Esses dias, enquanto lendo sobre a gramática do latim, descobri que a língua tinha 4 conjugações. As 3 conjugações "oficiais" do português são derivadas diretamente delas: ar, er e ir.
O que eu não esperava descobrir era essa página, que falava sobre a existência de uma quarta conjugação, que foi extinta em 1959. A partir de então, passou-se a ensinar nas escolas que os verbos terminados em or faziam parte da segunda conjugação. O motivo é que o verbo pôr deriva do verbo ponere, que ao longo do tempo virou poer (evisto [i.e., evidenciado] inclusive pelo seu particípio presente poente), fazendo parte da segunda conjugação.
Como verbos monossilábicos no português já tendem a ser irregulares por natureza, fazia sentido simplesmente acrescer o pôr ao grupo e esquecer de mais um enorme conjunto de regras que o falante nativo, apesar de saber, acha que não sabe e tem que decorar v_V Dá pra ver que as variações do verbo pôr são bem produtivas (repor, compor, decompor, dispor, impor, supor, depor, expor, propor, ...), ou pelo menos já foram (se hoje não são). Quando mo ensinaram na escola, minha professora inclusive me fez crer
que realmente as terminações desses verbos eram as mesmas das dos verbos
terminados em er.
Nunca questionara... sempre aceitara isso como verdade. Até esses dias, quando sem querer escrevi o verbo dormor (em vez de dormir) e quis conjugá-lo, de brincadeira.
[agora pensando bem... como eu fui bocaberta durante todo esse tempo =S]
Enfim... para tornar o exemplo bem engolível, fiz inclusive uma tabela aqui (baseada fortemente na tabela do link que postei ali em cima) [ela é grande demais pra ver miudinha assim... então acho que o ideal é clicar nela].
Eu vislumbro a possibilidade de usar essa conjugação com qualquer radical (palavras como torpor, pavor, amor e calor poderiam quem sabe tornar-se verbos também), mas imagino o quão estranho deva soar aos ouvidos alheios xP
R$
21 de set. de 2013
20 de set. de 2013
Latim -- Primeira, segunda e terceira declinações
Achei que valeria a pena escrever um pouco sobre o meu processo de aprendizado. Nos últimos dias, antes de dormir, tenho passado quaisquer 10min tentando decorar [e achar lógica] nos grupos de declinações das palavras em latim.
[Caso não saibais o que são casos gramaticais (o que é nominativo, genitivo, dativo, acusativo ...), eu sugeriria ler a postagem que fiz quando estava aprendendo sobre sua existência e suas funcionalidades. Relendo agora notei algumas bobagens, mas acho que tá valendo. Ao menos não ficaríeis completamente perdidos]
Como comecei porque queria saber declinar direitinho a palavra thesaurus, acabei decorando a segunda declinação primeiro. Aqui, porém, começarei pela primeira, e explicarei a lógica que tento manter na minha mente na hora de decorar.
Substantivos que declinam segundo a primeira declinação são em sua grande maioria femininos. Algumas palavras masculinas relacionadas a ocupação (como poeta, agricola ou nauta), porém, também "adotaram" esse uso.
O Wiktionary ainda comenta sobre como a primeira declinação sugou algumas palavras do grego, e mostra tabelas com suas declinações. Porém, como as declinações dessas palavras, pelo que entendi, tendem a ser irregulares (e causar confusão ao aprendiz novo -- meu caso), acabei por ignorá-las temporariamente. Em todo caso, se encontrasse uma delas, declinaria de acordo com as regras em "stella", e suporia que o falante nativo [que já não mais existe, lol] seria capaz de entender.
Então, que lógica devo dizer que essas declinações seguem? Inicialmente, acho que me direis "nenhuma". Mas esperai até que eu apresente a segunda declinação, e aí muito mais sentido encontrareis.
Pois então? Que estamos esperando? Vamos à segunda declinação!
Em oposição à primeira declinação, composta primariamente por palavras femininas, substantivos na segunda declinação são normalmente ou neutros ou masculinos. Novamente, o Wiktionary comenta sobre a existência de palavras femininas vindas do grego que também declinam da mesma forma. Como eu sou principiante ainda, resolvi ignorá-las completamente.
Normalmente, o nominativo singular da segunda declinação termina em um (para neutros) e us (para masculinos). Mas isso me pareceu estar longe de ser a regra, e o Wiktionary inclusive apresenta os exemplos ager e puer.
Bom... finalmente cheguei a um ponto onde eu posso começar a achar lógica na minha decoreba. A existência de dois grupos de declinações que "se opõem" um ao outro me permite notar algumas regras. A primeira coisa a notar é a seguinte: olhai como os o's tornam-se a's na maioria das declinações, ao converter uma palavra do masculino para o feminino. A única exceção é o acréscimo de um e no dativo singular da primeira conjugação. Esse acréscimo, aliás, é a única diferença entre o dativo e o ablativo.
[diga-se de passagem, o Wiktionary inclusive comenta sobre como "filia" declina como "filiabus" no dativo -- ou seja, de acordo com outra regra --, só para fazer distinção entre "aos filhos" e "às filhas"]
Para saber o nominativo plural, normalmente olho para o genitivo singular. Exceto os nomes neutros, ambos normalmente são idênticos. Os nomes neutros, por sua vez, são ainda melhores: nominativos, acusativos e vocativos são idênticos \o/
Ainda cuidando os gêneros, notai como acusativos singulares declinam com "a vogal do gênero" + m, e como os plurais declinam idênticos ao português (exceto os nomes neutros -- leia o parágrafo acima).
Por fim, sobram vocativos (idênticos ao nominativo, fora o e da segunda declinação) e genitivos plurais (esses eu relacionei aos sufixos ário e ório do português [como em tributário -- ou seja, "de tributo" --, e classificatório -- ou seja, "de classificação"], que normalmente me indicam o caso genitivo).
...
Daí me vieram os nomes da terceira conjugação, e bagunçaram todas as minhas regras mentais. Ali, qualquer gênero é permitido, e o nominativo nem serve pra achar a raiz da palavra (já que é frequentemente diferente dos outros casos). Mesmo assim, ao menos ele sempre idêntico ao vocativo.
Se a letra "tema" da primeira conjugação era o a, e a da segunda era o o, na terceira conjugação ela definitivamente é o e. No acusativo, por exemplo, basta pegar a segunda declinação e substituir os o's por e's. O i do genitivo singular também vira e no nominativo plural; e o ablativo singular, que antes "combinava" com o português (e com o espanhol), agora também recebe um e pra diferenciar.
Agora, ambos masculinos e femininos declinam idênticos. Os neutros, por sua vez, seguem exatamente a mesma "regra" da segunda declinação: nominativos, acusativos e vocativos são idênticos, declinando em -a no plural.
Finalmente, dativos e ablativos ganham -ibus no plural -- o que pra mim tornou bastante óbvia a etimologia da palavra ônibus.
Algumas palavras na terceira declinação também recebem um i antes de algumas declinações. Se há alguma regra para descobrir quais palavras o fazem e quais não, não consegui descobrir. Pelo visto, será mais algo a decorar -- o que, admito, me é meio frustrante.
...
Daí perguntar-me-eis "e os adjetivos?"... afinal, adjetivos podem assumir qualquer gênero (concordando em gênero com o nome que modificam). De fato, o maior motivo por eu ter escrito tudo até aqui foi justamente a descoberta: os adjetivos declinam "igual"! Tomemos por exemplo o adjetivo veteranus (veterano):
Notai o escrito "Inflection: First/second declension". Isso significa que, para o gênero feminino, essa palavra segue a primeira declinação (igualzinho a stella, lá em cima), enquanto, para os gêneros masculino e neutro, ela segue a segunda declinação (igualzinho a dominus e forum, lá em cima). Tri, não?

