27 de mai de 2012

Em Kaiserslautern #6 -- Deportado pela Rainha

Já faz um tempinho que eu não escrevo nada aqui, e inclusive já fazem duas semanas desde o ocorrido, mas como acho que boa parte dos meus amigos ainda não sabem -- e como creio na possibilidade de o leitor ser um desses ainda não informados -- eu fui deportado do Reino Unido, numa tentativa de ir fazer turismo em Londres.

Adorei essa foto, com os velinhos conversando ali no canto inferior direito, por exemplo (Bremen).

Tudo estava planejado: na quarta-feira, eu compraria meu celular -- para assim ter como me comunicar com a minha mãe, que fica toda cheia de dedos quando eu passo somente um dia sem dar qualquer notícia --, na quinta-feira cedinho sairíamos de casa (às 4h30 da manhã) para ir até Karlsruhe, onde pegaríamos o vôo para o Reino Unido. Como eu já estava há mais de 3 meses na Alemanha, achei que eu deveria levar um papel comprovando que, apesar de eu não ter o meu visto ainda, já tenho ao menos marcada a minha entrevista para o visto.

Diferentemente de mim, porém, meus outros três colegas não o fizeram (não pegaram o papel), o que não foi de todo uma atitude irresponsável: eles haviam conversado com uma pessoa da Universidade que lhes havia dito que isso não deveria ser necessário.

Chegando ao aeroporto em Karlsruhe (na verdade, o aeroporto fica lãããã no fim do mundo, como de Porto Alegre até a Barra do Ribeiro, e a gente foi de ônibus, o que deu mais ainda a impressão de que definitivamente não encontraríamos um aeroporto por lá), passamos pela pesagem das malas, pelos detectores de metal e, ao passar pela checagem do passaporte, tivemos nosso primeiro problema: o senhor que nos atendeu, como ficou desconfiado (só eu tinha o papel do visto), ligou para o lugar onde ocorrem as "entrevistas para o visto" (a gente sempre chama isso pelo nome em inglês, "visa appointment", o qual, a partir de agora, passará a ser o nome que usarei) e, tendo conversado com a pessoa do outro lado da linha, a qual confirmou as entrevistas, nos permitiu que passássemos.

Moinho de Bremen. Certamente, o ponto mais bonito da cidade.

Antes ele tivesse nos barrado ali: pegamos o vôo e finalmente chegamos ao Reino Unido. Londres (ou onde quer que estivéssemos -- esses aeroportos da Ryanair sempre ficam super distantes da cidade) estava, como sempre, nublada, relativamente fria. Entramos no aeroporto, passamos por uns corredores, chegamos a um lugar onde havia um pequeno formulário para preenchermos. Preenchemos e, ao chegarmos no lugar onde checariam o nosso passaporte, novamente, ficaram desconfiados, pois, como já dito, já estávamos há mais de 3 meses na Alemanha.

Eu -- que deveria ter sido o primeiro a ir mostrar o passaporte, já que tinha o papel do visa appointment (mas o pessoal rushou na frente ¬¬) -- acabei sendo o último a chegar no lugar de mostrar o passaporte. Quando cheguei, a mulher já estava dando uma bronca em um colega. Depois de alguns minutos, todos recebemos uns papéis do tipo "eu estou detendo você e retendo os seus documentos com o motivo 'quero ainda fazer algumas perguntas e esclarecer alguns fatos'".

Naquele momento, estávamos tranquilos, crentes de que seria só uma perda de tempo. Ainda estávamos inclusive fazendo planos para o que faríamos nas horas que nos sobrassem daquele dia. Após mais ou menos uma hora (ou até mais), 4 pessoas vieram e nos pediram que os acompanhássemos. Fomos até uma sala onde revistaram nossa mochila. Os "revistadores de mochila" pareceram bastante legais. Contaram nosso dinheiro, pediram que assinássemos uma declaração de que eles pegaram o nosso dinheiro mas que já o tinham devolvido, conversaram tranquilamente sobre vários assuntos. Eu inclusive perguntei o que haveria de acontecer nos momentos subsequentes, no que o meu "revistador de mochila" disse que só teríamos que esperar por mais algum tempo. Me pareceu ainda certo de que estaríamos livres em só mais alguns instantes.

Depois de revistadas as mochilas, fomos levados, cada um a uma pequena sala com uma mesa e duas cadeiras. Eu esperei lá por alguns momentos, lendo um livro em várias línguas que dizia os meus direitos naquele lugar e, após alguns momentos, um senhor entrou e me revistou. Ele parecia amedrontado... como se eu fosse um criminoso ou qualquer coisa parecida. Mas... ok, revistado, me levou até uma outra sala (um pouco maior) onde finalmente os direitos sobre os quais eu li ficaram claros: eu poderia comer, escovar os dentes, assistir TV e inclusive dormir lá, se o quisesse. Lá encontrei um colega -- dos que também haviam sido detidos -- e mais uma brasileira, que morava na Espanha e que havia sido barrada pela alfândega também. Logo chegaram os outros dois brasileiros... e aos poucos um a um foi sendo chamado a ter uma conversa com o cara que decidiria se ficaríamos ou não no Reino Unido. Eu não tenho mais certeza, mas acho que fui o primeiro; no fim da minha conversa, o cara falou que achava que nos mandaria de volta à Alemanha, de onde havíamos saído.

"Norddeutsches Landesbank" (Hannover), como diz a Wikipedia.


