10 de ago de 2013

Coisas aleatórias, O "E gaudério" e... uma viagem minha (?)

Um conhecido um tempo atrás me chamou a atenção para o quanto o E aparece nas nossas palavras mais gaudérias. Enquanto conversando sobre isso com um outro amigo, ele o chamou de "E gaudério", e o título dessa publicação [tradução de "post" pelo Facebook] é uma referência a isso.

Dois dias atrás, achei meu tio na cozinha de casa preparando doce de pêssego com iogurte. Xinguei-o, porque achei a combinação bizarra, no que meu tio me retrucou dizendo que eu era muito "reclamento". "Reclamento"? Apesar de a palavra parecer perfeitamente aceitável [pelo menos pra mim], me fez perceber/concluir/supor (?) algumas coisas que achei que valiam a pena comentar aqui.


A presença do "E gaudério"

A primeira delas, e mais importante, era a presença do "E gaudério". Ora, se o verbo era "reclamar", o esperado seria que eu fosse "reclamante", não? Bem, não é o que me parece acontecer no "dialeto interiorano" [só uma tentativa de outra forma de dizer "gaudério" sem dizê-lo u.u]. A seguir, seguem alguns exemplos que o meu conhecido usou:

Quando uma pessoa fala demais, ela é bem faladeira. Se ela e outra brigam, então fazem um brigueiro. O brigueiro tem outro nome -- que minha avó usa bastante: um entrevero [esse definitivamente sem um "i" antes do "r"]. E, quando pedem desculpa um pro outro, fazem uma choradeira.

Tenho certeza de que tem muitas outras palavras com esse "E" mágico em que eu não consegui pensar. Enquanto pensava nessas acima, porém, lembrei de mais algumas que não tem o E:

O nome daquela agüinha que fica na sacola do lixo eu tenho por "churríu" [que também é o nome da água que se "expele" quando se está com diarréia... HUEHAUEHAUHE]; quanto tem muito mosquito demais, minha mãe alterna entre "Que mosquital!", "Que mosquitama!" e "Que mosquitume!".

[por acaso, olhei esse "dicionário" e, bem, no início parecia que nem tinha tanto E, mas as palavras mais do fim meio que pareceram concordar com essa sugestão de que "ter E engaucheia as palavras"]


A presença de um "Particípio Presente Ativo"

A segunda delas ainda vai merecer uma postagem por si só, mas vou fazer um comentário sobre o assunto aqui.

Nos últimos tempos, andei lendo um pouco sobre as conjugações dos verbos em latim. Finalmente entendi por que o verbo não é referido pelo infinitivo como em português: os verbos em latim têm mais de um infinitivo v_V O normal, daí, é aquela forma "amo" [não consegui pôr a "tenuta" em cima do o D=], em vez de "amare".

Como já provavelmente sabeis, meu conhecimento é todo dependente de wikipedia (e wiktionary) e, bem, não é lá muito aprofundado. Assim, o tal de "particípio presente ativo" foi só o nome a que cheguei graças às tabelas de conjugações apresentadas no wiktionary. Anyways, quando o assunto é latim, essas fontes me parecem bem completas [mas, óó, denovo: não sou lá um bom conhecedor do assunto].

(daqui à frente, passarei a chamá-lo de "particípio presente", já que é assim que o wiktionary chama a mesma construção nas tabelas dos verbos em italiano)

Mas o que que é o tal "particípio presente", afinal? Definir agora me é difícil, mas posso exemplificar: cantante, amante, crescente, nascente, constituinte, pedinte. Essas "formas" não aparecem nas nossas tabelas de verbos do português, apesar de usadas o tempo todo. Apesar de derivadas de verbos, em português elas tomam o lugar de adjetivos ("Que criança irritante!") e substantivos ("Viajantes deixavam e chagavam a todo momento"). Em alemão, aprendi que esses particípios se chamam "Partizip I" [e, aliás, foram o grande motivador de eu ter ido atrás da sua versão em latim: não aceitei que o alemão pudesse ter um nome pra essa estrutura e o latim não u.u].

No exemplo do meu tio, "reclamento" seria uma variação da palavra "reclamante". Até aí tudo bem. Mas algo me chama a atenção: "reclamento" concorda em gênero!