Pelo que percebi, os particípios presentes (amante, andante, paciente, potente), quando "adjetivados", declinam, daí, de acordo com a terceira declinação (olhai aí do lado). Da tabela ali, dá inclusive pra ver daonde saiu o nosso particípio presente: até onde sei, ele é formado pelo "acusativo sem o m" (ignorai o "neutro", já que, até onde também sei, ele foi "droppado" bem cedo pelo "vulgus").
...
Bem, por enquanto, isso é "tudo" (tem mais algumas coisas, mas, enfim, eu ainda não to seguro quanto a se realmente as sei) que eu tenho aprendido até agora. Por enquanto, to deixando o francês de molho... mas eu já sei que sou assim: de tempos em tempos crio alguma coisa nova, me dedico totalmente a ela, até que enjôo e mudo pra outra. Passado algum tempo eu volto pra primeira coisa e me dedico affuuuu denovo... e aí me desenvolvo um pouco mais. Certamente não será diferente com essas línguas, apesar de eu duvidar da possibilidade de um dia ler tranquilamente em latim xP
Tomara que a postagem tenha sido interessante =)
R$
[Caso não saibais o que são casos gramaticais (o que é nominativo, genitivo, dativo, acusativo ...), eu sugeriria ler a postagem que fiz quando estava aprendendo sobre sua existência e suas funcionalidades. Relendo agora notei algumas bobagens, mas acho que tá valendo. Ao menos não ficaríeis completamente perdidos]
Como comecei porque queria saber declinar direitinho a palavra thesaurus, acabei decorando a segunda declinação primeiro. Aqui, porém, começarei pela primeira, e explicarei a lógica que tento manter na minha mente na hora de decorar.
Substantivos que declinam segundo a primeira declinação são em sua grande maioria femininos. Algumas palavras masculinas relacionadas a ocupação (como poeta, agricola ou nauta), porém, também "adotaram" esse uso.
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| (Fonte: Wiktionary) |
Então, que lógica devo dizer que essas declinações seguem? Inicialmente, acho que me direis "nenhuma". Mas esperai até que eu apresente a segunda declinação, e aí muito mais sentido encontrareis.
Pois então? Que estamos esperando? Vamos à segunda declinação!
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| (Fonte: Wiktionary) |
Normalmente, o nominativo singular da segunda declinação termina em um (para neutros) e us (para masculinos). Mas isso me pareceu estar longe de ser a regra, e o Wiktionary inclusive apresenta os exemplos ager e puer.
Bom... finalmente cheguei a um ponto onde eu posso começar a achar lógica na minha decoreba. A existência de dois grupos de declinações que "se opõem" um ao outro me permite notar algumas regras. A primeira coisa a notar é a seguinte: olhai como os o's tornam-se a's na maioria das declinações, ao converter uma palavra do masculino para o feminino. A única exceção é o acréscimo de um e no dativo singular da primeira conjugação. Esse acréscimo, aliás, é a única diferença entre o dativo e o ablativo.
[diga-se de passagem, o Wiktionary inclusive comenta sobre como "filia" declina como "filiabus" no dativo -- ou seja, de acordo com outra regra --, só para fazer distinção entre "aos filhos" e "às filhas"]
Para saber o nominativo plural, normalmente olho para o genitivo singular. Exceto os nomes neutros, ambos normalmente são idênticos. Os nomes neutros, por sua vez, são ainda melhores: nominativos, acusativos e vocativos são idênticos \o/
Ainda cuidando os gêneros, notai como acusativos singulares declinam com "a vogal do gênero" + m, e como os plurais declinam idênticos ao português (exceto os nomes neutros -- leia o parágrafo acima).
Por fim, sobram vocativos (idênticos ao nominativo, fora o e da segunda declinação) e genitivos plurais (esses eu relacionei aos sufixos ário e ório do português [como em tributário -- ou seja, "de tributo" --, e classificatório -- ou seja, "de classificação"], que normalmente me indicam o caso genitivo).
...
Daí me vieram os nomes da terceira conjugação, e bagunçaram todas as minhas regras mentais. Ali, qualquer gênero é permitido, e o nominativo nem serve pra achar a raiz da palavra (já que é frequentemente diferente dos outros casos). Mesmo assim, ao menos ele sempre idêntico ao vocativo.
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| (Fonte: Wiktionary) |
Agora, ambos masculinos e femininos declinam idênticos. Os neutros, por sua vez, seguem exatamente a mesma "regra" da segunda declinação: nominativos, acusativos e vocativos são idênticos, declinando em -a no plural.
Finalmente, dativos e ablativos ganham -ibus no plural -- o que pra mim tornou bastante óbvia a etimologia da palavra ônibus.
Algumas palavras na terceira declinação também recebem um i antes de algumas declinações. Se há alguma regra para descobrir quais palavras o fazem e quais não, não consegui descobrir. Pelo visto, será mais algo a decorar -- o que, admito, me é meio frustrante.
...
Daí perguntar-me-eis "e os adjetivos?"... afinal, adjetivos podem assumir qualquer gênero (concordando em gênero com o nome que modificam). De fato, o maior motivo por eu ter escrito tudo até aqui foi justamente a descoberta: os adjetivos declinam "igual"! Tomemos por exemplo o adjetivo veteranus (veterano):
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| (Fonte: Wiktionary) |

Pelo que percebi, os particípios presentes (amante, andante, paciente, potente), quando "adjetivados", declinam, daí, de acordo com a terceira declinação (olhai aí do lado). Da tabela ali, dá inclusive pra ver daonde saiu o nosso particípio presente: até onde sei, ele é formado pelo "acusativo sem o m" (ignorai o "neutro", já que, até onde também sei, ele foi "droppado" bem cedo pelo "vulgus").
...
Bem, por enquanto, isso é "tudo" (tem mais algumas coisas, mas, enfim, eu ainda não to seguro quanto a se realmente as sei) que eu tenho aprendido até agora. Por enquanto, to deixando o francês de molho... mas eu já sei que sou assim: de tempos em tempos crio alguma coisa nova, me dedico totalmente a ela, até que enjôo e mudo pra outra. Passado algum tempo eu volto pra primeira coisa e me dedico affuuuu denovo... e aí me desenvolvo um pouco mais. Certamente não será diferente com essas línguas, apesar de eu duvidar da possibilidade de um dia ler tranquilamente em latim xP
Tomara que a postagem tenha sido interessante =)
R$
16 de set. de 2013
Aprendendo latim
Então eu resolvi fazer o que já há tempos queria mas nunca tomara coragem para: aprender latim.
Na verdade, eu tenho certeza de que meus conhecimentos de latim acabarão não ficando melhores do que os poucos conhecimentos de francês que adquiri nos últimos 3 meses (bem poucos, ainda insuficientes pra uma conversa), mas pelo menos eu to me divertindo com as declinações. Enquanto houver declinações pra decorar e conjugações pra memorizar minha vida estará mais feliz.
Ao término de cada dia, tenho dedicado alguns 10min para repetir cuidadosamente as terminações de nomes em alguma declinação "alvo" que deseja memorizar. Como começara com tudo isso com o intuito de somente aprender a declinar "thesaurus" (tesouro), palavra que uso constantemente na minha "pesquisa" (aqui entre aspas porque tenho picuinhas com essa palavra xP -- e me sinto meio "inferior" pra chamar o que eu faço de pesquisa), acabei aprendendo a segunda declinação antes da primeira. Agora já decorei ambas (primeira e segunda) e estou estudando (na real, eu acho que já decorei... mas to inseguro ainda) a terceira.
