse link dá uma idéia do que eu quero dizer.

O terceiro é sobre o Nióbio brasileiro. Na verdade é uma série de links. A moral é que aquilo que tem circulado na internet sobre o Brasil ser o maior produtor mundial de Nióbio é a mais pura verdade. E sobre ele ser vendido a preço de banana, não é dúvida nenhuma. É um absurdo! Mas quando a gente fala sobre isso, todo mundo fica de conversinha reclamando do Brasil. Temos mais é que fazer uma mobilização nacional, alguma petição pública, alguma pressão política, levar isso à TV, aos radios, alguma coisa. Isso precisa parar!


Por fim, o quarto link é sobre o Marco Civil:




O leitor dirá "mas quanta politicagem". A moral é que a gente não pode deixar que grandes empresas tomem conta da nossa vida, da nossa economia, dos nossos recursos. É necessária a conscientização... e muito mais que isso: a ação nossa através de mobilização política.

Enfim... esse é só um resumo das minhas ilusões de fim de ano T___T

R$

11 de nov de 2012

Musicais da Disney

Como o leitor provavelmente sabe, a rede social da qual eu definitivamente mais participo durante o meu tempo livre é o Youtube. É uma das poucas redes sociais que realmente geram "conteúdo" (ou, ao menos, geram algo decente) e, bem, em geral, os comentários das pessoas por lá -- ao menos essa é a sensação que eu tenho -- são bem mais "civilizados" (com exceção de quando chega um pessoalzinho com coisas como "upvote se você chegou a esse video através do 9gag) do que, sei lá, aqueles que vejo no Facebook ou no 9gag.

Dois canais dos quais eu particularmente gosto -- e aos quais eu sigo -- são o do Kyle Landry e o da Lara, ambos pianistas. Ambos frequentemente tocam músicas de jogos, e inclusive eles foram convidados pra tocar no E3, junto com a Taylor Davis (o nome do canal é ViolinTay), outro canal a que sigo.

Pronto, agora que já introduzi os canais -- que, na real, são super conhecidos --, posso comentar sobre o real assunto da postagem: músicas da Disney.

O Kyle Landry fez dois vídeos junto com a Lara, que mora na Austrália mas foi visitar os Estados Unidos. Um deles era um arranjo (que, sério, me lembrou MUITO as músicas do Kingdom Hearts -- motivo pelo qual eu acabei indo atrás da música original pra descobrir quem era o compositor e tudo mais) da música "Belle", do filme d"A Bela e a Fera", da Disney:



Já disse que o arranjo tem cara de Kingdom Hearts (o que faria bastante sentido, já que o jogo tem tudo a ver com a Disney), mas, não... a música original não foi composta pela Yoko Shimomura. Como ouvi a música original,



, e como a achei tri boa, acabei ficando com ela na cabeça pela sexta-feira inteira. Sério... é muito agradável, e a letra é bem a cara de "musical da Broadway". Aliás... aliás... não é só cara que tem:





Bem... como a música me agradou, na sexta-feira denoite acabei ouvindo a lista de reprodução que o Kyle Landry tem só de músicas da Disney. A última que acabei ouvindo foi "Part of Your World", da Pequena Sereia:



Como a ViolinTay foi quem tocou, a música me chamou a atenção... e por isso fui atrás da original também:



Mas, enquanto procurava, achei uma versão absurdamente boa da música:



EE... bem... foi essa música o grande motivo pelo qual resolvi vir aqui e postar isso no meu blog. Sério! Essa mulher (o nome dela é Sierra Boggess) canta demais!

Enfim... nessa semana eu descobri que os filmes da Disney tinham músicas tri fodalhonas que eu nem sabia que existiam Uma hora vou tirar um tempo e ver se assisto a alguns desses antigos clássicos da cultura que os norte-americanos incutiram na nossa vida como se fosse nossa v_v

R$

19 de out de 2012

Em KL#8 -- Outono

Essa é uma postagem completamente diferente de todas as que já fiz, creio eu, até hoje. Ela se baseia muito mais nas suas fotos do que no que eu tenho a dizer sobre elas.

Até pouco tempo atrás, duas coisas aqui na Alemanha não me passavam bem pela garganta: a comida e o clima.

Até pouco tempo atrás!

Sério... o outono aqui é a época mais bonita do ano, certamente. A Alemanha não combina com a primavera, com cores vibrantes e vivas. O outono reflete bem a cara do país (ou, ao menos, de Kaiserslautern).

Cheias de cores, as árvores despencam suas folhas por todo lugar.

Acho que as minhas fotos ficaram meio ruins, mas tomara que dê pra ter uma idéia de quão colorida a estação está [ou, melhor, estava -- porque agora as folhas já estão aparentando bem mórbidas v_v].



Enquanto tirava fotos pela universidade (parecendo um turista -- árabe, aliás, por causa da barba -- aloprado querendo registrar tudo o que vê), uma amiga com quem eu tava me apontou uns cogumelos.


Eu passo por esse lugar (onde encontramos os cogumelos) todo dia! Ainda não os tinha visto (eles me lembram o MClone e os trabalhos de computação gráfica na faculdade -- os quais inclusive me renderam um artigo [aliás, também é legal saber que o DBLP é "powered by Universität Trier", que fica aqui perto]).


Eu fiquei com a impressão de que essa próxima foto parece foto de maquete de uma nova construção que vai sair num futuro próximo em algum lugar. Sei lá... parece que é tudo artificial v_v

E isso conclui essa minha postagem. Eu tenho postado numa freqüência super alta ultimamente, mas não creio que essa freqüência deva se manter por muito tempo. Mesmo assim, é verdade que eu tenho mais alguns assuntos sobre os quais eu já tinha escrito em outros tempos e que ainda estão "escondidos" na lista de rascunhos do blog.
(agora quando minha mãe me pedir fotos direi a ela que leia o meu blog... HUEAHEUHA)

R$

18 de out de 2012

Armamentista ou Desarmamentista? Eis a questão...

Um amigo deu like num link no Facebook hoje que acabou aparecendo pra mim nos "feeds de notícias". O link (como é de se esperar, já que ele é bem viciado nessas coisas) era sobre um armamentista respondendo a alguns argumentos desarmamentistas.

Eu gostei da discussão e fiquei feliz por ela ter se dado na Carta Capital, uma revista que eu acho suficientemente não tendenciosa. As opiniões são de 2011 (ocorreu durante uma tal de CPI das Armas do RJ), mas achei que valeria a pena postar os links organizados. Meio que duvido que o leitor se dê ao trabalho de ler tudo (haja tempo e boa vontade!), mas, sei lá...

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/maioria-das-armas-dos-traficantes-vem-de-dentro-do-pais/

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/ong-viva-brasil-contesta-informacoes-da-ong-viva-rio/

http://www.cartacapital.com.br/politica/viva-rio-reitera-armas-do-trafico-vem-de-dentro-do-pais/

Através desses três primeiros links, eu poderia dizer que quase teria a sensação de que o "vitorioso" seria o desarmamentista Antonio Rangel Bandeira, não fosse o fato de ele rebater o "achismo" do diretor da CAC com comentários de cunho tão "achista" quando o de seu adversário (somente referindo ao próprio documento alvo de questionamentos pelo Rebelo). Inclusive, ele não cita os nomes dos supostos membros da CAC que tiveram suas armas roubadas, argumentando que "há abundância de noticiários" (enquanto, por outro lado, o Fabrício Rebelo o desafia a fazê-lo). ["apelo à ignorância", mas, sei lá, néam?]

Aliás... o Rebelo nem comenta sobre a afirmação de que as maioria das armas não viria do exterior, apesar do título dado pela Carta Capital à sua resposta (por mais que ele diga que não faria sentido associar-se à CAC para obter armas do exterior).

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/quanto-menos-armas-em-circulacao-menos-mortes/

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/quanto-mais-armas-em-circulacao-menos-mortes/

http://www.cartacapital.com.br/politica/walter-maierovitch-o-brasil-e-protagonista-no-trafico-internacional-de-armas/

Bom... tendo lido tudo, posso dizer que, bem, eu definitivamente sou muito mais armamentista do que desarmamentista. Eu creio sim que maior parte das armas venha do exterior: não fosse assim (fossem só os 7% defendidos pelo Bandeira), não veríamos com tanta freqüência fuzis, metralhadoras e o diabo nas apreensões da polícia cobertas pela imprensa. Lendo o comentário da diretora do Sou da Paz, fiquei enculcado sobre o seguinte trecho:

Em 2003 conseguimos aprovar o Estatuto, em 2004 fizemos uma grande campanha que tirou muitas armas de circulação, em 2005 veio a discussão do referendo, em que a população votou pela manutenção da venda de armas de fogo, mas isso não significa que acabou com o Estatuto do Desarmamento, muito pelo contrário.

Quer dizer então que a opinião da população não serve pra nada? Acho que o resultado do referendo claramente demonstrou que a população não quer ficar desarmada.


Sei lá... esse foi um post meio impensado... sem muita formação, e com links "desnudos" aí para o deleite do leitor (normalmente, eu prefiro embutir o link em alguma palavra ou frase no meio do texto). Só achei que seria talvez um assunto sobre o qual o leitor possivelmente gostaria de refletir =)

R$

17 de out de 2012

Elmord's Magic Valley

Em uma conversa com um amigo -- o dono do Lines o' Code, um dos blogs ali do lado -- sobre o quanto eu gosto de aprender sobre línguas*, sobre linguagens, sobre linguísticas e todas essas coisas que giram em torno do modo como os seres vivos se comunicam (digo "vivos" porque admito que tenho sérias ressalvas com a área de redes, na computação), fiquei sabendo da existência de uma postagem sobre esperanto no blog de um de seus amigos.

Fiquei curioso: de acordo com o amigo, a conversa rendeu affuuuu sérias polêmicas. Fui ver! (na real, demorei um monte pra lembrar: tem umas coisas que a gente só lembra de fazer quando definitivamente não dá, como quando tá tomando banho, quando tá andando na rua, quando tá no lab "trabalhando", etc.) Ao chegar lá, fiquei feliz: é um blog que se encaixa perfeitamente no tipo de blog que me agrada ler. Fala sobre assuntos de computeiro, assuntos da vida e, como me era esperado, tem algumas postagens sobre línguas \o/

Bem... essa postagem é mais meio que pra demonstrar que eu fiquei tri empolgadinho com o feito alheio, pra recomendar o leitor ao blog, e pra explicar que eu devo referi-lo na listinha ali à direita de agora em diante (eu todo orgulhozinho crente de que estaria sendo o primeiro; aí agora fui ver o blog lá e já tinha um link pro meu... lol).

