26 de ago de 2013

Improdutivos

Um tempo atrás, andei paranóico sobre a "não-produtividade" na formação de palavras dos verbos da segunda (er) e terceira (ir) conjugações. Posto de forma mais simples, estava incomodado com como, ao criar um novo verbo (normalmente com base em verbos de outras línguas -- frequentemente do inglês), tendíamos a utilizar a primeira conjugação (ar) e a simplesmente achar estranhas as versões com er ou ir.

Por exemplo, suponha que tenhamos o verbos refresh e queiramos criar um novo verbo com base nele. O natural hoje é que o chamemos de refreshar, e que versões como refresher ou refreshir soem bizarras.

Ao longo de um bom tempo, andei tentando evitar gerar verbos de primeira conjugações, e até que encontrei alguns casos em que pude fazê-lo sem problemas. Um exemplo é a terminação ecer, que funciona bem com verbos que envolvem "transformação", e normalmente os torna [facultativamente] reflexivos (aliás, isso me causou concluir que o verbo agradecer deveria no mínimo poder ser reflexivo... mas isso aí já é outra história). Palavras como emburrecer e embravecer (tá tá, acho que essas até que se usa normalmente, né?) são exemplos. Startecer seria um bom exemplo de algo vindo do inglês. Percebi que, quando estou bravo e quero dizer que alguém fez alguma burrada, digo que essa pessoa já "alguma_coisa_grande_e_brava_e_bizarra"-lheceu tudo já.

Tendo a pensar que foi essa "forçação" na criação de palavras que me tornou menos resistente a novos verbos com outras conjugações, já que me fez ouvir bem mais algo que antes me incomodava aos ouvidos. E é bastante por ter me acostumado a aceitar até que bem essas novas regras que eu creio que seria possível, talvez, ainda, fazer com que outros também o façam.

Mesmo assim, por algum motivo, tem algumas palavras que, apesar de raras, simplesmente já me soavam melhores na segunda conjugação desde o início. Um bom exemplo foi o verbo merger, que gerei a partir de uma tradução direta da palavra merge em inglês (que ironicamente normalmente é traduzida pra um verbo de primeira conjugação, a saber, mesclar). Outro exemplo é apender (sei lá, talvez tenha soado parecido com aprender (?)), que ironicamente tem uma versão em italiano, apesar de eu o ter gerado com base no verbo append, em inglês.

Bom... algo que também percebi com esse "esforço" foi que tem alguns particípios que aos meus ouvidos simplesmente não causam dano algum ao trocar um "a" por um "i". Um bom exemplo é ressequido, que minha vó vive usando. Ora... se existe um ressequido, por que não existir um verbo ressequir? Outra palavra foi desboquida (sem boca), que me parece até fazer sentido existir pra fazer oposição a desbocada (que só fala palavrão).

É claro que essa regra não funciona muito bem pra _muitos_ verbos. Trocar o "a" pelo "i" em particípios como sentado, amado, falado, pulado ou provado não funciona muito bem. Mesmo assim, é verdade que me acostumei a gerar novos verbos com "ir" toda vez que uma palavra do inglês me é emprestada. Verbos como refuse e request, dos quais a tradução normalmente não me vem à mente, são vítimas diretas desse tipo de generalização. Algumas até me agradam, como load (nunca gostei de "loadear").

[agora eu tava pensando que talvez enir fosse um fim bom pra criar coisas novas, como writenir, drivenir ou rulenir........ mas talvez seja só bom pra mim mesmo v_V]

É claro que meu objetivo não é eliminar completamente a produtividade da primeira conjugação... e por isso eu de vez em quando me obrigo a aceitar que simplesmente a tradução de algo possa receber um "ar". Também, nada me impediria de gerar verbos em conjugações que a gente ainda não tem -- meus exemplos preferidos seriam transeur e conteur, relacionados a transeunte e conteúdo, respectivamente.


Plot twist... (?)

Ok ok... essa postagem já estava há tempos pra ser escrita e nunca era publicada. Minha paranóia durou bastante tempo, mas eu nunca tinha tomado "boa vontade" de vir aqui e escrever tudo isso [ou, se o tinha feito, não lembro]. Mas algo me ocorreu umas duas semanas atrás: o que aconteceria se, em vez de pegar palavras do inglês, como estou acostumado a fazer, eu pegasse muitas palavras do francês?

Percebi que o francês é repleto de verbos cujo infinitivo é similar à nossa "segunda conjugação" (er) [tem também uns terminados em ire, mas como o "i" tem som de "a" achei que talvez a coisa desandasse um pouco], e muito provavelmente se pegássemos palavras [como manger] deles teríamos uma infinidade de palavras novas terminadas em "er" (e é possível que isso inclusive tenha ocorrido nos tempos em que o francês era a língua popzinha).

Assim, minha conclusão foi a seguinte: não tem por que eu me preocupar com isso. Estamos criando verbos com "ar" agora simplesmente porque não temos coisa melhor com que criar. Por acaso, agora é o momento de a nossa língua "se orgir" [fazer orgia? -- ó aí ó um novo verbo gerado on-the-fly com "ir"] com o inglês, e o inglês vai nos trazer palavras com "ar". Mas se no futuro outra língua for a popzinha da vez então talvez nossas regras de produtividade mudem e os verbos novos sejam de uma "classe" diferente.

Enfim... eras isso...

R$

2 comentários:

  1. Puxa, e eu acho tão legal que todos os novos verbos caem na primeira conjugação... Deixa a língua mais regular :-) Por mim poderíamos marcar as outras conjugações como "deprecated", hahaha (*)

    Mas mesmo assim gostei de merger. Fica melhor que mergear (ou merjar... hahahha).

    O -er do francês é a primeira conjugação deles, e me disseram que é onde novos verbos são inseridos, assim como o nosso -ar. Os verbos terminados em -ir -re -oir são em número menor (e têm bem mais irregularidades).

    (*) Essa nem é minha idéia mais maluca. Por mim, poderíamos ter um gênero neutro, terminado em E: presidente, presidenta, presidento; professore, professora, professoro. :-p

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    1. Bááá... eu tinha esquecido de responder aqui

      Tipo, eu sou meio que do time do "quanto mais melhor" quando o assunto é língua. Eu só normalmente não gosto das irregularidades... mas se as eliminassem eu estaria tri feliz com as nossas 4 conjugações (contando a do "pôr" que, apesar de posto na classe dos "er", é bem diferente deles).

      HUEHAUEHUAHE... mas, eu gostei dessa outra idéia maluca ali. Admito que a idéia de ter um "neutro" sempre teve um certo "apelo" (appeal?) pra mim. EE, tipo, sinceramente, a única coisa que impede de o termos é a falta de palavras pra "se tornar" as neutras. Mas se tivéssemos um nicho em que as pessoas estivessem dispostas a "gerar" palavras neutras duvido que a coisa não funfasse [aliás, eu ainda creio que "funfar" vai virar o novo "funcionar"].

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