Meu vocabulário em latim, aliás, também, é quase totalmente dependente do meu vocabulário em português... ou seja, portanto, extremamente limitado. Mas tá valendo: enquanto eu me divertir estará tri. No mais, as conjugações de verbo ainda também me confundem. Latim é "completo demais", na minha opinião, e nem aos passivos ele dá o luxo de serem perifrásicos (ou seja, mais coisa pra lembrar).
No mais, alguns particípios passados [aliás, isso me lembra que eu ainda não escrevi sobre os particípios aqui] são completamente irregulares (como pressus e lectus, que por acaso eu acabei lendo hoje), e a decoreba canta solta em mais esse aspecto da língua.
Enfim... essa postagem era mais pra dar um "update" do que tenho feito. Vai que algum leitor se empolga e resolve aprender alguma língua também xD Tenho uma lista até que bem grande de assuntos para escrever (verbos de segunda e terceira conjugação -- além de umas irregularidades dos de primeira --; minhas descobertas mágicas sobre os particípios; uma postagem sobre as tosqueiras do inglês; minha imagem sobre o alemão depois de ter começado com o latim; e talvez mais coisas que nem lembre agora).
R$
Na verdade, eu tenho certeza de que meus conhecimentos de latim acabarão não ficando melhores do que os poucos conhecimentos de francês que adquiri nos últimos 3 meses (bem poucos, ainda insuficientes pra uma conversa), mas pelo menos eu to me divertindo com as declinações. Enquanto houver declinações pra decorar e conjugações pra memorizar minha vida estará mais feliz.
Ao término de cada dia, tenho dedicado alguns 10min para repetir cuidadosamente as terminações de nomes em alguma declinação "alvo" que deseja memorizar. Como começara com tudo isso com o intuito de somente aprender a declinar "thesaurus" (tesouro), palavra que uso constantemente na minha "pesquisa" (aqui entre aspas porque tenho picuinhas com essa palavra xP -- e me sinto meio "inferior" pra chamar o que eu faço de pesquisa), acabei aprendendo a segunda declinação antes da primeira. Agora já decorei ambas (primeira e segunda) e estou estudando (na real, eu acho que já decorei... mas to inseguro ainda) a terceira.
Meu vocabulário em latim, aliás, também, é quase totalmente dependente do meu vocabulário em português... ou seja, portanto, extremamente limitado. Mas tá valendo: enquanto eu me divertir estará tri. No mais, as conjugações de verbo ainda também me confundem. Latim é "completo demais", na minha opinião, e nem aos passivos ele dá o luxo de serem perifrásicos (ou seja, mais coisa pra lembrar).
No mais, alguns particípios passados [aliás, isso me lembra que eu ainda não escrevi sobre os particípios aqui
Enfim... essa postagem era mais pra dar um "update" do que tenho feito. Vai que algum leitor se empolga e resolve aprender alguma língua também xD Tenho uma lista até que bem grande de assuntos para escrever (verbos de segunda e terceira conjugação -- além de umas irregularidades dos de primeira --; minhas descobertas mágicas sobre os particípios; uma postagem sobre as tosqueiras do inglês; minha imagem sobre o alemão depois de ter começado com o latim; e talvez mais coisas que nem lembre agora).
R$
8 de set. de 2013
Convertendo WMA para MP3 [on Linux xP]
[acho estranho que cada vez mais seja comum usar o gerúndio em nomes de tutoriais. Seguindo a onda, faço o mesmo v_V]
Eu descobri que tinha um CD dos Arautos do Rei no meu celular [a que eu tava tri a fim de ouvir] que o "Music" (o programa de ouvir música do Android) não conseguia ler: as músicas estavam no formato wma.
esse link que me ensinou a converter as músicas.
Eu não usei a linha de comando de lá porque, por algum motivo, simplesmente não funcionou. Aí tentei entender o que tá acontecendo e gerei a seguinte linha:
O que está acontecendo? Acho que é melhor destrinchar a linha em partes pra ficar mais claro:
Bom... em primeiro lugar, quem está convertendo os arquivos para mp3 é um programa chamado lame. Lá na man page dele dá pra ver vários exemplos de como converter arquivos pra mp3. Eu não sei se fiz a melhor escolha de opções, mas os arquivos que gerei [e a que estou ouvindo agora] parecem estar ok.
O problema é o seguinte: o lame não lê arquivos wma, mas sim wav. É pra isso que serve o mplayer, que através daquelas opções [sério, eu simplesmente usei as mesmas do link lá] gera um arquivo chamado audiodump.wav, legível pelo lame.
Por fim, o rm remove o arquivo.
Tomara que isso seja útil pra outrem como foi pra mim v_V
R$
Eu descobri que tinha um CD dos Arautos do Rei no meu celular [a que eu tava tri a fim de ouvir] que o "Music" (o programa de ouvir música do Android) não conseguia ler: as músicas estavam no formato wma.
esse link que me ensinou a converter as músicas.
Eu não usei a linha de comando de lá porque, por algum motivo, simplesmente não funcionou. Aí tentei entender o que tá acontecendo e gerei a seguinte linha:
mplayer -vo null -vc dummy -af resample=44100 -ao pcm:waveheader file.wma ; lame -h -V 6 audiodump.wav file.mp3 ; rm audiodump.wav
O que está acontecendo? Acho que é melhor destrinchar a linha em partes pra ficar mais claro:
mplayer -vo null -vc dummy -af resample=44100 -ao pcm:wa
veheader file.wma
lame -h -V 6 audiodump.wav file.mp3
rm audiodump.wav
Bom... em primeiro lugar, quem está convertendo os arquivos para mp3 é um programa chamado lame. Lá na man page dele dá pra ver vários exemplos de como converter arquivos pra mp3. Eu não sei se fiz a melhor escolha de opções, mas os arquivos que gerei [e a que estou ouvindo agora] parecem estar ok.
O problema é o seguinte: o lame não lê arquivos wma, mas sim wav. É pra isso que serve o mplayer, que através daquelas opções [sério, eu simplesmente usei as mesmas do link lá] gera um arquivo chamado audiodump.wav, legível pelo lame.
Por fim, o rm remove o arquivo.
Tomara que isso seja útil pra outrem como foi pra mim v_V
R$
1 de set. de 2013
Umas músicas de flauta doce
Eu andei ouvindo músicas de flauta doce nesse fim de semana, influenciado por um amigo meu. Não tendo onde guardá-las e querendo voltar a elas num futuro relativamente distante... deixo-as aqui, no caso de alguém mais querer também ouvi-las. Enfim... nada de muito especial v_V
R$
Pronomes Relativos -- Assimetria do "Quem"
Na minha última postagem eu disse que a próxima coisa sobre que falaria seria uma tal de "Assimetria do Quem". Cá estamos, então xP
Quando eu ainda tratava todas as palavras interrogativas como pronomes (e me perguntava por que algumas delas seriam, afinal, pronomes), um dos argumentos que eu me dava para que o fossem era o fato de que elas em geral poderiam ser usadas como pronomes relativos. Mas, calma, talvez não saibais o que sejam esses tais. Então, aqui vai uma explicação.
Do modo como eu vejo, pronomes relativos são um conjunto de palavras que ligam duas orações, de modo que um dos argumentos do verbo (ou seja, sujeito, objeto direto ou objeto indireto... ou mesmo adjunto adverbial) da segunda oração seja "extraído" da primeira.
Exemplo:
A menina estava feliz. A menina desenhava.
