4 de jan de 2013

Leituras

O leitor não deve saber (imagino até mesmo que creia o contrário), mas sou um péssimo leitor. Só pra dar idéia, ao longo do ano passado (2012), li a inacreditável soma de 0 livros. Até mesmo a bíblia (que noutros anos com muito esmero sempre fiz questão de melhor conhecer) este ano acumulou sobre si pequena camada de pó. Comprei 5 livros em alemão. Li somente o prefácio do primeiro deles. Se trouxe Memórias Póstumas de Brás Cubas para a Alemanha, só o abri no avião, na vinda.

Mas não me considero alguém inculto por isso. Ao longo da vida (nossa, como sou experiente, meu Deus... HUEAHEUHA), aprendi que não é somente através dos livros que se acumula cultura. Obviamente li algumas coisas através dos anos. Me orgulho de poder comentar sobre os filmes d'O Hobbit e d'O Senhor dos Anéis com a propriedade de alguém que realmente sabe o que deveria ter acontecido em cada parte, por exemplo.

Bem... se não gosto de literatura, é verdade que perco muito do meu tempo lendo sobre coisas outras. Nos últimos tempos, meu principal passa-tempo têm sido os artigos da Wikipédia. Em geral, tenho lido sobre lingüística, que foi definitivamente O tema das minhas conversas e pensamentos mais focados no ano que há poucos dias se terminou. Assim, desde que começou o recesso de final de ano, aproveitei o tempo "livre" (na verdade, não era pra ser tão livre, já que tenho definitivamente coisas para fazer; mas com a minha enorme falta de motivação em continuar meu trabalho, acabei frequentemente me entregando ao prazer que me era através da internet ofertado) para freneticamente devorar uma série de artigos (e algumas páginas relacionadas) que já figuravam na minha lista há um bom tempinho.

[ainda sobre a "cultura": não creio que eu perca para qualquer pessoa comum que se considere "uma ótima leitora" nos quesitos vocabulário e conhecimentos sobre a língua portuguesa -- apesar de frequentemente essa nem mesmo ser a língua de grande maioria do que consumo]

Boa parte dos links que postarei aqui já publicar-se-aram [eu sei, eu sei, mesóclise não se usa com passado; só queria brincar] em meu Facebook uns tempinhos atrás. Posto aqui mais mesmo é para que num futuro distante se me seja fácil encontrá-los.

Os primeiros são três artigos sobre como mudanças de uma língua pra outra ocorrem dentro de uma população. Ao lê-los, fiquei pensando se não seria possível constituir uma pequena comunidade de falantes de espanhol em Guaíba. Sério, se eu fosse professor de espanhol tentaria. Como a cidade é pequena e o espanhol poderia ajudar os cidadãos a melhorar de vida (conquistar vagas melhores no mercado pelo simples fato de dominarem uma segunda língua), creio que seria bem tri testar.
http://en.wikipedia.org/wiki/Language_shift
http://en.wikipedia.org/wiki/Language_revival
http://en.wikipedia.org/wiki/Language_death

Mais: fiquei me perguntando se o aprender espanhol (que, apesar de suas especificidades e tudo mais, eu frequentemente gosto de enxergar como "um português cortado a machado"*), que ainda mantém várias estruturas na fala que nós, ao longo do tempo, acabamos perdendo (conjugação na segunda pessoa, diferença entre imperativo "afirmativo" e "negativo", uso de "eis que" no início das frases, etc...), não acabaria reavivando ("por analogia", digamos assim) o seu uso no nosso português.


Seguindo, posto esse link:
http://en.wikipedia.org/wiki/Productivity_%28linguistics%29
Tendo chegado a esse artigo da wikipedia (através dos link anteriores, creio), fiquei pensante sobre os verbos da segunda e terceira conjugação ("er" e "ir", como em "acontecER" e "saIR"). Enquanto a segunda me parece produtiva somente quando descendente do verbo "ter", diria eu que a terceira esteja fadada à esterelididade. Afinal, ao criar novos verbos, o mais comum é mesmo o "ar", como em "deletar", "fakear", "loadear", "erasear", "socketar" (pra os jogadores de Diablo), etc.



Ainda, tenho percebido que ultimamente cada vez mais crio palavras com sufixos "ume" (fodalhume, relaxume, assume [assadura]), "oso" (fodalhoso, grandalhoso) e "udo" (espertalhudo, fodalhudo), e ainda aberrações como "grandalhosume" (usei isso ainda hoje mesmo) ou "pirateosamente". Não creio que sejam muito comuns essas minhas palavras, certo?


Continuando, li uma série de artigos (e algumas referências externas) sobre a evolução do latim [vulgar] às línguas que hoje falamos. Não tava sabendo que antigamente o latim tinha substantivos neutros. Isso é uma "perda" complicada que a gente não mais vai recuperar (mas quem se importa? O neutro do latim era quase uma farsa, declinando igual ao masculino em todos os casos fora o nominativo singular e plural e o acusativo plural)
. Também é legal perceber que as nossas conjugações permaneceram bem próximas das originais, mesmo depois de milênios. Vale a pena tirar um tempo e ler esses artigos!