Ainda não era certo: o cara havia dito um "I think". Mas aos poucos, conforme os outros foram sendo chamados, foi ficando cada vez mais claro que deveríamos ser enviados de volta. Passamos, admitimos depois, pelos cinco estágios pelos quais alguém passa ao lidar com a perda: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Durante o estágio de raiva, fizemos o que o brasileiro de melhor sabe fazer: "se vamos ser mandados embora, então temos mais é que aproveitar ao máximo esse lugar, porque tudo aqui é de grátis". Comemos tri bem lá: sanduíche, café, arroz (eu não comi, mas disseram que estava ruim) e até lasanha. Essa última, não estava das melhores, mas também não posso reclamar: burro dado não se olha as orelhas. Assistimos Jurassic Park, eu li uma bíblia que tinha lá, comi várias balas, e inclusive conversei com o pessoal que lá trabalhava. Como a guria não entendia inglês, toda vez que ela precisava de alguma coisa a gente agia como "intérprete" dela. Os fiscais agradeceram várias vezes quando, ao tentar falar algo pra ela, a gente traduzia.

Após algumas horas, disseram-nos que dois seriam mandados para Dusseldorf e outros dois para Bremen. Eu iria pra Bremen. Ao sair, os fiscais nos cumprimentaram, riram, deram tchau, e já estavam bem de bem com a vida com a gente. Como o vôo de Bremen sairia meia hora antes do de Dusseldorf, tive de sair antes. Fomos levados por um dos trabalhadores lá até a fila do avião; mas como estávamos sendo deportados, teríamos de ser os primeiros a entrar no vôo. O fiscal conversou sobre várias coisas, comentou que já tinha ido ao Brasil (a Foz do Iguaçu e ao Rio de Janeiro) e comentou sobre as favelas do Rio (ele usava a palavra "favela" e ele não conseguia achar uma palavra que tivesse o mesmo significado em inglês -- alguns dias depois assisti a algum video no youtube em que usaram uma outra palavra, em inglês mesmo, da qual não consigo agora me lembrar). Ele inclusive elogiou o nosso inglês \o/

Finalmente, ele entregou o passaporte para o pessoal do vôo e saiu -- e nós fomos sentar em algum lugar dentro da aeronave. Eu estava naquele momento com MUITA dor de cabeça (só lembro disso), e eu lembro que o colega com quem eu estava ficava repetindo frequentemente que tava muito cagado e que queria o seu passaporte. Durante o vôo, várias vezes cri que em algum momento nos devolveriam o passaporte. Como não aconteceu, ao chegarmos em Bremen, fomos pedi-lo. Nos entregaram (tranquilo) e entramos na fila para mostrá-lo ao pessoal da Alemanha.

Ali o pavor apertou: se não conseguíssemos entrar na Alemanha e fôssemos deportados de volta para o Reino Unido, seríamos então deportado do Reino Unido para o Brasil, i.e., ía dar merda. Dessa vez, fizemos a coisa do jeito certo: eu cheguei primeiro e mostrei meu passaporte && e meu papel que comprovava que eu já tenho o visa appointment. O cara não entendeu de cara o que significava aquele papel, no que pediu pra irmos num outro lado lá da cabinezinha onde ele estava e explicar a situação. Foi muito simples: explicamos o que houve -- ele viu que fôramos deportados do Reino Unido -- e ele simplesmente explicou que não poderia fazer nada em nosso favor para mandar-nos de volta para lá, e que infelizmente teríamos de voltar para a nossa cidade por nossa conta; mas em momento algum cogitou que não teríamos o direito de entrar na Alemanha.

Infelizmente, os nossos amigos em Dusseldorf não tiveram a mesma sorte: perderam um bom tempo explicando e inclusive ligaram para o cara da Universidade, o qual mandou alguns papéis comprovando que eles eram estudantes sim da Universidade de Kaiserslautern. Depois de algum tempo, foram finalmente liberados. Foram até Köln (que era mais perto do aeroporto do que Dusseldorf) e lá dormiram na Bahnhof (a estação de trem).

Na frente da Bahnhof de Frankfurt.
Infelizmente, em Frankfurt ficamos só uns 30min...
por isso, não tenho fotos muito boas D=
Enquanto isso, eu e o meu colega ligamos para um hostel que achamos na internet (foi muito bom eu ter comprado aquele celular no dia anterior). Perguntamos se haveria lugar, no que a guria explicou os lugares/preços do hostel. Dissemos que iríamos para lá, e, como a guria tinha que sair duma vez (ela disse que teria de acordar cedo no dia seguinte), pegamos um táxi até o local.

No fim das contas, apesar de não ter sido talvez tão divertido quanto teria sido em Londres, a viagem não me foi tão mal assim: conhecemos Bremen (que é uma cidade bem bonitinha) e, no caminho de volta pra casa, passamos por Hannover (outra cidade bem legal). Como já era sábado quando voltaríamos para a casa (ficamos duas noites em Bremen: quinta e sexta), pudemos pegar um ticket chamado "Schönes Wochenende" (Belo Fim-de-semana -- numa tradução livre), através do qual é possível andar pela Alemanha inteira pelo preço único de 40€ (e o ticket ainda pode ser dividido em até 5 pessoas... o que, no melhor caso, significa 8€ para viajar pela Alemanha inteira no fim de semana).


Através desse ticket, voltamos para Kaiserslautern, numa viagem que durou mais ou menos 10h. Não posso reclamar: foi divertido conhecer os lugares pelos quais a gente passou -- e dos quais eu tirei até que bastantes fotos legais.

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