A menina que desenha estava feliz.
O pronome relativo mais comum é o que. Mas o qual não fica muito atrás, já que o que pode ser trocado pelo qual em quase todos os casos em que funciona como pronome relativo:
O menino jogava bola. O menino tinha ódio.
O menino que jogava bola tinha ódio.
O menino o qual jogava bola tinha ódio.
[bom, aqui tem uma questão de pontuação. Eu não sei como funciona. Tenho a impressão de que se eu pôr entre vírgulas a oração subordinada ela vai virar uma "oração subordinada adjetiva explicativa", em vez de permanecer como "oração subordinada adjetiva restritiva"... e isso não é o que eu quero. Daqui a pra frente, ignorarei essa questão, que "está fora do escopo dessa publicação" -- anyways, em alemão isso estaria entre vírgulas sem dúvida]
Diferentemente do que, o qual concorda em gênero e em número, e ainda exige um outropronome (pessoal oblíquo, creio) (o vbuaraujo me fez notar que provavelmente seja um artigo) o antecedendo.
O menino o qual jogava bola tinha ódio.
As meninas as quais jogava bola eram masculinizadas.
Nessas frases, o pronome relativo aparece como sujeito da oração subordinada. Quem tinha ódio? O menino! Quem estava feliz? A menina! ... Mas a oração subordinada pode usar o pronome relativo para tornar em objeto direto o argumento "sugado" da primeira oração:
O lápis quebrou. O menino entregou o lápis à menina.
O lápis que o menino entregou à menina quebrou.
O lápis o qual o menino entregou à menina quebrou.
Apesar de a diferença me parecer sutil em português, ela é gritante em alemão [na real, nem tanto: só no masculino], onde a declinação se torna diferente do sujeito pra o objeto.
Uma última possibilidade, é usar um argumento da primeira oração como objeto indireto da segunda oração (e aqui as coisas ficam um pouco mais complicadas). O "gramatical" (i.e., o "certo") seria fazermos o seguinte:
A guria invocou a lei Maria da Penha. A cara da guria foi arrebentada.
A guria da qual a cara foi arrebentada invocou a lei Maria da Penha.
O guri foi pro hospital. O pé do guri se quebrou.
O guri do qual o pé se quebrou foi pro hospital.
Esse é o obstáculo. Eu devo passar por esse obstáculo.
Esse é o obstáculo por que eu devo passar.
Esse é o obstáculo pelo qual eu devo passar.
Nos dois primeiros exemplos acima, eu não pus a versão com que por um motivo: ela me soa mal, e o que a gente acaba fazendo é pôr um quem no lugar. E isso está relacionado à tal "assimetria" título dessa postagem... mas eu chegarei lá:
A guria de *que a cara foi arrebentada invocou a lei Maria da Penha.
O guri de *que o pé se quebrou foi pro hospital.
Algo que direto acontece é omitirmos a preposição quando o contexto não é ambíguo (acontece especialmente com as preposições a, de e em) e adicionarmos um novo pronome oblíquo:
O guri que o pé [dele] rachou já foi pro hospital.
O apartamento que eu fui ontem era tri bom.
E isso gera algumas coisas muito estranhas:
Aquele é um cara legal com quem conversar.
Aquele é um cara legal de conversar [com ele].
Essa é uma tecnologia boa junto da qual trabalhar.
Essa é uma tecnologia boa de trabalhar junto [com ela]. [frase verídica]
[mas eu tava tentando "dividir" essas orações e não consegui... então talvez haja algo que eu não entenda aí no meio. O problema pra mim é o infinitivo ali]
Continuando... eu gosto de pensar que a declinação em genitivo do que (através da qual a preposição de passa a ser desnecessária) é o cujo. De fato, durante as aulas de alemão, toda vez que um pronome relativo estava declinado no genitivo, era possível utilizar cujo (e variações) na tradução. O cujo funciona como artigo na oração subordinada, e corcorda em gênero e número exatamente como um.
A guria, cuja cara foi arrebentada, invocou a lei Maria da Penha.
O guri, cujo pé se quebrou, foi pro hospital.
Existe ainda o de/por/para/sobre/... cujo, ou seja, o caso em que a oração subordinada se refere a algo que é do elemento extraído, e o põe no objeto indireto. Mesmo assim, essa opção já está morta na fala, e, por isso, listo formas alternativas a ela logo abaixo.
Essa é a menina. Eu te falei sobre o vestido da menina.
Essa é a menina sobre cujo vestido te falei.
Essa é a menina sobre o vestido de quem eu te falei.
Essa é a menina de quem eu te falei sobre o vestido [dela].
Essa é a menina que eu te falei sobre o vestido [dela]. [popular]
Um último detalhe, antes de extendermos o nosso conjunto de pronomes relativos: há algumas orações principais onde o argumento é justamente a oração subordinada (daí a oração subordinada é "substantiva", até onde eu lembro). Nesses casos, um pronome (pessoal oblíquo?) aparece na oração principal pra servir de "gancho" pra subordinada. É engraçado que nesses casos o que me parece substituível não pelo qual, mas pelo aquele/aquilo. Nos exemplos a seguir, o pronome aparece em vermelho:
Tu vais ver 3 luzes. A [luz] que estiver piscando é boa. [sujeito]
Essa arma é a [arma] que matou minha mãe. [obj. direto]
Tu vais ver 3 luzes. Olha pra [luz] que estiver piscando. [obj. indireto]
E isso explica o funcionamento do o que:
O que eu não quero ver é a sua cara nunca mais.
Bom... cansei. Acho que já expliquei bem (se é que eu sei realmente do que to falando) o que são esses tais pronomes. Se quiserdes mais infos, uma explicação mais "profissional" do assunto se encontra aqui:
Ok. O que acontece agora? Extenderemos o nosso conjunto de pronomes relativos! No início da postagem, eu disse que as "palavras interrogativas" também agiam normalmente como pronomes relativos. Pois bem, aqui vão alguns exemplos:
Gostava daquele tempo, quando me alimentava a base de doce. [em que]
Esse foi o jeito como eu resolvi o problema. [através do que (?)]
Ontem fui a um apartamento, onde deixei meu cachorro. [em que]
Mas [e agora chegamos ao ponto onde eu queria chegar] tem um pronome que me parece não dar certo. Simplesmente, não é usado... e me soa muito mal aos ouvidos: o quem. Em inglês [e alemão?], por outro lado, soa perfeitamente ok:
A vida do homem era triste. O homem atirava de metralhadora.
A vida do homem *quem atirava de metralhadora era triste.
The life of the man who shot with a machinegun was sad.
E tem mais. Quando ele aparece no objeto indireto (ou seja, quando o pronome relativo espera uma preposição), é o que que soa errado:
As pessoas passeavam pela rua. As vidas das pessoas foram arrancadas.
As pessoas *de que as vidas foram arrancadas passeavam pela rua.
Eu ainda não consegui pensar bem sobre quando o quem substitui um sujeito, mas eu tenho a impressão de que há frases em que a coisa dá certo e há frases em que não:
Eu tomei café. Eu fiz bagunça.
Eu, que fiz bagunça, tomei café.
Eu, *quem fez bagunça, tomei café. [?]
Fui eu quem destruiu a cafeteira.
Enfim. Tudo isso pra falar meia dúzia de palavras sobre o quem. Espero que essa postagem sirva pra ajudar-vos com pronomes relativos, caso não vos interessais pela tal da "Assimetria do Quem" (na verdade, agora, pensando melhor, talvez seria melhor chamar de "Não-hortogonalidade do Quem", não?).