Eras isso...

R$

*: Eu gostava de tentar distinguir "línguas" de "linguagens" meio que tomando por critério alguns parâmetros que aprendi nos tempos das aulas de LIBRAS. Foram-se os critérios (esquecidos -- mas subjetivamente guardados), ficou a distinção: de alguma forma, eu me dou ao esforço de diferenciá-las [as palavras], apesar de saber que as definições variam demais -- e inclusive haver línguas que não diferenciam ambas as palavras [coff coff... inglês... coff coff].

Aliás aliás... falando de inglês: fiquei de boca aberta hoje quando me toquei que, apesar de normalmente relacionarem o significado de língua a "language" ou "tongue", eles usem a palavra "multilingual". É mais um daqueles exemplos tipo lunar vs moon (dafuq?).

Enfim enfim... já to "leaking" demais. O meu '\0' era ali no "R$".

13 de out de 2012

Pobre Português 2

Na minha última postagem eu reclamei sobre como o português parecia cada vez mais afundar. Não posso dizer que isso seja a verdade absoluta: essa é somente a minha percepção da coisa; é inegável, porém, que muitas das nossas "estruturas" estejam a se perder.

Essa postagem deve enumerar algumas das perdas que andei notando algum tempo atrás. Enquanto em geral quando escrevo tendo a tentar manter um padrão "um pouco mais alto" quanto à "norma culta" da língua, é verdade que umas delas [as perdas], como o leitor perceberá, eu até mesmo incorporo na minha escrita.

A primeira perda a comentar é a omissão da preposição em casos em que ela vem acompanhada do "que". Na fala, tudo bem: gaúchos não usam plural, paulistas não usam subjuntivo, pernambucanos não usam artigos (esse último não tá errado, mas convenhamos...); tudo ok! Mas é bem frequente encontrar frases escritas (na internet, especialmente) onde locuções como "sobre que", "de que", "com que", são substituídas pelo pobre "que". Em vez de dizerem "Essa é a pessoa com que eu mais simpatizo", por exemplo, dizem "Essa é a pessoa que eu mais simpatizo", removendo friamente a preposição. Problema é que o erro acaba saindo do ambiente informal e atingindo os textos "importantes" aqueles que os falam, os quais na grande maioria dos casos nenhuma ciência dele têm, ora têm de realizar.

Esse mau uso das preposições é um vício não necessariamente vinculado ao "que". Em geral, as pessoas não sabem usá-las direito. Boa parte da língua, inclusive, está em constante mudança por causa dessas anomalias. Um tempo atrás, lembro de ter visto uma propaganda do canal Futura em que as pessoas na rua eram abordadas com uma frase como

Eu preciso de sair cedo hoje.

e a pergunta "Essa frase está correta?". Parece ridículo, mas houve muita gente respondendo que estava correta, porque, sim, às vezes, o verbo "precisar" é transitivo indireto ("eu preciso de comida", por exemplo). Já achei inclusive mais de uma vez em artigo científico (não que leia muitos, mas, enfim) o uso do verbo "visar" com o sentido de objetivar sem a preposição que o deveria acompanhar: o "a". Ou seja, em vez de "visando a resolver esses problemas", por exemplo, o autor escreveu "visando resolver esses problemas". Talvez nesse caso esteja na hora de simplesmente mudar a língua e remover o "a".

Isso me leva ao segundo empobrecimento sobre que [viu? creio que a maioria dos leitores não teria colocado um "sobre" ali antes do "que" e acharia estar perfeitamente correto] eu gostaria de comentar: a crase [puta que pariu! Sério... ninguém sabe usar essa merda direito!].

Com o perdão das expressões que terminaram o meu último parágrafo, continuo com a afirmação de que ou a crase através do tempo vai passar a ser "correta" em casos extremamente não lógicos, ou ela vai cair (simplesmente pelo fato de que as pessoas não sabem usá-la). O motivo: novamente, as pessoas não entendem NADA [dupla negação?] sobre regência verbal! Chega a dar um dó perceber escritos como "Tópicos relacionados à "Zé Pedro"" [acabei de achar esse no google agora há pouco].

Ainda nas preposições, uma última perda: o caso comitativo! Sério... não é engraçado que com o tempo somente o "comigo" e o "contigo" tenham se mantido. Quem ainda fala "conosco" [virou "com a gente"] ou, pior, "convosco" [virou "com vocês"]? E o "consigo"? Se no Brasil esse último se manteve só em casos em que se denota reflexividade da terceira pessoa, em Portugal ele parece em constante uso em regiões em que se usa "você". Assim, chega a ser engraçado ver o comentarista dizendo "Qual é que é para si [...]" (com o sentido de "Qual é que é para você") no seguinte vídeo: (ok ok... "para si" não é "consigo", mas é óbvio que o "si" permanece como caso oblíquo no português português)



Saindo das preposições, pulo agora para os verbos. Alguns parágrafos atrás eu disse que tudo bem falar errado; a verdade é que eu realmente fico agoniado quando ouço paulistas não usando o subjuntivo. Lembro de uma vez ter assistido ao Casos de Família (naquele tempo em que [ó denovo! Usaria o leitor o "em" ali antes do que?] tinha a Regina Volpato) e ter visto uma mulher (paulista) falando "ela quer que eu deixo ele ir todo dia na casa dela" (algo assim). Sério... que tenso!

Mas dos paulistas eu não posso falar muito: nós gaúchos basicamente eliminamos o futuro do presente. Em vez de dizer "irei" ou "farei", nos deixamos influenciar pelos falantes do castelhano das proximidades das nossas fronteiras e usamos o verbo "ir" como auxiliar de futuro. Enquanto eles dizem "me voy a caer", dizemos "vou cair", e tudo fica igual. Ok ok... não enxergo o nosso caso como uma perda, já que aceitamos perfeitamente o futuro do presente como possível variação (e não estamos cometendo nenhum pecado na língua -- com discutíveis exceções: alguns leitores dirão que "eu vou ir" seria errado), mas a verdade é que essa variação cada vez mais se distancia do usual.


Seguindo com os regionalismos, uma terceira perda, na minha opinião, é o uso do você. Ela é parte de o que eu gosto de chamar de "terceira-pessoalização" dos nossos verbos. Outra parte desse "fenômeno" é o uso do "a gente". Através deles, as nossas conjugações ficam (usando o verbo cantar como exemplo):

Eu canto
Você canta
Ele canta
A gente canta
Vocês cantam
Eles cantam

E através disso tudo fica conjugado na terceira pessoa (fora o "eu", que de tanto que é usado pelos falantes nativos através dos tempos acho que seria bem difícil de se estragar). Sério... isso não seria um problema (afinal, é só mais uma forma de dizer a mesma coisa) se não fossem dois fatos: (1) as pessoas têm desaprendido como se conjuga das outras formas; e (2) aos falantes não nativos acaba sendo ensinada somente a forma mais fácil.

Eu creio já ter escrito (embora não tenha conseguido encontrar) sobre quando eu fui tentar ensinar a meu professor como conjugar um verbo na primeira pessoa do singular e os outros brasileiros que comigo estavam me cortaram dizendo que ele deveria usar "a gente" no lugar de "nós" e conjugar tudo na terceira pessoa. Sério... desleixo básico da língua D=

Pra terminar com os verbos, a última perda é a mais óbvia: o completo esquecimento do Pretérito Mais-Que-Perfeito. Esse, certamente, não tem mais volta. Está fadado ao desuso. Não há o que fazer: não existe medida forte o suficiente pra trazê-lo de volta. Infelizmente, já que ele era BEM mais eficiente que a versão atual dele: a construção "tinha/havia + particípio".

Mais uma coisa que o falante nativo da nossa língua não sabe usar são aquelas tais de "próclise", "mesóclise" e "ênclise". Pra nós brasileiros, no fim das contas, tudo virou próclise (dá pra usar em tudo que é lugar mesmo -- diferente das outras duas), e essa é uma daquelas perdas que eu simplesmente não consigo não incorporar a esse blog.

Falando em "perdas que eu incorporei a esse blog", outra perda é a não-diferenciação dos pronomes demonstrativos "esse" e "este". Enquanto eu sei qual deveria ser a regra (ou ao menos eu creio saber), eu simplesmente não consegui ainda acostumar a lembrar de me policiar sobre o assunto. Assim, bem como pra todo brasileiro, pra mim é tudo a mesma coisa.

E isso finaliza a minha lista (que de forma alguma tenta ser exaustiva) de empobrecimentos do nosso português. Infelizmente, provavelmente haja bem mais v_v

R$

2 de set de 2012

Pobre Português

Desde o fim de Julho, quando fui a Bruxelas, tenho ficado enculcado com uma coisa sobre a nossa língua: o quão difícil ela é.

Parece engraçado falar isso. É óbvio que o leitor sabe o quão cheia de diferentes tempos verbais, conjugações, regras de acentuação e regência específicas ela é. É claro que o leitor já se viu com dificuldades pra aprender a conjugar os verbos na segunda pessoa do plural e é claro que já teve dúvidas sobre qual palavra deveria usar em algum ponto de uma de suas frases. A nossa língua é complexa, difícil, complicada! Ela faz o falante pensar!
Falei de Iracema e lembrei dessa capa.
Ô livrinho bem ruim esse aqui
Dava vontade de chorar de tão
desconfortável de ler T__T



O usuário comum frequentemente acaba cometendo erros quanto à "norma padrão da língua" mesmo em momentos em que gostaria de escrever corretamente. Crase, próclise, mesóclise... são tantas as "fontes" de erros que, se eu inicialmente planejava enumerá-las, acabei por desistir.

Agora posso chegar ao ponto que realmente me deixa pensante: como a nossa língua (e, na verdade, não somente a nossa, mas muitas outras) conseguiu, através dos tempos, adquirir tantas regras e especificidades, se em geral o que acontece naturalmente é justamente o oposto, a saber, a simplificação da língua? Como foi que em tempos onde a educação era privilégio de poucos a língua conseguiu evoluir "para melhor", se nos nossos tempos, nos quais a educação está ao alcance de muitos, a moda é simplificar? Como, minha gente?

Num primeiro momento, pensei que talvez fosse justamente a falta de educação que contribuísse para a "melhora" da língua: como somente uma elite intelectual era responsável pela definição do certo e do errado, os outros 99% da população que se danassem. Mas o problema é: esses outros 99% também utilizavam a mesma língua para se comunicar! Como seria possível que uma pequena elite definisse o modo como TODOS se comunicariam??