Desde que a presidenta Dilma tomou posse, uma discussão sem sentido sobre a existência da concordância dos particípios presentes em gênero tomou conta da mídia. A palavra presidenta já tinha sido usada até mesmo no século XIX. Mesmo assim, jornalistas Brasil afora saíram discutindo sobre a corretude dessa palavra. Nós gaúchos, como eu tive o prazer de constatar, já estávamos eras à frente, concordando desde sempre em gênero nossos "particípios presentes" (lol not -- mas isso bem que dava uma matéria nO Bairrista n_n).


Só mais um devaneio

Tá... mudando dos paus pra canoa... quero falar do "bá".

O nosso "bá" frequentemente adquire valores diferentes conforme a vogal usada. Apesar de oficialmente o chamarmos de "bá", em referência a "barbaridade", daonde a palavra [muito provavelmente] saiu, a vogal é flexível, podendo ser trocada por qualquer outra (o que inclusive nos fazia, quando estávamos na Alemanha, dizer que o "Bá" era a expressão mais polivalente da nossa língua portuguesa no sul do Brasil). "Bó... xingou a mãe", "Biii... fudeu", ou "Bããã" saem toda hora, e ao menos da minha parte são inevitáveis.

Tem um bá que me surpreende, mesmo assim, e que cada vez mais tenho ouvido: um "Bäi" [a vogal fica entre o "a" e o "e", e indica que algo não deu certo ou algo ruim ocorreu -- tipo um SegFault 10 minutos antes de terminar o prazo pra entregar um trabalho]. Uns colegas meus o tem inclusive escrito ultimamente, mas não usando o "ä" (porque, afinal, isso é bem cara de coisa minha), mas usando "e" no lugar. Problema é que durante a fala, o "e" não representa bem o som, e inclusive soa muito errado só dizer "bei". O "e" precisa de uma "componente" de "a", e, bem, não faz parte da língua.

E aí é que entra o meu devaneio! Eu gosto de enxergar língua como moda. Se alguém influente sai usando alguma palavra então é muito mais provável que ela caia na boca dos outros; se alguém nem tão importante a sai usando, chances são de que ela nem seja lembrada em algum tempo. Quanto aos sons, eu gosto de pensar que um som numa língua permanece nela enquanto houver bastantes palavras que o preservem. Se temos somente uma palavra com certo som, então provavelmente ele não seja considerado parte da língua; mas e se o puséssemos em várias palavras novas? E se as pessoas quisessem usá-lo por qualquer motivo? (se fosse "fashion", seguindo a analogia da moda -- regionalismo gaúcho poderia ser um aspecto útil) Fiquei pensando se não seria legal [apesar de impossível ou quase improvável] se pudéssemos inserir esse novo som à nossa língua.

Enfim... enfim... a moral é que eu não gosto de ver meus colegas escrevendo "bei" e ficaria mais satisfeito se tivéssemos uma letra/diacrítico pra representar esse som em especial. Garanto que "bá" não é a única palavra em que esse tipo de coisa acontece, apesar de não ter qualquer outro exemplo no momento.

Mas isso é só um devaneio u.u

R$

2 comentários:

  1. Homem, todo o mundo sabe que um monte de mosquito é uma "mosquitaiada", e um monte de mosca é um "mosqueiro" ou um "moscaredo". :P

    E embora a palavra aparentemente não esteja dicionarizada, meus instintos ortográficos pedem para avisar que eles preferem "churrio", com 'o'. :P

    Nunca tinha me ligado que esse -ento era aparentado do particípio presente. Faz sentido.

    Nunca ouvi esse "bäi" lendário, mas já ouvi um "bãi" antes. Também não me lembro de ter ouvido ninguém pronunciar nada com essa vogal (que eu imagino que seja [æ]). Sei que *eu* às vezes pronuncio "dez" e "sete" como [dæs] e [sætʃ] dependendo do contexto, mas nunca vi mais ninguém fazer isso. :P

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    1. Isso... "moscaredo" é um ótimo exemplo desse E que aparece em tudo que é lugar.

      EE... sim... é aquele æ ali mesmo que eu quis dizer. A moral é que o alemão me influencia a querer colocar trema nas vogais quando elas são uma mistura com o som do "e", mas aquele "æ" ali certamente representa melhor o que eu quis dizer.

      Eu vejo que os portugueses usam esse som quando o "e" vem seguido de "i", como em "Seyia", que parece "Saia":

      https://www.youtube.com/watch?v=1kqwp62rRR4

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