R$
Quando eu ainda tratava todas as palavras interrogativas como pronomes (e me perguntava por que algumas delas seriam, afinal, pronomes), um dos argumentos que eu me dava para que o fossem era o fato de que elas em geral poderiam ser usadas como pronomes relativos. Mas, calma, talvez não saibais o que sejam esses tais. Então, aqui vai uma explicação.
Do modo como eu vejo, pronomes relativos são um conjunto de palavras que ligam duas orações, de modo que um dos argumentos do verbo (ou seja, sujeito, objeto direto ou objeto indireto... ou mesmo adjunto adverbial) da segunda oração seja "extraído" da primeira.
Exemplo:
A menina estava feliz. A menina desenhava.
A menina que desenha estava feliz.
O pronome relativo mais comum é o que. Mas o qual não fica muito atrás, já que o que pode ser trocado pelo qual em quase todos os casos em que funciona como pronome relativo:
O menino jogava bola. O menino tinha ódio.
O menino que jogava bola tinha ódio.
O menino o qual jogava bola tinha ódio.
[bom, aqui tem uma questão de pontuação. Eu não sei como funciona. Tenho a impressão de que se eu pôr entre vírgulas a oração subordinada ela vai virar uma "oração subordinada adjetiva explicativa", em vez de permanecer como "oração subordinada adjetiva restritiva"... e isso não é o que eu quero. Daqui a pra frente, ignorarei essa questão, que "está fora do escopo dessa publicação" -- anyways, em alemão isso estaria entre vírgulas sem dúvida]
Diferentemente do que, o qual concorda em gênero e em número, e ainda exige um outro
O menino o qual jogava bola tinha ódio.
As meninas as quais jogava bola eram masculinizadas.
Nessas frases, o pronome relativo aparece como sujeito da oração subordinada. Quem tinha ódio? O menino! Quem estava feliz? A menina! ... Mas a oração subordinada pode usar o pronome relativo para tornar em objeto direto o argumento "sugado" da primeira oração:
O lápis quebrou. O menino entregou o lápis à menina.
O lápis que o menino entregou à menina quebrou.
O lápis o qual o menino entregou à menina quebrou.
Apesar de a diferença me parecer sutil em português, ela é gritante em alemão [na real, nem tanto: só no masculino], onde a declinação se torna diferente do sujeito pra o objeto.
Uma última possibilidade, é usar um argumento da primeira oração como objeto indireto da segunda oração (e aqui as coisas ficam um pouco mais complicadas). O "gramatical" (i.e., o "certo") seria fazermos o seguinte:
A guria invocou a lei Maria da Penha. A cara da guria foi arrebentada.
A guria da qual a cara foi arrebentada invocou a lei Maria da Penha.
O guri foi pro hospital. O pé do guri se quebrou.
O guri do qual o pé se quebrou foi pro hospital.
Esse é o obstáculo. Eu devo passar por esse obstáculo.
Esse é o obstáculo por que eu devo passar.
Esse é o obstáculo pelo qual eu devo passar.
Nos dois primeiros exemplos acima, eu não pus a versão com que por um motivo: ela me soa mal, e o que a gente acaba fazendo é pôr um quem no lugar. E isso está relacionado à tal "assimetria" título dessa postagem... mas eu chegarei lá:
A guria de *que a cara foi arrebentada invocou a lei Maria da Penha.
O guri de *que o pé se quebrou foi pro hospital.
Algo que direto acontece é omitirmos a preposição quando o contexto não é ambíguo (acontece especialmente com as preposições a, de e em) e adicionarmos um novo pronome oblíquo:
O guri que o pé [dele] rachou já foi pro hospital.
O apartamento que eu fui ontem era tri bom.
E isso gera algumas coisas muito estranhas:
Aquele é um cara legal com quem conversar.
Aquele é um cara legal de conversar [com ele].
Essa é uma tecnologia boa junto da qual trabalhar.
Essa é uma tecnologia boa de trabalhar junto [com ela]. [frase verídica]
[mas eu tava tentando "dividir" essas orações e não consegui... então talvez haja algo que eu não entenda aí no meio. O problema pra mim é o infinitivo ali]
Continuando... eu gosto de pensar que a declinação em genitivo do que (através da qual a preposição de passa a ser desnecessária) é o cujo. De fato, durante as aulas de alemão, toda vez que um pronome relativo estava declinado no genitivo, era possível utilizar cujo (e variações) na tradução. O cujo funciona como artigo na oração subordinada, e corcorda em gênero e número exatamente como um.
A guria, cuja cara foi arrebentada, invocou a lei Maria da Penha.
O guri, cujo pé se quebrou, foi pro hospital.
Existe ainda o de/por/para/sobre/... cujo, ou seja, o caso em que a oração subordinada se refere a algo que é do elemento extraído, e o põe no objeto indireto. Mesmo assim, essa opção já está morta na fala, e, por isso, listo formas alternativas a ela logo abaixo.
Essa é a menina. Eu te falei sobre o vestido da menina.
Essa é a menina sobre cujo vestido te falei.
Essa é a menina sobre o vestido de quem eu te falei.
Essa é a menina de quem eu te falei sobre o vestido [dela].
Essa é a menina que eu te falei sobre o vestido [dela]. [popular]
Um último detalhe, antes de extendermos o nosso conjunto de pronomes relativos: há algumas orações principais onde o argumento é justamente a oração subordinada (daí a oração subordinada é "substantiva", até onde eu lembro). Nesses casos, um pronome (pessoal oblíquo?) aparece na oração principal pra servir de "gancho" pra subordinada. É engraçado que nesses casos o que me parece substituível não pelo qual, mas pelo aquele/aquilo. Nos exemplos a seguir, o pronome aparece em vermelho:
Tu vais ver 3 luzes. A [luz] que estiver piscando é boa. [sujeito]
Essa arma é a [arma] que matou minha mãe. [obj. direto]
Tu vais ver 3 luzes. Olha pra [luz] que estiver piscando. [obj. indireto]
E isso explica o funcionamento do o que:
O que eu não quero ver é a sua cara nunca mais.
Bom... cansei. Acho que já expliquei bem (se é que eu sei realmente do que to falando) o que são esses tais pronomes. Se quiserdes mais infos, uma explicação mais "profissional" do assunto se encontra aqui:
Ok. O que acontece agora? Extenderemos o nosso conjunto de pronomes relativos! No início da postagem, eu disse que as "palavras interrogativas" também agiam normalmente como pronomes relativos. Pois bem, aqui vão alguns exemplos:
Gostava daquele tempo, quando me alimentava a base de doce. [em que]
Esse foi o jeito como eu resolvi o problema. [através do que (?)]
Ontem fui a um apartamento, onde deixei meu cachorro. [em que]
Mas [e agora chegamos ao ponto onde eu queria chegar] tem um pronome que me parece não dar certo. Simplesmente, não é usado... e me soa muito mal aos ouvidos: o quem. Em inglês [e alemão?], por outro lado, soa perfeitamente ok:
A vida do homem era triste. O homem atirava de metralhadora.
A vida do homem *quem atirava de metralhadora era triste.
The life of the man who shot with a machinegun was sad.
E tem mais. Quando ele aparece no objeto indireto (ou seja, quando o pronome relativo espera uma preposição), é o que que soa errado:
As pessoas passeavam pela rua. As vidas das pessoas foram arrancadas.
As pessoas *de que as vidas foram arrancadas passeavam pela rua.
Eu ainda não consegui pensar bem sobre quando o quem substitui um sujeito, mas eu tenho a impressão de que há frases em que a coisa dá certo e há frases em que não:
Eu tomei café. Eu fiz bagunça.