Ao longo do tempo, pensei e matutei, e acho que agora talvez tenha uma resposta. Se é a verdade, não o digo: precisaria encontrar alguém que sobre isso estudara; mas que se assemelha à veracidade, creio que o leitor concordará que sim.

Se agora a coisa não mais é assim, até pouquíssimo tempo atrás a produção literária (e, basicamente, consequentemente, "cultural", do ponto de vista da nossa língua) era monopolizada pela elite intelectual de então. Os escritores eram os responsáveis por utilizar palavras complexas que coubessem em contextos extremamente específicos e que carregassem significados sobremaneira restritos. Eles construíam uma "nata" sobre a língua, a qual era endossada por gramáticos, críticos, e o diabo. Enquanto estudando literatura na escola, lembro de ouvir que o João Guimarães Rosa era um desses caras, conhecido por criar palavras à bangu (aqui, com crase, supondo que seja "à moda bangu")!

Uma das principais responsáveis por essa maldita
simplificação a que me refiro ¬¬
Eu já escrevi em outra postagem sobre o Machado de Assis o quanto me facinava ler, em seu Memórias Póstumas de Brás Cubas, palavras que ainda provavelmente nem traduzidas para o Português fossem, como "minuete" ou "japões". Também o José de Alencar foi acusado de "galicismo" (i.e., utilizar palavras do francês) pela crítica contemporânea ao usar a palavra "flanco" no seu Iracema -- eu lembro que a versão de Iracema que eu tinha vinha com uma "resposta de José de Alencar à crítica" no fim do livro.

Por baixo dessa camada superior, de onde estruturas sintáticas complexas emanavam, viria uma camada inferior, não-educada, de gente como a gente, que falava o português do jeito que aprendeu, de qualquer jeito. Eles seriam os responsáveis por "desregular" os verbos mais usados no dia-a-dia, como o verbo ser (que em qualquer língua que eu já tenho visto, é SEMPRE irregular), o verbo ter, o haver e tantos outros que por aí se vão. Aqui, o objetivo seria sempre simplificar, já que essa gente não tem interesse em usar a língua como arte, mas como protocolo de comunicação. Quanto mais fácil, melhor!

Como a educação não é uma função degrau, em que só existem os "educados" e os "não-educados", existiriam vários pontos de encontro no meio dessa bagunça, os quais trariam novas palavras para o miolo (estou tentando fazer um oposto à "nata" aqui) e, por outro lado, empurrariam novas regras simplificadoras para a nata. Através dos tempos, infelizmente, afundamo-nos em um problema: se por um lado a educação se tornou alcançável por uma parcela maior da população, a elite intelectual se esvaziou de seu senso de novidade e passou a simplificar a língua em vários aspectos. A "elite produtora de cultura" (se antes houvera -- ou, ao menos, eu citara -- somente os escritores, agora há rádio, TV, internet, e muito mais!), em vez de manter o seu nível superior, ignorando o miolo, permanecendo sempre à frente, criando novas estruturas, novas regras, e novas idéias à língua, arqueou-se fronte a ele, simplificando-se, profanando-se.

Nessa mistureba, nessa "média" entre a nata e a chinelagem, a elite passou a aceitar que talvez algumas funcionalidades fossem simplesmente desnecessárias. Passou a atorar, a aleijar, a desmantelar a língua. Na sua loucura, esqueceu-se das diferenças na formalidade entre o "você" e o "tu"; removeu o Pretérito Mais-que-Perfeito; eliminou a trema e o acento diferencial. A língua empobreceu. A "elite", que define o certo e o errado, politizou-se -- até o Ronaldinho, que não lê, dela ganhou prêmio.

(tem uma coisa que a minha suposta resposta não consegue comtemplar: a produção vinda do miolo! O miolo é responsável por uma quantidade IMENSA de expressões idiomáticas, como "com o pé atrás", "nas coxas", "João-sem-braço", "com o pé na cozinha", "já é ou já era", etc. Se a nata se esqueceu de cumprir com o seu papel, ao menos tenho de dizer que o miolo não tá indo tão mal)

Algumas dúvidas me consomem: empobrecemos, empobrecemos e empobrecemos. Será que chegaremos a um fundo-do-poço de onde, a partir de certo momento, voltaremos a enriquecer continuamente a nossa língua? Será que um dia resgataremos as perdas a que estamos nos submetendo?


(após escrever essa postagem, achei que talvez fosse legal mostrar algumas das perdas às quais me refiro. Então... enfim... num futuro relativamente próximo, acho que o leitor as verá)

R$

1 de set de 2012

KL#7 -- Mestres

Disclaimer (cumé que se traduz isso?)

Antes de começar essa postagem, é necessário que ao leitor sejam esclarecidos dois importantes pontos:
  1. Essa postagem foi idealizada em um daqueles momentos em que qualquer coisa parece fazer todo sentido, a saber, no caso, em um momento de insônia. Uma vez, li na Super Interessante (ótima fonte de informação, em? lol) que quanto mais com sono estamos mais nos falta uma certa substância responsável pelo nosso senso de realidade, o que, por vezes, nos ajuda a pensar que algo completamente aleatório poderia naturalmente fazer todo o sentido. Se o é verdade, não sei dizer; mas que me parece aceitavelmente condizente com a realidade... ah, sim parece!
  2. O leitor assíduo deve já saber que nesse blog, em geral, evito mencionar nomes. Assim, apesar de essa postagem ser relativamente "direcionada" a algumas pessoas (não que eu realmente pretenda que ela seja lida pelas tais, mas, bem, o leitor entenderá), ela não dirá quem elas sejam. Com o intuito de identificá-las, me bastará fornecer algumas informações não críticas sobre ambas.

Postagem em si

Essa semana, ou, mais precisamente, na madrugada do dia 26, foi embora aquele que fazia as vezes de "meu orientador" aqui na universidade: um pós doutorando, responsável por controlar o número de horas durante as quais eu ficaria no lab, verificar o quão bom tem sido o meu progresso e definir quais seriam as tarefas (ou, na verdade, quem é que me daria tarefas) no próximo "intervalo" de tempo (o qual, em geral, durava uma semana).
Mestre Splinter

Porque eles tiveram uma má experiência no ano anterior (ou ao menos foi o que eu ouvi) com o brasileiro que aqui estava, ele no início demonstrou uma certa cobrança maior do que me era esperado. Com o tempo fui perceber que não era ele quem cobrava (minha impressão era de que ele tava meio que "cagando e andando", na real), mas o professor (que coordena o lab), que ainda comigo tinha um pé atrás.

Como essa foi a minha primeira real "experiência profissional" até então, e estando eu num lugar onde (ao menos eu esperava que) as relações sociais não deveriam se "confundir" com as relações profissionais (apesar de eu usar o MSN para me comunicar com o pessoal do lab), procurei sempre manter uma relativa e suficiente distância. Um exemplo: apesar de usar português para me comunicar (o que em geral leva a um ambiente um pouco mais descontraído), tendia a evitar palavrões.

Quase o mesmo ocorria com um doutorando do lab, também brasileiro. Como passei boa parte do meu tempo até agora fazendo um programa onde o responsável era ele, passei esse tempo me comunicando com ele, tentando sempre manter aquela distância típica da minha parte quando o assunto sobre o qual eu falo é sério. Por outro lado, como não tinha, na verdade, de responder diretamente a ele por tudo o que eu andasse fazendo no lab, com ele não me importava tanto em "profanar o ambiente de trabalho" com conversa fiada, se por qualquer motivo ela surgisse.
Mestre Yoda

Quando peguei catapora, em Junho, ambos se dispuseram a me ajudar em qualquer coisa que fosse necessária. Como bons brasileiros e conhecendo a possível desestabilidade psicológica que o estar longe de casa pode trazer (não que eles [ou eu] tenham[os] passado por isso, mas, lol, tem gente que até se mata), pediram que eu com eles entrasse em contato se tivesse qualquer problema. O leitor que já me conhece sabe que não gosto de pedir as coisas a outrem -- especialmente quando não tenho muita "afinidade" -- e que, portanto, uma probabilidade bem pequena de que eu realmente fizesse o que a mim pedido fora havia.

Com a saída do agora pós-doutor, ou, na verdade, com o aviso de que a sua saída se aproximava, alguns pensamentos vieram à minha mente. Mas... antes... mais detalhes:

Dos meus amigos com quem eu para cá pra Alemanha vim, alguns festeiros acabaram se dando muito bem com o meu "orientador" (usarei essa palavra sem aspas daqui pra frente pra denotar o pós-doutorando, já que, na real, era isso que ele era, no fim das contas): saíam e bebiam de vez em quando. Pra mim era legal: apesar de eu não me comunicar consigo (não bebo, não faço nenhuma loucura aleatória e nem gosto de festas -- não tinha muito sobre o que conversar), através dos meus colegas tinha como finalmente ter um feedback sobre o quão bem ía o meu trabalho aos olhos dos meus "superiores" no laboratório (já que a mim pouco ou nenhum retorno é dado, normalmente).

Senhor Miyagi

No fim de Julho, fomos eu, o professor do laboratório (o qual surpreendetemente fala bem mais português do que eu esperava), e os dois brasileiros a uma churrascaria que havia aberto aqui na cidade (churrascaria fodasticalhona! Saciei completamente a minha saudade de um bom churrasco!). Ao término da janta, percebi pela primeira vez que talvez essas pessoas -- com quem eu convivo tanto e a quem eu respondo frequentemente no laboratório -- também participavam da minha vida social! Não que eu não o soubesse já, mas foi algo que me fez pensar: diferentemente das situações de sempre, não havia resposta certa ou comportamento esperado. Eu não estava no ambiente de trabalho!

Bom... essa semana, como eu disse, foi embora o meu orientador. Virou professor, ou seja, exatamente aquilo que almejo, num futuro distante, alcançar. Tenho orgulho de ter passado por "seu caminho". Mesmo assim, não aprendi um décimo do que talvez através dele poderia ter aprendido. Respondi às suas orientações, atribuições de tarefas, e só. Não "fiz parte de sua vida", i.e., não participei de sua vida social a ponto de talvez ser lembrado num futuro distante. E a recíproca não é verdadeira.

Essa postagem, assim, tem o objetivo de expressar, de alguma forma, o quão importantes são esses dois brasileiros com os quais convivo (e convivi) tanto e através dos quais aprendo (e aprendi) muito. Ao longo da postagem, o leitor passou por imagens de seres que, nos seus universos, foram considerados mestres pelos "personagens principais" de suas "realidades". Meus superiores foram (e têm sido), assim, meus mestres através desse ano inteiro nessa terra distante. Agradeço-os...