(sobre o neutro... a gente até que ainda o mantém através de alguns pronomes como "isso" [em oposição a "esse" e "essa"], "isto" e "aquilo". Só... também... creio eu)

http://en.wikipedia.org/wiki/Vulgar_Latin
http://en.wikipedia.org/wiki/Romance_verbs
http://en.wikipedia.org/wiki/Romance_languages#Verbal_morphology
http://en.wikipedia.org/wiki/Romance_copula#Portuguese
http://en.wikipedia.org/wiki/Vulgar_Latin_vocabulary
http://en.wikipedia.org/wiki/Reichenau_Glosses



Nesse ponto, eu já tava cansado de ler palavras como "fricative", "affricate", "plosive", sem nem ter idéia de o que essas coisas significavam. Por isso, me parei a ler esses artigos (e várias coisas relacionadas):

http://en.wikipedia.org/wiki/Manner_of_articulation
http://en.wikipedia.org/wiki/Place_of_articulation

Infelizmente, essa coisa de "som" é meio complicada. Eu frequentemente vejo tabelas com infinitos símbolos de fonemas que não me fazem sentido algum. Tenho que procurar aprender melhor o que cada um dos símbolos significa.


Os três próximos links relacionam-se com "aspecto gramatical". Uns 2 anos atrás, enquanto conversando com um amigo intérprete de LIBRAS sobre como tratar de "tempo" na linguagem objeto de seu trabalho, lembro-me de ter ouvido falar de um tal de "aspecto". Creio que seja esse o aspecto sobre o qual ele falava: (afinal, o próprio artigo fala que a ASL é rica em aspecto, apesar de pobre em tempo -- ee, bem, a ASL é irmã da LIBRAS, sendo ambas decendentes da língua francesa de sinais)

http://en.wikipedia.org/wiki/Grammatical_aspect
http://en.wikipedia.org/wiki/Habitual_aspect
http://en.wikipedia.org/wiki/Habitual_be

Achei bem fodinha esse treco do "Habitual be". Sério... se fosse aceito entre nós brasileiros que "a minha vó ser assistindo TV" significasse "a minha vó tem o hábito de assistir TV", eu ía achar ultra fodástico.


Finalmente, dois links meio "randoms". Um deles foi recomendado pelo autor do "Elmord's Magic Valley" ali do lado quando comentei sobre purismo lingüístico um tempo atrás (nem lembro o contexto D=) e há tempos eu tava me enrolando pra ler; atrás do outro eu fui porque uma amiga comentou sobre "Philologie" (em alemão) quando eu comentei sobre lingüística e eu não sabia o que era.

http://en.wikipedia.org/wiki/Linguistic_purism_in_Icelandic
http://en.wikipedia.org/wiki/Philology


Por fim, sugiro a busca pelas palavras "algures" e "nenhures" na internet e a sua comparação com "algo", "nada", "algum" e "nenhum", "alguém" e "ninguém".

Ainda... vale a comparação também entre as palavras "alhures", "alheio" e "além". (e ainda hoje eu quase escrevi "alhém", me referindo a "alguma outra pessoa")

R$


*: Não me xinguem!!! Eu sei que o espanhol tem coisas super legais que a gente não tem, como o pretérito anterior (que conseguimos emular somente através de uns advérbios), e o pretérito perfeito composto (que tem algum significado específico que eu ainda não consegui compreender). Eu digo "a machado" porque ele parece "rústico" em relação ao português, com uma gramática que me parece bem menos "elegante" que a nossa.

2 comentários:

  1. Faça o favor de ler o Memórias Póstumas. É muita glória pra ser ignorado... :P

    Dito isso, eu também leio um quase nada de literatura "de verdade". Eu costumava me sentir mal por isso, mas lá pelas tantas eu parei de me importar (muito). Por outro lado a quantidade de papers e coisas técnicas que eu consumo por unidade de tempo não é pouca coisa...

    P.S.: Os três links da seção de 'aspecto' estão apontando para lugares malucos (só porque eu fui abrir o do "Habitual be" :P), e os sobre as línguas românicas passam por dentro do Facebook. :P

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  2. Eu já li Memórias Póstumas de Brás Cubas uma vez. Eu queria lê-lo denovo agora com uma mente mais "aberta" do que a minha de ensino médio (quando o li pela primeira vez). Quanto à leitura... pois é... eu leio um monte de outras coisas. Às vezes acho até que leio demais. Não é só porque não leio "no formato padrão de livro" que eu deva ser inferior u.u

    (Bááá... brigado pelo aviso dos links errados. Os do Facebook foi porque eu já tinha postado alguma coisa com eles no Facebook -- e peguei os links da minha postagem --, e os da seção de "aspecto" eu não faço idéia de por que tenham ficado assim. Já arrumei)

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