Eu, que fiz bagunça, tomei café.
Eu, *quem fez bagunça, tomei café. [?]
Fui eu quem destruiu a cafeteira.
Enfim. Tudo isso pra falar meia dúzia de palavras sobre o quem. Espero que essa postagem sirva pra ajudar-vos com pronomes relativos, caso não vos interessais pela tal da "Assimetria do Quem" (na verdade, agora, pensando melhor, talvez seria melhor chamar de "Não-hortogonalidade do Quem", não?).
R$
31 de ago. de 2013
Pronomes e Advérbios interrogativos
Agora há pouco, resolvi escrever aqui. A idéia era falar sobre um assunto que me chamou a atenção esses dias, a que eu dei o nome de "Assimetria do Quem"; mas acabou que eu "abri" toda uma nova "lata de vermes" quando, enquanto procurando por informações sobre o "quem" (que entra na classificação de "pronome interrogativo" em português), descobri que se faz uma certa distinção entre "Advérbios Interrogativos" e "Pronomes Interrogativos".
Os Advérbios Interrogativos são os seguintes:Quando, como, onde, por que
Os Pronomes Interrogativos são os seguintes:
Quanto, qual, o que, quem
Qual a diferença? Afinal, todas essas palavras podem começar perguntas e soar como se tivessem simplesmente a mesma "classe" gramatical. Exemplos:
Quem é aquela ali?
Quando é que ela vem?
Qual teu nome mesmo?
Como vai você?
(enquanto procurando pela diferença, encontrei esses videos desse professor -- pelo sotaque deve ser gaúcho u.u --, que pareceram bem bons até... apesar de inúteis para meus propósitos: )
Mas, enfim, depois de um pouco mais procurar, encontrei esse link. Percebi que essa distinção entre as duas classes resolve justamente um problema que eu tinha com as palavras que aprendi participarem da classe dos "advérbios relativos": elas não substituem nada! Explico...
A minha definição de pronome, desde o início, era perfeitamente expressável pela frase "Pronomes são palavras que substituem nomes" (a idéia que eu tinha era mais ou menos essa). Estudava pronomes tendo isso como verdade, e tudo sempre deu muito certo para os pessoais. Mas ao chegar nos indefinidos, tudo descambava para algo como "essas palavras são pronomes deal with it". Nos últimos tempos, comecei a notar que onde, como, quando e por que não substituíam nada em início de pergunta... mas os tinha como pronome por um simples motivo: tampouco o faz a classe dos pronomes possessivos (conforme eu pensava -- na minha cabeça, os pronomes possessivos são simplesmente a "declinação dos pessoais no genitivo"). Mas aí andei notando que a função dos pronomes possessivos é a mesma dos demonstrativos: não necessariamente substituir, mas especificar. Frases como
O casaco que comprei e de que agora sou dono escolheu.
, quando em contextos em que toda essa informação em azul é desnecessária, podem ser reescritas assim:
O meu casaco encolheu.
Este casaco encolheu.
Essa nova "função" dos pronomes me tornou inseguro quanto à classe, e eu tinha meio que aquela idéia de que "se eu não sei, então deve ser pronome". Aliás, me perguntando agora sobre o motivo de eu considerar aquelas quatro palavrinhas como pronomes, duas possibilidades me vêm à mente:
E, aliás, um tempo atrás eu comentei sobre algumas palavras simplesmente não exigirem cópula. O conjunto delas me pareceu justamente restrito ao dos Pronomes Interrogativos (tá tá... fora o cadê, que é mágico -- aliás, acho que o "novo" cadê será o xo, como contração de "deixa eu").
Enfim... eras isso. Numa próxima vez eu escrevo sobre a tal "Assimetria do Quem".
R$
Os Advérbios Interrogativos são os seguintes:Quando, como, onde, por que
Os Pronomes Interrogativos são os seguintes:
Quanto, qual, o que, quem
Qual a diferença? Afinal, todas essas palavras podem começar perguntas e soar como se tivessem simplesmente a mesma "classe" gramatical. Exemplos:
Quem é aquela ali?
Quando é que ela vem?
Qual teu nome mesmo?
Como vai você?
(enquanto procurando pela diferença, encontrei esses videos desse professor -- pelo sotaque deve ser gaúcho u.u --, que pareceram bem bons até... apesar de inúteis para meus propósitos: )
Mas, enfim, depois de um pouco mais procurar, encontrei esse link. Percebi que essa distinção entre as duas classes resolve justamente um problema que eu tinha com as palavras que aprendi participarem da classe dos "advérbios relativos": elas não substituem nada! Explico...
A minha definição de pronome, desde o início, era perfeitamente expressável pela frase "Pronomes são palavras que substituem nomes" (a idéia que eu tinha era mais ou menos essa). Estudava pronomes tendo isso como verdade, e tudo sempre deu muito certo para os pessoais. Mas ao chegar nos indefinidos, tudo descambava para algo como "essas palavras são pronomes deal with it". Nos últimos tempos, comecei a notar que onde, como, quando e por que não substituíam nada em início de pergunta... mas os tinha como pronome por um simples motivo: tampouco o faz a classe dos pronomes possessivos (conforme eu pensava -- na minha cabeça, os pronomes possessivos são simplesmente a "declinação dos pessoais no genitivo"). Mas aí andei notando que a função dos pronomes possessivos é a mesma dos demonstrativos: não necessariamente substituir, mas especificar. Frases como
O casaco que comprei e de que agora sou dono escolheu.
, quando em contextos em que toda essa informação em azul é desnecessária, podem ser reescritas assim:
O meu casaco encolheu.
Este casaco encolheu.
Essa nova "função" dos pronomes me tornou inseguro quanto à classe, e eu tinha meio que aquela idéia de que "se eu não sei, então deve ser pronome". Aliás, me perguntando agora sobre o motivo de eu considerar aquelas quatro palavrinhas como pronomes, duas possibilidades me vêm à mente:
- Todas elas são wh-cognatas (e, bem, qu-cognatas, quando comparado ao latim); ou
- Todas as quatro podem funcionar como pronomes relativos.
E, aliás, um tempo atrás eu comentei sobre algumas palavras simplesmente não exigirem cópula. O conjunto delas me pareceu justamente restrito ao dos Pronomes Interrogativos (tá tá... fora o cadê, que é mágico -- aliás, acho que o "novo" cadê será o xo, como contração de "deixa eu").
Enfim... eras isso. Numa próxima vez eu escrevo sobre a tal "Assimetria do Quem".
R$
26 de ago. de 2013
Improdutivos
Um tempo atrás, andei paranóico sobre a "não-produtividade" na formação de palavras dos verbos da segunda (er) e terceira (ir) conjugações. Posto de forma mais simples, estava incomodado com como, ao criar um novo verbo (normalmente com base em verbos de outras línguas -- frequentemente do inglês), tendíamos a utilizar a primeira conjugação (ar) e a simplesmente achar estranhas as versões com er ou ir.
Por exemplo, suponha que tenhamos o verbos refresh e queiramos criar um novo verbo com base nele. O natural hoje é que o chamemos de refreshar, e que versões como refresher ou refreshir soem bizarras.
Ao longo de um bom tempo, andei tentando evitar gerar verbos de primeira conjugações, e até que encontrei alguns casos em que pude fazê-lo sem problemas. Um exemplo é a terminação ecer, que funciona bem com verbos que envolvem "transformação", e normalmente os torna [facultativamente] reflexivos (aliás, isso me causou concluir que o verbo agradecer deveria no mínimo poder ser reflexivo... mas isso aí já é outra história). Palavras como emburrecer e embravecer (tá tá, acho que essas até que se usa normalmente, né?) são exemplos. Startecer seria um bom exemplo de algo vindo do inglês. Percebi que, quando estou bravo e quero dizer que alguém fez alguma burrada, digo que essa pessoa já"alguma_coisa_grande_e_brava_e_bizarra"-lheceu tudo já.
