12 de jun de 2011

das Minhas Relações Sociais

Ontem o coral jovem da igreja da qual participo foi cantar na "matriz" (adoro essa palavra: ela dá a impressão de que essa sistematização da igreja é algo mais sério do que realmente é) de Porto Alegre, num culto mais voltado à integração da matriz com outros "distritos" (outra palavra fruto dessa sistematização exacerbada proveniente da minha denominação).

Fomos com um ônibus "fretado", no qual, na volta, conversei um pouco com uma amiga minha (com quem pouco converso, apesar de considerar que de certa forma me identifico significativamente com alguns de seus pensamentos) sobre o modo como eu acho que funcionam as relações sociais no meu "mundo". De minha parte, achei estranho que ela tenha achado engraçado o meu modo de ver as coisas. Mesmo assim, como já vinha me propondo desde julho do ano passado (logo depois do FISL) a falar disso, resolvi que a hora é chegada de brincar um pouco sobre o assunto.

Antes de qualquer coisa, se o leitor não tiver notado, o título da postagem é uma referência ao Machado de Assis e ao modo como ele nomeava os títulos de alguns dos capítulos de seu Dom Casmurro. Machado de Assis, na construção da sistematização que proporei a seguir, teve uma enorme contribuição, já que freqüentemente "defendia" que tudo o que as pessoas fazem na vida é sempre movido ou por desejo ou por interesse (ao menos foi assim que eu aprendi nos livros do cursinho, aos quais eu não tenho mais acesso, já que emprestei pra alguém e não me lembro mais quem foi D=). Aliás... procurando por algum lugar onde se dissesse isso na internet (demorei pra achar qualquer coisa que servisse), encontrei essa aula, que achei até que bem boa:



Cheguemos, então, aonde eu quero chegar: quero falar sobre as minhas relações sociais.

O "desenvolvimento" do meu pensamento começou, acho, quando eu comecei a conviver com alguém que realmente tinha "problemas" e era o que chamarei de "doente". Apesar de "doente", essa pessoa é tão capaz de crescer pessoal e profissionalmente quanto eu (acho

Para começar, preciso comentar algumas coisas. Preciso dizer, em primeiro lugar, que ter tido um terceiro ano do ensino médio ruim (em termos sociais - eu não conversava com ninguém) me levou a entender que, quando ninguém se conhece, todo mundo é "acessível", o que não é tão verdade ainda quando as pessoas já se conhecem e já formaram grupos "fechados" entre si (esse novo entendimento me levou a uma socialização de sucesso quando eu fui pra FURG, em Rio Grande).

Tendo dito isso, quero começar falando da primeira (de um grupo de duas) conclusão a que cheguei: pessoas bonitas sempre levam vantagem nas relações sociais. Não é verdade? Se tu é bonito, as outras pessoas tendem a te aceitar muitíssimo mais facilmente do que em outros casos. Pessoas bonitas tendem a conseguir se fazer ouvir mais facilmente, inclusive. É a sensação que eu tenho, ao menos... u.u. Com essa primeira conclusão (e crendo que ao menos pra feio eu não sirva), passei a supor que as pessoas com quem eu tentar socializar provavelmente não vão querer me afastar; pelo contrário, inicialmente, vão provavelmente justamente entender que eu sou alguém que elas não conhecem tentando socializar. Na pior das hipóteses ([nerd] se eu tirar 1 no D6 T_T [/nerd]) elas não vão achar os meus assuntos legais e vão me considerar alguém chato. Num segundo caso, se as pessoas já me conhecem, elas provavelmente serão educadas: ouvirão o que eu tiver a dizer e logo "educadamente" encontrarão uma forma de fugir de mim, avisando que vão pegar uma água "ali" ou que vão falar com outro alguém "lá" (nada que eu também não vá fazer uma vez ou outra).

Uma segunda conclusão: em geral as pessoas se aproximam umas das outras somente pela utilidade que uma pode trazer à outra. Essa utilidade pode ser uma coisa bem sutil: ambas não conhecem ninguém num lugar e passam a se conversar porque percebem que são as únicas sem grupo; ou então ambas precisam de dupla pra um trabalho; ou ainda ambas são das únicas que gostam de falar sobre um certo assunto. O leitor poderia chamar de "amizade". Ok... chame do jeito que quiser.

O leitor vai dizer: essas duas conclusões são justamente as que eu disse que o Machado de Assis defendia. Pois são mesmo; mas eu tive de concluí-las eu mesmo antes de perceber que o Machado de Assis já tinha dito isso. E é no segundo ponto que os meus pensamentos mais se desenvolveram. Nessa segunda conclusão que mora praticamente o motivo dessa postagem. Comecei o todo querendo chegar a um ponto: quando alguém começa a me tratar como "doente".