R$

19 de ago de 2012

De volta à ativa

O leitor assíduo deve estar se perguntando: o que houve com o dono desse blog, que sumiu durante 3 meses? O leitor não assíduo, por outro lado, mal percebeu o desleixo a que esse blog foi submetido por esse longo tempo.

Verdade é que eu, o escritor, o dono do blog, o postador, lembrava, de quando em quando, desse lugar, onde meus pensamentos mais bem desenvolvidos (e também aqueles nem tanto) são postos em palavras; mas na falta de tempo ou de força-de-vontade de vir aqui escrever, acabava deixando o lugar parado, por mais algum tempo.

Até hoje!

A partir de quando voltei de Roma, passei a ter muito mais tempo! MUITO mais tempo! Tempo pra colocar os meus projetos em prática! E, como esse blog é um deles, cá estou, escrevendo nele, de volta.

Então... é isso aí! Nos próximos tempos, escreverei várias coisas aqui sobre o que tenho feito. Eu não tinha nenhum assunto em especial por agora em mente, mas só queria deixar o leitor (se é que ainda há leitores v_V) esperto para novidades que aqui virão.

R$

27 de mai de 2012

Em Kaiserslautern #6 -- Deportado pela Rainha

Já faz um tempinho que eu não escrevo nada aqui, e inclusive já fazem duas semanas desde o ocorrido, mas como acho que boa parte dos meus amigos ainda não sabem -- e como creio na possibilidade de o leitor ser um desses ainda não informados -- eu fui deportado do Reino Unido, numa tentativa de ir fazer turismo em Londres.

Adorei essa foto, com os velinhos conversando ali no canto inferior direito, por exemplo (Bremen).

Tudo estava planejado: na quarta-feira, eu compraria meu celular -- para assim ter como me comunicar com a minha mãe, que fica toda cheia de dedos quando eu passo somente um dia sem dar qualquer notícia --, na quinta-feira cedinho sairíamos de casa (às 4h30 da manhã) para ir até Karlsruhe, onde pegaríamos o vôo para o Reino Unido. Como eu já estava há mais de 3 meses na Alemanha, achei que eu deveria levar um papel comprovando que, apesar de eu não ter o meu visto ainda, já tenho ao menos marcada a minha entrevista para o visto.

Diferentemente de mim, porém, meus outros três colegas não o fizeram (não pegaram o papel), o que não foi de todo uma atitude irresponsável: eles haviam conversado com uma pessoa da Universidade que lhes havia dito que isso não deveria ser necessário.

Chegando ao aeroporto em Karlsruhe (na verdade, o aeroporto fica lãããã no fim do mundo, como de Porto Alegre até a Barra do Ribeiro, e a gente foi de ônibus, o que deu mais ainda a impressão de que definitivamente não encontraríamos um aeroporto por lá), passamos pela pesagem das malas, pelos detectores de metal e, ao passar pela checagem do passaporte, tivemos nosso primeiro problema: o senhor que nos atendeu, como ficou desconfiado (só eu tinha o papel do visto), ligou para o lugar onde ocorrem as "entrevistas para o visto" (a gente sempre chama isso pelo nome em inglês, "visa appointment", o qual, a partir de agora, passará a ser o nome que usarei) e, tendo conversado com a pessoa do outro lado da linha, a qual confirmou as entrevistas, nos permitiu que passássemos.

Moinho de Bremen. Certamente, o ponto mais bonito da cidade.

Antes ele tivesse nos barrado ali: pegamos o vôo e finalmente chegamos ao Reino Unido. Londres (ou onde quer que estivéssemos -- esses aeroportos da Ryanair sempre ficam super distantes da cidade) estava, como sempre, nublada, relativamente fria. Entramos no aeroporto, passamos por uns corredores, chegamos a um lugar onde havia um pequeno formulário para preenchermos. Preenchemos e, ao chegarmos no lugar onde checariam o nosso passaporte, novamente, ficaram desconfiados, pois, como já dito, já estávamos há mais de 3 meses na Alemanha.

Eu -- que deveria ter sido o primeiro a ir mostrar o passaporte, já que tinha o papel do visa appointment (mas o pessoal rushou na frente ¬¬) -- acabei sendo o último a chegar no lugar de mostrar o passaporte. Quando cheguei, a mulher já estava dando uma bronca em um colega. Depois de alguns minutos, todos recebemos uns papéis do tipo "eu estou detendo você e retendo os seus documentos com o motivo 'quero ainda fazer algumas perguntas e esclarecer alguns fatos'".

Naquele momento, estávamos tranquilos, crentes de que seria só uma perda de tempo. Ainda estávamos inclusive fazendo planos para o que faríamos nas horas que nos sobrassem daquele dia. Após mais ou menos uma hora (ou até mais), 4 pessoas vieram e nos pediram que os acompanhássemos. Fomos até uma sala onde revistaram nossa mochila. Os "revistadores de mochila" pareceram bastante legais. Contaram nosso dinheiro, pediram que assinássemos uma declaração de que eles pegaram o nosso dinheiro mas que já o tinham devolvido, conversaram tranquilamente sobre vários assuntos. Eu inclusive perguntei o que haveria de acontecer nos momentos subsequentes, no que o meu "revistador de mochila" disse que só teríamos que esperar por mais algum tempo. Me pareceu ainda certo de que estaríamos livres em só mais alguns instantes.

Depois de revistadas as mochilas, fomos levados, cada um a uma pequena sala com uma mesa e duas cadeiras. Eu esperei lá por alguns momentos, lendo um livro em várias línguas que dizia os meus direitos naquele lugar e, após alguns momentos, um senhor entrou e me revistou. Ele parecia amedrontado... como se eu fosse um criminoso ou qualquer coisa parecida. Mas... ok, revistado, me levou até uma outra sala (um pouco maior) onde finalmente os direitos sobre os quais eu li ficaram claros: eu poderia comer, escovar os dentes, assistir TV e inclusive dormir lá, se o quisesse. Lá encontrei um colega -- dos que também haviam sido detidos -- e mais uma brasileira, que morava na Espanha e que havia sido barrada pela alfândega também. Logo chegaram os outros dois brasileiros... e aos poucos um a um foi sendo chamado a ter uma conversa com o cara que decidiria se ficaríamos ou não no Reino Unido. Eu não tenho mais certeza, mas acho que fui o primeiro; no fim da minha conversa, o cara falou que achava que nos mandaria de volta à Alemanha, de onde havíamos saído.

"Norddeutsches Landesbank" (Hannover), como diz a Wikipedia.


Ainda não era certo: o cara havia dito um "I think". Mas aos poucos, conforme os outros foram sendo chamados, foi ficando cada vez mais claro que deveríamos ser enviados de volta. Passamos, admitimos depois, pelos cinco estágios pelos quais alguém passa ao lidar com a perda: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Durante o estágio de raiva, fizemos o que o brasileiro de melhor sabe fazer: "se vamos ser mandados embora, então temos mais é que aproveitar ao máximo esse lugar, porque tudo aqui é de grátis". Comemos tri bem lá: sanduíche, café, arroz (eu não comi, mas disseram que estava ruim) e até lasanha. Essa última, não estava das melhores, mas também não posso reclamar: burro dado não se olha as orelhas. Assistimos Jurassic Park, eu li uma bíblia que tinha lá, comi várias balas, e inclusive conversei com o pessoal que lá trabalhava. Como a guria não entendia inglês, toda vez que ela precisava de alguma coisa a gente agia como "intérprete" dela. Os fiscais agradeceram várias vezes quando, ao tentar falar algo pra ela, a gente traduzia.

Após algumas horas, disseram-nos que dois seriam mandados para Dusseldorf e outros dois para Bremen. Eu iria pra Bremen. Ao sair, os fiscais nos cumprimentaram, riram, deram tchau, e já estavam bem de bem com a vida com a gente. Como o vôo de Bremen sairia meia hora antes do de Dusseldorf, tive de sair antes. Fomos levados por um dos trabalhadores lá até a fila do avião; mas como estávamos sendo deportados, teríamos de ser os primeiros a entrar no vôo. O fiscal conversou sobre várias coisas, comentou que já tinha ido ao Brasil (a Foz do Iguaçu e ao Rio de Janeiro) e comentou sobre as favelas do Rio (ele usava a palavra "favela" e ele não conseguia achar uma palavra que tivesse o mesmo significado em inglês -- alguns dias depois assisti a algum video no youtube em que usaram uma outra palavra, em inglês mesmo, da qual não consigo agora me lembrar). Ele inclusive elogiou o nosso inglês \o/

Finalmente, ele entregou o passaporte para o pessoal do vôo e saiu -- e nós fomos sentar em algum lugar dentro da aeronave. Eu estava naquele momento com MUITA dor de cabeça (só lembro disso), e eu lembro que o colega com quem eu estava ficava repetindo frequentemente que tava muito cagado e que queria o seu passaporte. Durante o vôo, várias vezes cri que em algum momento nos devolveriam o passaporte. Como não aconteceu, ao chegarmos em Bremen, fomos pedi-lo. Nos entregaram (tranquilo) e entramos na fila para mostrá-lo ao pessoal da Alemanha.

Ali o pavor apertou: se não conseguíssemos entrar na Alemanha e fôssemos deportados de volta para o Reino Unido, seríamos então deportado do Reino Unido para o Brasil, i.e., ía dar merda. Dessa vez, fizemos a coisa do jeito certo: eu cheguei primeiro e mostrei meu passaporte && e meu papel que comprovava que eu já tenho o visa appointment. O cara não entendeu de cara o que significava aquele papel, no que pediu pra irmos num outro lado lá da cabinezinha onde ele estava e explicar a situação. Foi muito simples: explicamos o que houve -- ele viu que fôramos deportados do Reino Unido -- e ele simplesmente explicou que não poderia fazer nada em nosso favor para mandar-nos de volta para lá, e que infelizmente teríamos de voltar para a nossa cidade por nossa conta; mas em momento algum cogitou que não teríamos o direito de entrar na Alemanha.

Infelizmente, os nossos amigos em Dusseldorf não tiveram a mesma sorte: perderam um bom tempo explicando e inclusive ligaram para o cara da Universidade, o qual mandou alguns papéis comprovando que eles eram estudantes sim da Universidade de Kaiserslautern. Depois de algum tempo, foram finalmente liberados. Foram até Köln (que era mais perto do aeroporto do que Dusseldorf) e lá dormiram na Bahnhof (a estação de trem).