Tendo a pensar que foi essa "forçação" na criação de palavras que me tornou menos resistente a novos verbos com outras conjugações, já que me fez ouvir bem mais algo que antes me incomodava aos ouvidos. E é bastante por ter me acostumado a aceitar até que bem essas novas regras que eu creio que seria possível, talvez, ainda, fazer com que outros também o façam.
Mesmo assim, por algum motivo, tem algumas palavras que, apesar de raras, simplesmente já me soavam melhores na segunda conjugação desde o início. Um bom exemplo foi o verbo merger, que gerei a partir de uma tradução direta da palavra merge em inglês (que ironicamente normalmente é traduzida pra um verbo de primeira conjugação, a saber, mesclar). Outro exemplo é apender (sei lá, talvez tenha soado parecido com aprender (?)), que ironicamente tem uma versão em italiano, apesar de eu o ter gerado com base no verbo append, em inglês.
Bom... algo que também percebi com esse "esforço" foi que tem alguns particípios que aos meus ouvidos simplesmente não causam dano algum ao trocar um "a" por um "i". Um bom exemplo é ressequido, que minha vó vive usando. Ora... se existe um ressequido, por que não existir um verbo ressequir? Outra palavra foi desboquida (sem boca), que me parece até fazer sentido existir pra fazer oposição a desbocada (que só fala palavrão).
É claro que essa regra não funciona muito bem pra _muitos_ verbos. Trocar o "a" pelo "i" em particípios como sentado, amado, falado, pulado ou provado não funciona muito bem. Mesmo assim, é verdade que me acostumei a gerar novos verbos com "ir" toda vez que uma palavra do inglês me é emprestada. Verbos como refuse e request, dos quais a tradução normalmente não me vem à mente, são vítimas diretas desse tipo de generalização. Algumas até me agradam, como load (nunca gostei de "loadear").
[agora eu tava pensando que talvez enir fosse um fim bom pra criar coisas novas, como writenir, drivenir ou rulenir........ mas talvez seja só bom pra mim mesmo v_V]
É claro que meu objetivo não é eliminar completamente a produtividade da primeira conjugação... e por isso eu de vez em quando me obrigo a aceitar que simplesmente a tradução de algo possa receber um "ar". Também, nada me impediria de gerar verbos em conjugações que a gente ainda não tem -- meus exemplos preferidos seriam transeur e conteur, relacionados a transeunte e conteúdo, respectivamente.
Plot twist... (?)
Ok ok... essa postagem já estava há tempos pra ser escrita e nunca era publicada. Minha paranóia durou bastante tempo, mas eu nunca tinha tomado "boa vontade" de vir aqui e escrever tudo isso [ou, se o tinha feito, não lembro]. Mas algo me ocorreu umas duas semanas atrás: o que aconteceria se, em vez de pegar palavras do inglês, como estou acostumado a fazer, eu pegasse muitas palavras do francês?
Percebi que o francês é repleto de verbos cujo infinitivo é similar à nossa "segunda conjugação" (er) [tem também uns terminados em ire, mas como o "i" tem som de "a" achei que talvez a coisa desandasse um pouco], e muito provavelmente se pegássemos palavras [como manger] deles teríamos uma infinidade de palavras novas terminadas em "er" (e é possível que isso inclusive tenha ocorrido nos tempos em que o francês era a língua popzinha).
Assim, minha conclusão foi a seguinte: não tem por que eu me preocupar com isso. Estamos criando verbos com "ar" agora simplesmente porque não temos coisa melhor com que criar. Por acaso, agora é o momento de a nossa língua "se orgir" [fazer orgia? -- ó aí ó um novo verbo gerado on-the-fly com "ir"] com o inglês, e o inglês vai nos trazer palavras com "ar". Mas se no futuro outra língua for a popzinha da vez então talvez nossas regras de produtividade mudem e os verbos novos sejam de uma "classe" diferente.
Enfim... eras isso...
R$
Por exemplo, suponha que tenhamos o verbos refresh e queiramos criar um novo verbo com base nele. O natural hoje é que o chamemos de refreshar, e que versões como refresher ou refreshir soem bizarras.
Ao longo de um bom tempo, andei tentando evitar gerar verbos de primeira conjugações, e até que encontrei alguns casos em que pude fazê-lo sem problemas. Um exemplo é a terminação ecer, que funciona bem com verbos que envolvem "transformação", e normalmente os torna [facultativamente] reflexivos (aliás, isso me causou concluir que o verbo agradecer deveria no mínimo poder ser reflexivo... mas isso aí já é outra história). Palavras como emburrecer e embravecer (tá tá, acho que essas até que se usa normalmente, né?) são exemplos. Startecer seria um bom exemplo de algo vindo do inglês. Percebi que, quando estou bravo e quero dizer que alguém fez alguma burrada, digo que essa pessoa já
Tendo a pensar que foi essa "forçação" na criação de palavras que me tornou menos resistente a novos verbos com outras conjugações, já que me fez ouvir bem mais algo que antes me incomodava aos ouvidos. E é bastante por ter me acostumado a aceitar até que bem essas novas regras que eu creio que seria possível, talvez, ainda, fazer com que outros também o façam.
Mesmo assim, por algum motivo, tem algumas palavras que, apesar de raras, simplesmente já me soavam melhores na segunda conjugação desde o início. Um bom exemplo foi o verbo merger, que gerei a partir de uma tradução direta da palavra merge em inglês (que ironicamente normalmente é traduzida pra um verbo de primeira conjugação, a saber, mesclar). Outro exemplo é apender (sei lá, talvez tenha soado parecido com aprender (?)), que ironicamente tem uma versão em italiano, apesar de eu o ter gerado com base no verbo append, em inglês.
Bom... algo que também percebi com esse "esforço" foi que tem alguns particípios que aos meus ouvidos simplesmente não causam dano algum ao trocar um "a" por um "i". Um bom exemplo é ressequido, que minha vó vive usando. Ora... se existe um ressequido, por que não existir um verbo ressequir? Outra palavra foi desboquida (sem boca), que me parece até fazer sentido existir pra fazer oposição a desbocada (que só fala palavrão).
É claro que essa regra não funciona muito bem pra _muitos_ verbos. Trocar o "a" pelo "i" em particípios como sentado, amado, falado, pulado ou provado não funciona muito bem. Mesmo assim, é verdade que me acostumei a gerar novos verbos com "ir" toda vez que uma palavra do inglês me é emprestada. Verbos como refuse e request, dos quais a tradução normalmente não me vem à mente, são vítimas diretas desse tipo de generalização. Algumas até me agradam, como load (nunca gostei de "loadear").
[agora eu tava pensando que talvez enir fosse um fim bom pra criar coisas novas, como writenir, drivenir ou rulenir........ mas talvez seja só bom pra mim mesmo v_V]
É claro que meu objetivo não é eliminar completamente a produtividade da primeira conjugação... e por isso eu de vez em quando me obrigo a aceitar que simplesmente a tradução de algo possa receber um "ar". Também, nada me impediria de gerar verbos em conjugações que a gente ainda não tem -- meus exemplos preferidos seriam transeur e conteur, relacionados a transeunte e conteúdo, respectivamente.
Plot twist... (?)