(Serei um pouco redundante aqui, mas, enfim...) Andei percebendo (e foi bem sobre isso que eu conversei com a minha amiga) que, em geral, as pessoas são "acessíveis". Não importa quem tu seja, elas são acessíveis. Educadas, elas conversam contigo, não importante o quão divertido elas achem teus assuntos. Mesmo assim, pra que elas realmente se esforcem e queiram que tu faça parte de seus grupos sociais (ou seja, pra que ELAS queiram vir conversar contigo), é necessário que tu tenha algo útil ou interessante a elas. Beleza é algo válido, mas nem sempre é suficiente. Tu pode ser bonito, mas, se ao mesmo tempo tu é de alguma forma esquisito, tu não vai ser bom o suficiente pra os seus grupos. O resultado é que as pessoas agirão de uma das duas seguintes formas: (1) vão te tratar como doente; (2) vão te ignorar. (na real, eu prefiro pensar que talvez haja uma certa graduação entre os dois pontos, mas ignoremos que ela existe por agora)

Em lugares onde o ser ignorado não faz parte dos atos socialmente aceitáveis (como na igreja, por exemplo), o ser tratado como doente é escolhido predominantemente. Alias... o que é ser tratado como doente? É justamente ser respondido, mas não procurado; ser por um lado aceito como alguém participante da "sociedade", mas não participante do "grupinho". Como exercício, sugiro ao leitor que justamente pense (pra mim é claro, mas creio que pra o leitor pode não ser tão fácil assim) em como trataria alguém que tem, por exemplo, alguma dificuldade de comunicação (na minha idealização, essa pessoa seria alguém a quem a gente periodicamente se daria ao trabalho de tentar dar alguma atenção; também seria alguém a quem a gente daria atenção imediata no momento em que se manifestasse; por outro lado, seria alguém a quem evitaríamos no caso de querermos um momento agradável com nossos "amigos").

(Grande mundo da comunicação, aí estamos mais uma vez mergulhando em ti:) A comunicação, aliás, é, eu diria, o maior motivo pelo qual alguém poderia ser tratado assim. Pessoas com dificuldade de comunicação, na minha visão de mundo, tendem a ser de alguma forma menosprezadas. Acho que posso dizer que me sinto assim de vez em quando: como é difícil pra mim às vezes explicar algumas coisas, as pessoas tendem a se cansar antes que eu consiga chegar ao ponto onde quero chegar. Nesses casos, tendem a de alguma forma fugir, dando atenção a algum outro assunto que descobrem no momento poder receber mais atenção do que eu.






Tire um tempinho para ler essa tirinha maravilhosa do Ryotiras antes de continuar. Esse monte de coisas que estou dizendo talvez vá blow your mind se você for muito rápido...

AAA... outra coisa interessante: o andar com alguém que é tratado como doente te torna doente pra aqueles que o tratam como doente também. O conversar predominantemente com o doente faz com que aquele grupo te julgue como tal, sem saber o teu "potencial". Aliás... essa é outra palavra interessante, que pretendo explorar agora (foi a que eu usei quando conversando com a minha amiga).

Na faculdade, eu poderia dizer que não me sinto tratado como doente por grande parte das pessoas. Acho que, talvez, no máximo, excêntrico (no mínimo estranho tenho certeza de que alguns dos meus colegas poderiam me considerar). Mesmo assim, quem não é estranho no meu curso? (Creio eu) Boa parte daquela gente justamente releva as estranhezas de outrem por já estar acostumado às suas. Por outro lado, uma pessoa em especial é "tratada como doente": um colega, talvez um pouco mais estranho que os outros ([direitista] "todos os animais são iguais; alguns porém são mais iguais que os outros" [/direitista]). As pessoas não o desprezam quando ele entra nos seus grupos, mas não o convidam para participar também; ao mesmo tempo, ele passou no vestibular (no primeiro semestre!) e em várias cadeiras (inclusive em cálculo =D) e, assim, eu poderia dizer que tem tanto potencial de se formar quanto qualquer um naquele curso (talvez, sinceramente, inclusive, mais potencial do que alguns u.u).

Ainda sobre potencial, eu acho até mesmo engraçado quando, dentro da igreja da qual faço parte, me vejo "tratado como doente" por algumas pessoas. Às vezes, gente que me conhece há tempos, inclusive. Tipo... WTF? A minha primeira conclusão é de que definitivamente o meu "lack" de comunicação seja o causador do problema. A minha segunda conclusão é relativa ao tal do "potencial": às vezes falo algumas coisas tão tão específicas (comento sobre o livro que estou lendo, ou sobre o jogo que andei jogando, ou mesmo sobre alguma coisa que achei interessante que tem no Linux e não tem no Windows, ou ainda alguma observação que me veio na hora na mente sobre alguma palavra do português que tem uma tradução interessante no inglês ou no alemão) que os meus interlocutores ou não se interessam (porque não é algo de que gostem) ou simplesmente não são capazes de entender (sim... é verdade... eu tenho dificuldades de perceber... às vezes... que o que eu estou falando não é algo simples e que o interlocutor definitivamente NÃO VAI entender D=).

Percebo, enfim, que eu não sou doente, quando encontro pessoas que falam comigo e entendem o que eu digo (ou se esforçam para isso). Os regentes dos corais dos quais participo, em especial, são pessoas que inclusive me convidam pra participar das coisas quando percebem que a minha presença seria interessante; o meu professor de música (que hoje em dia não é mais meu professor, mas, enfim, que foi quem me ensinou os "primeiros passos" da música) é outro que me convidou várias vezes a participar das coisas que ele inventava (relativas à música também); também os meus professores de LIBRAS (e o pessoal da LIBRAS em geral) discutem de vez em quando comigo sobre aqueles assuntos polêmicos relativos aos estudos surdos que aparecem aqui ou ali em alguma aula (no caso, eu discuto em momento apropriado, fora das aulas u.u); por fim, os meus colegas da faculdade reclamam da minha ausência aos "encontros" que eles organizam quase que semanalmente em algum cinema ou na casa de alguém (creio que, se eu fosse tratado como doente por eles, eles não me convidariam u.u).

É isso...

É difícil sistematizar tão bem essas coisas quanto elas estão bem sistematizadas na minha cabeça, mas eu acho que expliquei bem até o modo como eu vejo as coisas.

R$

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