Na frente da Bahnhof de Frankfurt.
Infelizmente, em Frankfurt ficamos só uns 30min...
por isso, não tenho fotos muito boas D=
Enquanto isso, eu e o meu colega ligamos para um hostel que achamos na internet (foi muito bom eu ter comprado aquele celular no dia anterior). Perguntamos se haveria lugar, no que a guria explicou os lugares/preços do hostel. Dissemos que iríamos para lá, e, como a guria tinha que sair duma vez (ela disse que teria de acordar cedo no dia seguinte), pegamos um táxi até o local.

No fim das contas, apesar de não ter sido talvez tão divertido quanto teria sido em Londres, a viagem não me foi tão mal assim: conhecemos Bremen (que é uma cidade bem bonitinha) e, no caminho de volta pra casa, passamos por Hannover (outra cidade bem legal). Como já era sábado quando voltaríamos para a casa (ficamos duas noites em Bremen: quinta e sexta), pudemos pegar um ticket chamado "Schönes Wochenende" (Belo Fim-de-semana -- numa tradução livre), através do qual é possível andar pela Alemanha inteira pelo preço único de 40€ (e o ticket ainda pode ser dividido em até 5 pessoas... o que, no melhor caso, significa 8€ para viajar pela Alemanha inteira no fim de semana).


Através desse ticket, voltamos para Kaiserslautern, numa viagem que durou mais ou menos 10h. Não posso reclamar: foi divertido conhecer os lugares pelos quais a gente passou -- e dos quais eu tirei até que bastantes fotos legais.

18 de abr de 2012

Em Kaiserslautern #5 -- Nazi-chuveiro...

De todas as coisas daqui de Kaiserslautern das quais eu não gosto, somente uma até agora conseguiu me tirar do sério.

Eu posso me incomodar com a freqüência com que se come batata-frita nos almoços, e pode não me agradar o fato de os supermercados não aceitarem cartão de crédito (e nem de débito), normalmente. Eu posso não gostar do fato de que a minha cortina mal me protege contra a tremenda iluminação diária no início da manhã, e também posso ficar até meio aturdido com a idéia de que todos os moradores da Alemanha que tenham algum acesso à "mídia" tenham de pagar imposto por isso (a menos que digam que não têm nada em sua casa -- já que os trabalhadores da empresa que dá conta disso não podem entrar nas suas casas para verificarem qualquer coisa). Os dias podem ser muito longos no verão (o que eu acho ruim) e os alemães em geral podem ser bem inflexíveis com horários; mas UMA coisa tem me deixado TOTALMENTE fora do sério e não tem relação com qualquer uma das coisas acima citadas: o meu chuveiro.

Eu moro no quarto andar do meu prédio e é aceitavelmente esperado que a força da água não seja das melhores. Paradoxalmente, ela é! Mas só às vezes! E é aqui que mora o problema: freqüentemente, a água simplesmente vai perdendo força, perdendo força, perdendo força, até o ponto em que não haja mais água suficiente para que um certo pininho do chuveiro se mantenha ativado e então a água pare. Sério... desmotivante! Se eu não posso reclamar do frio -- o meu banheiro é sempre quentinho, graças à maravilhosa calefação --, eu não tenho como não reclamar do chuveiro. Logo, ela volta (eu fico segurando o pininho pra ele não cair e a água continuar saindo enquanto ela tá fraca), depois de uns 40segundos, e o banho volta ao normal... não fosse por um outro problema:

A água também esfria! Às vezes, do nada, ela está normal, na temperatura perfeita, e, quando vejo, de repente, ela está fria! Completamente fria! Por causa disso, minha reação imediata (contra a qual aprendi a lutar) é movimentar o registro um pouco para a esquerda (o registro da água é uma alavanca: para a esquerda fazemos a água esquentar e para a direita fazemos a água esfriar) e esperar até que a água passe a esquentar. Aprendi a lutar contra essa reação porque, alguns segundos depois, quando a água quer "voltar à sua temperatura normal", ela está muito quente, porque o maldito registro foi movimentado para a esquerda. Se isso ocorresse com freqüência aceitável, uma vez a cada 5minutos, por exemplo, seria o menor dos meus problemas. Mas isso ocorre o tempo todo! O TEMPO TODO!

Minha teoria: eu tenho, por algum motivo (alguém tem que ter, afinal), literalmente, a menor prioridade sobre a água quente em todo o meu prédio. E também tenho uma das menores prioridades sobre a água. Quando os meus vizinhos começam a usar sua água quente pra o que quer que queiram fazer com sua água quente, eu fico sem a minha água quente. Por que eu tenho a menor prioridade? Sei lá! Acaso! Por que eu acho que isso não ocorre com todos: porque eu já perguntei aos outros brasileiros que moram também no último andar, e nenhum deles relatou problema parecido. Aliás, por muito acaso, os chuveiros deles não são estranhos, com alavanca, o que me leva a crer na possibilidade de o cara que estava aqui antes -- que quebrou a porta (motivo pelo qual eu tenho a única porta diferente, que abre por fora, do prédio inteiro) -- também talvez tenha sutilmente quebrado o registro do chuveiro durante a sua estadia (talvez pelos mesmos motivos que me levam a escrever nesse blog no momento).

Mesmo assim, é verdade que eu passo bem menos trabalho do que se estivesse no inverno brasileiro: apesar de chuveiro chato (o que eu tinha no Brasil sempre foi ótimo), não se sente nunca frio nenhum [e essa frase é para aqueles que adoram as duplas negações do Português], mesmo quando a temperatura lá fora está abaixo do 0.

Uma última reclamação: putz... que ralo bem fiadapu! O ralo é pequenininho, e facilmente entopível. Mais uma coisa com que me enervar T___T

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14 de abr de 2012

Nas noites de Abril...

Desde que aprendi, há alguns dias, a palavra "Heimweh", no alemão, que significa algo como "saudade de casa" (ou falta de casa), andei matutando uma coisa: por que raio de motivo é a palavra saudade tão difícil de ser traduzida (na opinião de uns certos pesquisadores britânicos).

Saudade (1899), por Almeida Júnior.
(fonte: Wikipedia)

Fui à wikipedia, e achei uma definição horrorosa da palavra, tanto em português, quanto em inglês. Explicação contradizente ou não conclusiva era o que mais havia por lá -- inclusive na página de discussão. Fiquei pensando nos possíveis diferentes significados e tentando encontrar casos nos quais a palavra tem sentido totalmente diferente daqueles a que estamos acostumados.

Inicialmente, eu sempre achava que a palavra saudade, como substantivo, poderia facilmente ser traduzida como "o substantivo relacionado ao verbo 'miss', do inglês". A gente diz "to com saudades da minha mãe", e a tradução parece óbvia: "I miss my mother". Apesar disso, eu sempre tive aquela noção de que a palavra saudade tem um sentido mais emocional: quando criança, eu gostava de diferenciar "saudade" de "falta por necessidade".

Passado algum tempo, encontrei a palavra "Yearning". Pelo que entendi, ela é uma "falta" forte e profunda de algo. Mas a questão é que essa palavra parece ser uma falta não necessariamente melancólica por algo que se tinha e que se perdeu, ou que se gostaria de ter (ou ver): uma pessoa pode ter "yearning for justice", por exemplo.

Um sentido, especialmente, também me impressiona na nossa palavra: a saudade de algo futuro. Eu não sei o quão certo é o uso desse sentido, mas ele é bastante freqüente no cristianismo do século passado. Expressões como "Saudade de Sião" ou "Saudades da Jerusalém Celestial" -- coisa que eu não vi, mas que anseio "conquistar", e que de certa forma conheço -- aparecem bastante nos nossos cancioneiros. Aliás, a gente também gosta de dizer que tem saudades de Jesus, e isso não é nenhuma "falta", e dificilmente seria traduzível como "miss" (apesar de eu não fazer idéia de o quanto isso seria traduzível como "yearning").

Finalmente, concluo o inútil, i.e., que não sei. Seria legal perguntar a algum nativo de ambas as línguas o que ele acharia. É engraçado porque, acho eu, por eu pouco dizer que tenho saudades de algo[uém] -- é realmente raro! -- eu tenho a impressão às vezes de eu não sei bem exatamente o sentido dessa palavra.

A única coisa que sei é a seguinte: uma saudade a mim muito agrada, a saber:



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6 de abr de 2012

Uma longa conversa sobre casos gramaticais...

Como eu creio já ter comentado, tenho tido aulas de alemão. As aulas são ministradas por duas professora: a Oksana, uma russa, muitíssimo divertida (e absurdamente didática!) e a Nino, uma Georgiana (que, aliás, também fala russo) que, se não dá as melhores aulas do mundo, é fácil notar que ela sim tem bastante boa vontade para com os alunos.

Esses dias, após o intervalo, estávamos comentando sobre as diferenças entre as línguas das diversas nacionalidades das quais a nossa turma tem representantes: chinês, árabe, persa (tem um libanês que acho que fala árabe; e os dois iranianos pelo que entendi falam persa e entendem um pouco de árabe, já que árabe é a o latim do islam: a língua da religião que todos devem aprender), português, espanhol (temos um colega colombiano), francês, romeno e, é claro, russo (a Oksana é que estava em aula). Perguntou-se se o russo seria uma língua difícil, no que a professora respondeu que certamente é mais difícil que o alemão. Me interessei: não pela dificuldade, mas pelos motivos pelos quais ela seria assim. A professora comentou que haveria mais casos gramaticais além dos 4 populares do alemão, a saber, Nominativo, Acusativo, Dativo e Genitivo. Perguntei quais casos seriam, mas por não ter a tradução correta para o alemão, a professora chutou um tal de Vocativo.

(pera pera... se o leitor não estiver entendendo nada dessas palavras com "ivo" no fim, por favor, tenha paciência, elas serão explicadas)

Ei ei, pera aí! Vocativo existe no português, não é? Sim, respondo ao duvidoso leitor: como resultado, ao término da aula vim à Wikipedia fazer uma pequena pesquisa. Quem diria: o português também tem vários casos gramáticais (e inclusive declinações) das quais a gente nem se dá conta.

Mas o meu interesse ainda eram os casos do russo, no que descobri que eles são seis ao todo: além dos quatro casos da língua alemã, existem os casos Preposicional e Instrumental. Mas e o Vocativo? A wikipedia diz que o russo apresenta alguns casos "adicionais", como o Vocativo e o Locativo (o qual no russo não se diferencia do Preposicional; mas em outras línguas, como no ucraniano, parece que sim).

Após comentar sobre essas descobertas para a professora, me interessei sobre que outras possibilidades poderiam haver no português ou no inglês, e que casos a mais poderia eu encontrar. Descobri MUITA coisa, sobre que talvez o leitor nunca tenha pensado, e que ultimamente me tem feito cagar tijolos diariamente. Essa tal de linguística é muito do foda! Sério!



Por isso, resolvi que faria uma "breve" explicação sobre as descobertas que realizei. A primeira coisa a fazer é explicar o que são os quatro casos que a gente aprende no alemão. É interessante dizer que esses "casos gramaticais", em teoria, não deveriam depender da língua em que são usados (afinal, essa é a idéia da linguística, a saber, ser um estudo sobre as línguas independente da língua em foco). Afinal, os mesmos casos usados no alemão aparecem no latim, e, como já foi mencionado, no russo.

O caso Nominativo é pra mim ao mesmo tempo o mais fácil e um dos mais difícil de explicar. Ele aparece sempre nos sujeitos e nos predicativos do sujeito das frases em alemão, e ficará mais claro assim que eu começar a exemplificar. O Nominativo é o primeiro caso a se aprender, afinal, somente frases com verbos no imperativo (não confunda: imperativo não é um caso gramatical, mas uma possivel "conjugação" dos verbos) permitem que, às vezes, omitamos o sujeito em frases no alemão.

O Acusativo é o segundo a aprendermos na língua alemã. Ele em geral denota, para nós, o objeto direto. Independentemente da língua, o Acusativo deve sempre denotar o "paciente" do verbo, i.e., aquele que sofre a ação.

No português, não fazemos diferença entre o caso Nominativo e o caso Acusativo, e acabamos, portanto, confiando na ordem das palavras (em geral, "Sujeito-Verbo-Objeto" ou "Sujeito-Objeto-Verbo") para extrairmos o sentido real das frases. Frases como as seguintes teriam significado ambíguo, se a ordem fosse desprezada:

O homem mata a cobra.
O homem a cobra mata.

Quem matou quem? No alemão, essas duas frases também podem ter significado ambíguo em casos em que ambos sujeito e objeto são femininos ou neutros. Se algum dos dois é masculino, pode-se verificar o artigo "o" ("der", no nominativo, aka sujeito; e den, no acusativo, aka, objeto direto) para saber quem é o sujeito da história.

Der Mann tötet die Schlange.  <--- o homem é quem mata
Den Mann tötet die Schlange.  <--- a cobra é quem mata

O terceiro caso a ser apresentado é o Dativo, que representa para nós lusófonos o objeto indireto. Em teoria, como o próprio nome diz, ele indica "aquele a quem o 'paciente' da ação é 'dado'". Se no português em geral esse caso é denotado através de uma preposição (queira o leitor verificar os exemplos), no alemão a diferença se dá frequentemente através (novamente) da declinação do pronome (e, também, do artigo) de uma forma diferente:

Eu dou à moça o presente.
Ich gebe der Frau das Geschenk. <---- der agora significa "a", e não mais "o"

Eu dou a ela o presente.
Ich gebe ihr das Geschenk.

(Verde - Nominativo; Vermelho - Dativo; Azul - Acusativo)

(É claro que a ordem comum do português em geral é outra: se no alemão a ordem comum é "Sujeito - Verbo - Dativo - Acusativo", no português utiliza-se normalmente a ordem "Sujeito - Verbo - Acusativo - Dativo".)

Agora vem o primeiro mind blow da postagem: o português também tem uma declinação "Datívica", infelizmente só presente nos pronomes pessoais nas terceiras pessoas do singular e do plural! Se eu substituir, no exemplo anterior, a locução "a ela" pela declinação Dativa do pronome "ele", a frase seria a seguinte:

Eu dou-lhe o presente.

Ou, mais coloquialmente,

Eu lhe dou o presente.

No inglês, o pronome em geral declina, com ou sem preposição (e, aliás, o pronome declina mesmo quando ele estiver no "Acusativo"):

I give her the gift.
I give the gift to her.

Finalmente, o último caso a verificarmos no alemão é o caso Genitivo. Esse é fácil de explicar: em geral, denota posse; mesmo assim, às vezes algumas construções não denotam [totalmente] posse e exigem Genitivo no alemão. No português, apesar de não termos declinações relativas a esse caso, em geral, o "emulamos" através da preposição "de". Vejamos exemplos:

O presente da mulher.
The gift of the woman. / The woman's gift.
Der Geschenk der Frau.

O que acontece no alemão? Em vez de termos uma preposição, como no português ("de"), temos uma declinação do pronome "die" (die Frau, no Nominativo), transformando-o em "der" (der Frau, no Genitivo), e ficamos livres de preposições. Tri né?



Agora que falamos daquilo que é mais importante para o alemão, estamos livres para falar de alguns casos que são bem interessantes e que frequentemente aparecem como casos "especiais" na língua portuguesa. O primeiro deles é o Vocativo. O que é o Vocativo afinal? Pelo que andei vasculhando, o Vocativo é exatamente o Vocativo que temos na nossa língua. [In]Felizmente, assim como no inglês, nós não temos diferença nenhuma entre o nosso caso Vocativo e o nosso caso Nominativo, o que faz com que em geral ele seja descartável e esquecível. A forma de demonstrarmos com quem estamos falando é através de alguma pausa ou maior ênfase na voz.

Talvez resquício de diferença, creio eu (isso é suposição minha), seriam expressões do tipo "Vossa Senhoria", nas quais a palavra "Senhoria" derivaria da palavra "Senhora". No latim, por outro lado, se no Nominativo as palavras terminavam com "us", no Vocativo elas terminavam com "e", e isso tornaria fácil de perceber na fala momentos em que se estivesse falando diretamente com uma pessoa -- aquela que fosse "vocativizada".



Outro caso presente na língua portuguesa -- e também no inglês -- é um tal de caso Oblíquo. Enquanto eu falava de Dativo, o leitor deve ter discordado ao ler que o nosso caso "Dativo" só existe nas terceiras pessoas (afinal, além do "lhe", temos também o "te" e o "me", não é?). Mas pelo que andei Wikipediando, parece que prefere-se dizer que esses pronomes pertencem ao "caso Oblíquo", o qual parece ser uma mistureba entre o caso Acusativo e o caso Dativo.

O que acontece: quando o Acusativo inteiro é substituído por um pronome pessoal, ele declina de um pronome pessoal reto para um pronome pessoal oblíquo átono (te, me, nos, etc).

Ex: O menino chuta a bola.
O menino chuta ela. <---- ERRADO
O menino a chuta. <---- CERTO


Ao substituir o Dativo inteiro por um pronome pessoal, ele declina de um pronome pessoal reto para um pronome pessoal oblíquo tônico (ti, mim, nós, etc).

Ex: O menino entrega o bolo ao homem galante. -- (e eu sou o homem galante)
O menino entrega o bolo a eu. <---- ERRADO
O menino entrega o bolo a mim. <---- CERTO

Frequentemente, ainda, a gente substitui o Dativo por um pronome pessoal oblíquo átono ou o Acusativo por um pronome pessoal oblíquo tônico, e eu não sei se isso é certo ou errado:

O menino chuta a ela.
O menino me entrega o bolo.
O menino mo entrega. (Equivalente a "O menino me o entrega")

Finalmente, existe um caso chamado "Comitativo", que indica que algo é feito com a presença de outrem. Como ele é construído no português: quando o pronome pessoal reto declina para um pronome pessoal oblíquo e a preposição "com" está presente na frase, ela se junta à preposição "com".

Ex: Ele jogou video-game até agora comigo.

(aliás, eu estava me perguntando agora qual dos dois seria o certo:

Eu vou com ele ao mercado.
Eu vou consigo ao mercado.

Digo isso porque eu sempre lembro do video da Anabela de Malhadas com o radialista dizendo "Vai me dar um fanico consigo".)

Obviamente, o significado desse tipo de exemplo pode ser extraído de frases sem a preposição com:

Eu vou junto à minha mãe ao centro da cidade.
Eu vou junto a ela ao centro da cidade.

Também é legal perceber que às vezes o caso Comitativo "degenera" para o caso Instrumental (um caso que indica o que foi utilizado para que algo seja feito):

Foi contigo que eu consegui vencer nesse jogo. (indicando que foi "através" de ti)



Um último comentário sobre a língua: a gente tem uma coisa bem tri que o mano sempre tinha me dito e que agora andou fazendo bem mais sentido. Frequentemente, quando queremos tornar "alguma coisa" em "alguma pessoa", adicionamos o sufixo "em" às palavras, como em "alguém", "outrem" e "quem". Às vezes me pergunto se isso não é algum resquício de algum caso gramatical que não tenhamos mais.

Finalmente, dando uma olhada nos casos que o Latim tem, estou pra dizer que ele tem: Nominativo, Acusativo, Dativo, Genitivo, Locativo, Vocativo e Ablativo.

Não sei o quanto o leitor gostou dessa conversa sobre os casos gramaticais, mas é foda perceber o quanto a nossa língua é cheia de belezas encroadas das quais pouco ou nada conhecemos.

R$

12 de mar de 2012

Em Kaiserslautern #4 -- Numa terra em que se fala alemão

Não digo que fale alemão muito bem, mas estou muito feliz com meu desempenho nessa língua considerada tão difícil.

As pessoas em geral que nenhuma relação com ela têm reclamam que parece que sempre se está através dela xingando. Eu discordo: fora quando ouço os sotaques austríacos (nos CDs que vêm nos livros com os quais estudamos), tenho sempre a impressão de que a língua fala de um jeito extremamente pacífico, comunicando aquilo que os sons de suas palavras realmente desejam.

Quando ouve-se uma palavra como "schlecht" (leia "chlêrrt" -- lol, isso foi o mais próximo que consegui chegar da pronúncia no português),  é de se esperar que algo ruim a ela esteja relacionado. Mas reflita o leitor: teria a palavra "Blume" (flor -- e o nome de uma guria que há muito conheci v_v) um som tão ofensivo?

Durante o curso (que com o dia de hoje completou duas semanas desde o seu início -- e que ainda durará mais cinco), as aulas, como é de se esperar, são dadas somente naquela que é a língua foco de nosso aprendizado. Como o curso é intensivo (aulas das 8h30 às 12h e das 13h30 às 15h -- ou às 16h45, em alguns dias da semana, mas a professora sempre libera antes), comigo tem ocorrido um fenômeno extremamente interessante: após a aula, passo horas e horas "influenciado pela língua", pensando em alemão. Por isso, às vezes sem nem mesmo perceber (e às vezes forçando -- com o objetivo de obviamente melhorar o meu aprendizado) acabo fazendo planos, pensando na vida, lendo, o que for... retraduzindo para o alemão tudo aquilo que eu faço.

Ao viajar para Trier, nesse último fim de semana, ocorreu-me (na verdade, um colega me deu a grande sacada, mas, enfim) a resposta para uma pergunta que eu tinha já há algum tempo: por que motivo às vezes o alemão têm palavras derivadas do latim tão parecidas com o português (algumas que às vezes nem mesmo o inglês tem -- como se isso indicasse qualquer coisa)? A resposta é: o Império Romano estava aqui! A cidade à qual fomos, Trier, foi fundada no ano 17a.C., ou seja, num tempo em que aqui só se falava latim! [Trier, aliás, foi a antecessora de Constantinopla como "A Capital do Império Romano do Ocidente" (ou do Oriente, não sei -- a Alemanha fica bem no meio, como vou saber?)] Isso explica muito o fato de que palavras como o verbo "fotografieren" (fotografar) e "duschen" (tomar uma ducha) existem no português e são muitíssimo diferentes de "take pictures" (ou ao menos eu não consigo pensar em que verbo seria mais próximo disso, no inglês, pra fotografar) e "shower". (tá, ok, se bem que ninguém fotografava naquela época; e também não sei com que frequência se tomava banho nos tempos do Ímpério Romano v_v -- mas tem outras palavras!)

Anyway, é melhor eu parar de escrever por aqui... tem um monte de "Hausaufgaben" que a professora deu hoje pra a gente fazer e corrigir amanhã e eu ainda nem comecei D=

(um último comentário: se o leitor gosta, assim como eu, da idéia de querer falar várias línguas, querer saber mais e mais sobre como se dá a visão de mundo das pessoas através de sua língua -- porque, como disse um cara chamado Ludwig Wittgenstein, "As fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo" --, por favor, não cometa o erro não aprender espanhol. É uma língua fácil pra nós, falantes nativos do português, e, apesar de feinha -- sim, verdade, eu não acho a língua mais bonita do mundo v_v --, aumenta DRASTICAMENTE a quantidade de pessoas com quem no futuro se pode vir a conversar numa língua no mínimo um pouquinho melhor que o inglês)


Buenas...

11 de mar de 2012

MateHackers

Algum tempo atrás, surgiu em Porto Alegre um grupo de pessoas unidas em prol de uma nobre causa: montar um Hackerspace. Um Hackerspace? Pras pessoas ficarem invadindo computadores uns dos outros? NÃO! Não é isso que faz um Hacker ¬¬
Club-Mate num Hackerspace alemão...
Um Hackerspace é......... difícil de explicar de cara. É um lugar onde as pessoas que têm projetos "próprios" se juntam pra por esses projetos em prática, fazer acontecer. A idéia é que, com esse lugar, as pessoas possam trocar idéias umas com as outras, aproveitar coisas já feitas por outros, etc, num ambiente mais cooperativo do que aquele que teríamos em nosso próprio lar. (sinceramente, espero ter conseguido dar uma idéia da coisa)

O grande idealizador do grupo? Um alemão, proveniente, creio eu, de Berlim. Como ele fazia parte de um Hackerspace lá, sugeriu a idéia de criarmos um "aqui" (frequentemente eu escrevo como se ainda estivesse no Brasil v_v), "seguindo os moldes" daqueles Hackerspaces que ele já conhecia. [Eu sinceramente tenho a impressão de já ter escrito sobre o Hackerspace aqui nesse blog]

Do Hackerspace de Berlim e do de Stuttgart (acho), pegamos umas "guidelines" que poderiam nos ajudar a montar o Hackerspace aqui -- eu digo pegamos porque até então eu ainda estava ativo na coisa (mas não durei muito tempo como ativo, e agora eu estou mais pra lurker do que qualquer outra coisa). Nessas guidelines, havia uma sugestão do tipo "arranje um meio de conseguir dinheiro", ou algo assim. O meio do Hackerspace de lá? Vender uma bebida a base de Erva-Mate chamada Club-Mate.

Convido, então, o leitor, a que atente à seguinte reportagem da Zero Hora:

http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/mundo/noticia/2012/03/berlim-descobre-cerveja-artesanal-de-erva-mate-3691091.html

Não é incrível como tudo consegue estar conectado? Melhor ainda: o nome do Hackerspace de Porto Alegre? MateHackers, em uma referência clara (sim, era essa a idéia na hora -- e eu tenho certeza porque MateHackers ganhou da minha sugestão, ChimaHackers, quando estávamos discutindo sobre o nome) à bebida Club-Mate (aliás, eu fui lá no site dos Hackerspaces e o de Porto Alegre não é o único Hackerspace a estar em construção: temos mais um bom número de outros sendo produzidos).

Enfim... era só isso. Só queria comentar sobre como eu caguei tijolos quando meu irmão me mandou isso no Facebook.

(Aliás, procurando no Google por Club-Mate e pelos Hackerspaces, achei um link extremamente cômico: http://hackerspaces.org/wiki/The_Club_Mate_Pattern. Vale a pena conferir)

R$

20 de fev de 2012

Em Kaiserslautern #3 -- no trabalho...

Do leitor que já ouviu a rádio Farroupilha (eu ouvia todo dia, "por osmose", graças à minha avó) espero que ao menos reconheça a referência, no título da postagem.

Finalmente, o trabalho começou de verdade \o/ Estou empolgadíssimo (e, lol, não escrevo isso esperando que os meus chefes leiam, porque, apesar de brasileiros, duvido que estejam interessados nesse blog)! Inicialmente, o meu trabalho foi meio "dummy": pelo que entendi, o objetivo era que eu aprendesse a brincar com templates (que até então sempre foram uma dor de cabeça pra mim), Doxygen (uma ferramenta de documentação de código que, sério, achei MUITO fodalhona -- dá até pra fazer gráficos UML das relações entre as classes do programa) e o Eclipse (foi a primeira vez que eu realmente usei o Eclipse, relativamente a fundo, e, sinceramente, to até que gostando).

Ainda sobre o Eclipse, no momento em que me pediram pra usá-lo, eu reclamei que ele era muito poluído (era o argumento que eu lembrava de ser o "ponto fraco" dele, na minha opinião -- eu tenho tentado usar o VIM e, convenhamos, qualquer coisa se torna poluída quando se usa o VIM). Depois de 10min na frente do Eclipse, me veio o real problema que eu tive com ele quando tentei usá-lo noutros tempos: ele não me dá (ou é complicado fazer com que ele me dê, porque até agora eu não achei comofas) controle sobre o Makefile que ele gera pra o seu projeto. Além disso, achei um exagero, uma bobagem, que na auto-geração de classes do Eclipse CDT ele já crie o método destrutor como sendo virtual. E se eu não quiser que outras classes herdem da minha classe? Pra que virtual? Achei meio frescura, especialmente depois de ter lido o  Deep-C que me disse pra não sair sempre declarando qualquer destrutor como virtual v_v

Mesmo assim, no fim das contas, estou feliz com o Eclipse: ele me dá syntax highlight bem fodástico (apesar de ter me levado uns 10min pra eu conseguir configurar tudo do jeito que eu queria) e ainda me permite pular direto pra declaração da função simplesmente segurando Ctrl e clicando no seu nome (além de reindentar todo um código que esteja emporcalhadamente mal-indentado, se for o caso, através de um simples atalho -- e a reindentação, apesar de seriamente limitada, é [um pouco] configurável). Também, a opção de refactor dele é simplesmente maravilhosa -- apesar de às vezes dar uns bugzinhos D= -- e, no monitor que me deram, a poluição do browser se faz perfeitamente tolerável (sobra tanto espaço que não consigo ficar só com o Eclipse aberto ocupando todo o espaço da área de trabalho: me obrigo a ficar com a linha de comando ou o firefox (ou ambos) abertos pra diversificar um pouco a partilha do espaço.

Quando terminei o meu "trabalho dummy", no fim da semana passada, ganhei novas instruções: deveria começar a fuçar com sockets. Não sabem os meus chefes que eu acho esse assunto de redes, e ferraria, e bits e protocolos super divertido (além de super engenheiro também), apesar de ser super n00b nisso (mas estou tentando, vá-la, logo estarei sabendo da coisa direitinho).

Assim, o meu carnaval está sendo regado a programação e aprendizado =) (o carnaval aqui é super estranho: como é frio, não tem muita gente nas ruas e eu nem mesmo to sabendo de qualquer aglomeração/festa/coisa do tipo aqui nas redondezas (na cidade). Sei que teve, só, alguma coisa -- uma festa a fantasia, certamente -- no sábado, quando peguei um ônibus "lotado" (cheinho, para os padrões de Porto Alegre) na volta do supermercado, mas não creio que tenha feito grandes alardes "na comunidade")

Eras isso...

R$

11 de fev de 2012

Em Kaiserslautern #2 -- vivendo sem mofo ou insetos

Uma das primeiras coisas que eu notei ao chegar aqui foi a completa ausência de insetos. Ainda no Brasil, sofria bastante com os mosquitos. Em tempos de muito calor, eles invadem as casas e se tornam inimigos número um do sono do ser humano. Sem um repelente ou um veneno, dormir em sua presença se torna uma tarefa árdua, quase (e talvez até totalmente) incumprível.

Quando cheguei aqui, nos primeiros dias, frequentemente tinha aquela sensação agoniante de que algum desses ávidos malfeitores rodeava o meu ouvido. É claro, era só a sensação: em poucos segundos a minha razão entrava em ação e me lembrava da sua completa ausência. Se o motivo da ausência são as temperaturas abaixo de zero (o que não faria tanto sentido, levando em consideração o fato de que dentro dos ambientes fechados a temperatura beira aos 20°C) ou se eles realmente não existem por essas bandas do mundo, não sei dizer com certeza. Sei, porém, que não sinto falta de nenhum deles.

Os mosquitos não são os únicos seres dos quais não sentirei falta tão cedo. As moscas, que eu gosto de chamar de "o único ser que Deus errou em fazer" (é claro, o que não significa que eu concorde plenamente com isso v_v) e que estão ausentes desde a minha saída do Brasil, também me eram muito mal quistas. Se os mosquitos atrapalhavam o sono à noite, as moscas estorvavam muito mais durante o dia, passando por perto dos ouvidos fazendo barulhos irritantes e pousando por cima da comida, sendo espantadas e logo voltando ao ponto de onde haviam acabado de sair.

Uma coisa boa nesse oásis livre de insetos é o fato de que posso deixar coisas relativamente abertas na cozinha. Como não passam insetos por aqui ultimamente, sei que nenhuma formiga virá me roubar o açúcar aberto, por exemplo. Também sei que nenhuma barata virá visitar as minhas panelas ou os meus armários, e não tenho problemas em deixá-los abertos.

Como o ambiente é bastante seco aqui -- especialmente por causa da calefação, creio eu, que, além de esquentar, seca bastante o ar (o que me faz, diga-se de passagem, frequentemente acordar com bastante sede) --, também parece que não se formam muitos fungos em lugar algum. Desde que cheguei, venho amontoando o meu lixo em um saco, grande, no qual imaginei que, em virtude da grande quantidade de comida e tudo o mais, criar-se-ía uma significativa quantidade de mofo. Que nada: até agora nada. E isso que já fazem quase 10 dias desde o primeiro momento em Kaiserslautern.

Espero que as coisas continuem assim: insetos e mofos são problemas contra os quais eu não teria paciência alguma de lutar T_T

Era isso...

R$

7 de fev de 2012

Em Kaiserslautern #1 -- comida, pessoas

Esse é um post sem imagens. Só texto. Tomara que o leitor não se incomode =)

Nos primeiros dias, estávamos perdidos. Na noite de sexta-feira, nem comida tínhamos ainda, e a nossa primeira refeição foi no Mensa: batata frita, uma carne de porco num espetinho de madeira com um molho meio picantezinho (não sei do que era), alfaces (a melhor parte! -- nunca pensei que diria isso) e uma sopa de vegetais.

Segunda-feira, ontem, comemos no Mensa novamente, e eu cria que a alimentação seria diferente. Duas coisas, porém, permaneceram as mesmas: as batatas fritas e a sopa de vegetais. Dessa vez, a sopa estava menos salgada (aaa... aliás: nenhuma água ou qualquer líquido durante a refeição, a menos que seja comprado), e a carne, em vez de porco, era um bife à milanesa, macio como eu nunca tinha comido antes. Em vez de alface, tivemos cenoura com um molho branco, para a minha tristeza: cenoura está longe de ser um dos meus pratos preferidos.

De acordo com uma guria que trabalha no ISGS -- o departamento que ajuda os intercambistas a se instalarem aqui --, tem batata frita quase sempre no Mensa. Se eu estivesse comendo também frequentemente o meu amado feijão com arroz eu admito que não seria um pesadelo. Mas tenho a impressão de que como lanche todo dia. O que tem salvo ultimamente têm sido as jantas, regadas as massas. Aliás, ontem fui a um mercado -- que a mesma guria do ISGS nos sugeriu -- onde em teoria a comida é mais barata. Encontrei arroz! Um de saquinho, que dá pra fazer de um jeito que é sugerido no rótulo (todo em alemão, é claro). Comprei uma massa, e assim que eu conseguir uma panela maior eu vou tentar fazer arroz com massa (+ um molho que eu comprei aqui também e não sei direito comofas pra usar ainda).

Finalmente, sobre as pessoas, deixo aqui a minha primeira impressão: os alemães parecem pessoas sérias, não tão cordiais.  Falam baixo (um colega frequentemente comenta que quando estamos em grupo só ouvimos as nossas vozes e não as dos outros por quem passamos), dizem as coisas diretamente e frequentemente não estão dispostos a tentar nos entender quando demonstramos não falar alemão decentemente (especialmente as pessoas das lojas D=). Não mostram os dentes (ou seja, não sorriem), e parece que esperam que façamos o mesmo. A menos que saibam que tratarão diretamente com uma pessoa durante bastante tempo, não demonstram nem esperam cordialidade. No popular: são frios, distantes (e é exatamente o que me diziam as pessoas ainda no Brasil).

Se essa é ainda a minha primeira impressão, então supõe o leitor que ela possa mudar, e, se o faz, o faz corretamente. Minhas opiniões em geral mudam frequentemente e eu não acho que isso seja algo ruim.

Era isso \o/

R$

6 de fev de 2012

Uma chegada conturbada

Vista do quarto, a partir da porta
Já no fim -- bem bem no fim mesmo -- do terceiro dia desde a minha chegada, finalmente escrevo aqui alguma coisa sobre como têm sido os primeiros dias nessa terra distante chamada Alemanha.

Tendo pego o vôo em Porto Alegre, sentei-me ao lado de um dos colegas entre os quais viemos. Com ele, passei a conversar somente nos últimos 30 minutos do vôo até São Paulo, o qual durou algo em torno de 1h40. Em São Paulo descemos -- estava chovendo --, comemos alguma coisa e fomos para a "sala de embarque" (ou como quiser o leitor chamar aquele espaço entre o saguão e o avião). Como o embarque era internacional, tivemos de esperar numa fila até podermos finalmente mostrar os passaportes.

Ao chegar na tal sala de embarque, um grande grupo de passageiros se amontoava próximo ao portão através do qual deveríamos passar. Foi o nosso primeiro contato com "pessoas alemãs". Uma quantidade bastante exagerada de senhores falando numa língua "desconhecida" se colocava como obstáculo entre nós e o portão de embarque.

Entramos no avião! Ufa! Agora é só esperar a janta, ir ao banheiro, e dormir até a manhã do dia anterior. Antes eu conseguisse! A poltrona pouco reclinável com um relevo para a frente na altura da cabeça me impediu de pegar no sono durante muito tempo. Logo acordei, além de desconfortável, com o estômago doendo. Esperei uma hora, duas horas, três, ..., nem sei direito quanto tempo fiquei acordado, olhando para os lados ou assistindo a algum filme no computadorzinho disposto à minha frente, até que finalmente chegamos à Europa -- no sul de Portugal -- e, mais tarde, enquanto acima da Bahia de Biscaia, veio o tão esperado "café da manhã", que já estava mais para almoço.

A partir de depois do almoço, uma senhora que estava ao meu lado no vôo (ela e o marido tinham ido visitar a América do Sul -- pff... como se fosse possível olhar tudo numa mísera viagem v_v) começou a puxar alguma conversa, sempre em inglês. Como não pude resistir à curiosidade, dei trela. Ela e o marido (que estava ao seu lado, na janela) eram Dinamarqueses. Ela ensinava alemão, e ele era aposentado: havia trabalhado durante 44 anos na Lego (a famosa empresa dinamarquesa), que surgiu em sua cidade, Billund. Me convidaram, inclusive, a visitar a Legolândia, também em Billund (apesar de ter "remakes" em mais três ou quatro lugares do mundo), e me deixaram o seu e-mail, para que fizesse contato.

Chegando ao aeroporto, tivemos de mostrar passaporte novamente. Achei engraçado, porém: ninguém me perguntou o que eu vinha fazer no país, ou me cobrou visto, ou qualquer coisa do gênero. Tanto faz, também: o importante é que cheguei \o/. Ao pegar as malas, um susto! Uma mala de um dos colegas simplesmente não havia aparecido nas esteiras. Demorou uns 50min, mas finalmente resolveram o problema: a mala havia sido posta em meio a malas de outro vôo, pelo que entendi.

Quando saímos do espaço de desembarque, bateu o frio. Todo mundo se agasalhou. Não devidamente, mesmo assim: acho que ninguém estava muito com noção de o quão frio estava na hora. Por sorte, um dos colegas entendia bem alemão e sempre ía na frente, perguntando, conversando, abrindo caminho. Não foi difícil, através dele, comprar a passagem para Kaiserslautern. Difícil mesmo foi carregar aqueles montes de malas pra cima e pra baixo (literalmente: as estações têm bastantes escadas ) o tempo todo.

Na chegada em Kaiserslautern estava fazendo -7,5ºC. Frio suficiente pra me fazer não sentir direito as mãos. E como não tinha toca, a coisa estava bem problemática. Depois de uns 25min de espera, finalmente chegou o cara (não consegui gravar seu nome) para nos pegar na estação. Ao sair, o primeiro contato com a "neve". Sério, até agora estou com problemas com a definição de neve: se é neve aquilo que cai, é também neve aquela que se forma, durante as madrugadas, no chão e nos vidros dos carros? Por agora, isso não importava: o que importava era que chegássemos a um lugar quente e pudéssemos finalmente largar as malas.

Chegamos! E depois de alguma espera -- o cara fez 3 viagens para poder trazer a todos -- tivemos uma pequena conversa com o cara. Ele nos disse algumas coisas que deveríamos saber e, como não comíamos desde o café da manhã do vôo, finalmente comemos (pão com nutella ou margarina, presunto e queijo -- acho que era isso, ao menos -- e leite com Schokodrink, um achocolatado em pó que achou-se aqui).


Bom... não tem muito o que contar a partir daí. No dia posterior fomos ao ISGS -- andamos de ônibus sem pagar --, como tínhamos sido orientados e lá fizemos uma série pequenas coisas, como ganhar um login na universidade, fazer um cartão pra o Mensa (o RU daqui), etc. Depois fomos à empresa de ônibus pra pegar um tal de Month Ticket, que nos custou 38 euros e nos permite andar pela cidade o quanto quisermos durante um mês.

Tirei, nesse primeiro dia, também, umas fotos do meu quarto, para mostrar ao leitor. Ele estava bagunçado, sacumé, né? Utilizando a implementação de um algoritmo que foi alvo de um estudo para o trabalho final de uma cadeira de fotografia que fiz no semestre passado, fiz a seguinte montagem (imagino que se o leitor clicar, conseguirá ver melhor), que mostra a vista do meu quarto a partir da minha cama:

Vista do quarto, a partir da cama

Uma outra montagem, já vista pelo leitor no início da postagem, também utilizando o mesmo algoritmo, mostra a vista a partir da porta do quarto. A terceira montagem mostra a vista da janela:

Vista do terceiro antes (último) da janela
Ao chegar, não tínhamos uma série de coisas: edredon, xícaras, pratos, talheres, adaptadores pra tomada (os meus simplesmente não serviram pras tomadas alemãs), etc, etc, etc.. Muitas das coisas que temos agora foram nos dadas pelos brasileiros que cá estavam antes de nós e por brasileiros que devem logo ir embora. Claro, tivemos de comprar coisas, mas não me foi necessário comprar talheres (eu só comprei uma faca e uma colher, porque ainda não tinha recebido as coisas de todo mundo), xícaras, pratos, copos, uma TV (sim, eu ganhei uma TV \o/), uma toca, etc. Dois colegas têm, agora, microondas, e temos um aspirador de pó, que deve ser usado comunitariamente.

Assim, apesar de ainda não estarmos instalados totalmente -- temos uma série de coisas a arrumar ainda --, estamos bem bem. Já comemos uma vez no Mensa, já podemos andar por aí de bus, já sabemos mexer na calefação e já nos acostumamos com o frio (e acho que finalmente ninguém mais se perde nesse alojamento -- sério, andar por aqui não é difícil, mas por algum motivo o pessoal andou se perdendo affuuu nos primeiros dias ).

Logo escrevo mais sobre as minhas experiências na Europa -- e especialmente na Alemanha.

Tchuss!

R$