Ok ok... essa postagem já estava há tempos pra ser escrita e nunca era publicada. Minha paranóia durou bastante tempo, mas eu nunca tinha tomado "boa vontade" de vir aqui e escrever tudo isso [ou, se o tinha feito, não lembro]. Mas algo me ocorreu umas duas semanas atrás: o que aconteceria se, em vez de pegar palavras do inglês, como estou acostumado a fazer, eu pegasse muitas palavras do francês?
Percebi que o francês é repleto de verbos cujo infinitivo é similar à nossa "segunda conjugação" (er) [tem também uns terminados em ire, mas como o "i" tem som de "a" achei que talvez a coisa desandasse um pouco], e muito provavelmente se pegássemos palavras [como manger] deles teríamos uma infinidade de palavras novas terminadas em "er" (e é possível que isso inclusive tenha ocorrido nos tempos em que o francês era a língua popzinha).
Assim, minha conclusão foi a seguinte: não tem por que eu me preocupar com isso. Estamos criando verbos com "ar" agora simplesmente porque não temos coisa melhor com que criar. Por acaso, agora é o momento de a nossa língua "se orgir" [fazer orgia? -- ó aí ó um novo verbo gerado on-the-fly com "ir"] com o inglês, e o inglês vai nos trazer palavras com "ar". Mas se no futuro outra língua for a popzinha da vez então talvez nossas regras de produtividade mudem e os verbos novos sejam de uma "classe" diferente.
Enfim... eras isso...
R$
24 de ago. de 2013
Sobre Chico Buarque: Construção
[Essa é uma postagem inútil. No máximo talvez sirva pra instigar-vos a ouvir Chico Buarque. No mais, nem leiais se estiver chata demais]
Um tempo atrás eu andei ouvindo Chico Buarque. Digeri sistematicamente 6 discos dele: Chico Buarque de Hollanda I, II, III e IV, Ópera do Malandro e Construção [as capas dos discos ilustram essa publicação].
"Digerir sistematicamente" pode ter soado como uma expressão "pomposa", mas o que eu quis dizer foi que eu ouvi com bastante atenção repetidas vezes (20x, 30x ou até mais... nem sei) cada um daqueles discos, e fiz o esforço de inclusive decorar boa parte da letra de cada uma de suas músicas.
O leitor que não me conhece talvez ache isso (que acabei de dizer) estranho [ou talvez não espere isso de mim, já que até hoje acho que nunca falei sobre isso], mas esse é o meu comportamento normal ao tratar de música. Escolho um disco para ouvir e o "digiro" (esse é o verbo que eu sempre uso) até conseguir extrair o suficiente pra me sentir bom conhecedor daquela obra.
Bem... como ía dizendo, um tempo atrás [na verdade, boa parte do ano passado e do início desse ano] eu andei ouvindo muito Chico Buarque. É claro que no meio também ouvi a trilha dos Final Fantasy IV e V, e um bom tanto de Chrono Cross, já que afinal música de jogo é o que mesmo me interessa; mas dei grande atenção à música brasileira (acho que numa tentativa de me reaproximar do Brasil, do qual estava longe naquele tempo).
Mas o título dessa postagem não é sobre todos os álbums do Chico Buarque, mas sobre um deles somente, e mais especificamente, na verdade, sobre uma única música contida nele: Construção. Foi o quinto álbum que digeri e tive muito prazer em ouvi-lo, normalmente nas minhas idas e vindas de ônibus a Porto Alegre (quando mais o ouvi já estava aqui no Brasil). Gostaria, porém, de fazer alguns comentários.
Chico Buarque pra mim sempre foi sinônimo de letras absurdamente bem pensadas. Letras como a de Pedro Pedreiro ou Rita (ou Homenagem ao Malandro, a primeira sua que ouvi) pra mim foram os grandes motivos de eu tê-lo começado a ouvir, pra falar a verdade. Se o segundo disco foi menos "samba" (como o de Juca ou o de Tem Mais Samba, por exemplo), o seu terceiro disco compensa com a minha música preferida Januária, e outras como Roda Viva, O Velho, Sem Fantasia........ táá, já deu pra perceber qual meu disco preferido.
Os arranjos de suas músicas, também, não consigo deixar de elogiar. Tudo muito bem pensado, com um solinho de flauta aqui, um trombone ali... o cara é um gênio! E o que mais me assusta é que o cara chegava a lançar mais do que um disco por ano. Como é que consegue? O_O
Enfim... mas aí eu cheguei ao Construção, sobre o qual eu já tinha acumulado uma expectativa gigantesca através de conversas com amigos meus que do Chico só conheciam esse álbum ou que o tinham como seu preferido. A primeira música me agrada affuuuu* e foi durante muito tempo a minha preferida do álbum, graças às tantas rimas com verbos na terceira conjugação (ir) que tem (eu tive meio paranóico com esses verbos durante boa parte do início do ano). Depois vem Cotidiano, numa versão tensa e "progressiva" (a orquestra vai crescendo aos bem poucos ao longo da música) e que parece tentar passar ares de "ruindade" na rotina do narrador, diferentemente da versão do Seu Jorge v_V
A terceira música foi a que menos me agradou, apesar da cuíca divertida ao longo de toda ela... e daí chegamos à Construção, em que eu então era obrigado a baixar o volume pra não estourar meus ouvidos (a música é muito barulhenta em algumas partes). Como não dava pra digerir ouvindo o disco inteiro [era muito grande e complexa], eu acabei tirando um tempo pra ouvir somente ela, em loop, durante várias viagens de bus.
Mas antes de continuar comentando sobre a música em si, só gostaria de continuar com o meu passeio pelo álbum. O que vem a seguir, ou seja, Cordão, foi uma daquelas músicas que, se inicialmente achei bastante chatas, ao longo do tempo aprendi a apreciar. Me agradam nessa música também as rimas de verbos em segunda (er) e terceira conjugação (ir), e o seu finzinho, que sempre fazia ficar tentando gerar novas frases começando com "enquanto eu puder cantar ...".
Prosseguindo, ao chegar em Olha Maria eu me obrigava a aumentar o volume de volta (especialmente porque a música coincidia com o momento em que o ônibus estava passando pelas pontes do Guaíba, e o barulho do vento + motor do ônibus causavam um ruído bastante desagradável). Olha Maria pra mim é boa por seu arranjo, e não por sua letra, o que a torna parecida com Construção, mas eu chego lá xP
As duas músicas posteriores me agradavam como um todo: a letra era legal e o ritmo "cativante". Eu não sei o contexto em que o Chico escreveu Samba de Orly, mas se eu tivesse que chutar diria que foi em tempo de exílio político.
Em compensação, Minha História era aquela música que eu sempre tinha vontade de pular. Simplesmente não me agradava. Só tinha uma coisa que a salvava: o fato de ela emendar perfeitamente com Acalanto, que encerra o disco com chave de ouro.
...
Agora que eu já cumpri com minha necessidade de passear pelo disco, posso comentar sobre a música Construção sem peso na consciência. Mas primeiro:
Ao ouvir pelas primeiras vezes, achei excelente: um amigo me tinha dito que ele usava as mesmas palavras em outra ordem e gerava uma nova música, e tomei isso por verdade. Ao longo do tempo, percebi algumas irregularidades, como a existência de um "pródigo" na segunda estrofe que não existia na primeira, ou o fato de que nem tudo rimava lá muito bem.
Isso fez a minha opinião sobre a música cair lá pra baixo: grandes bosta usar algumas palavras idênticas. Parecia mais preguiça da parte do autor do que uma obra de "arte". E a minha conclusão foi: Construção é overrated. Um amigo até argumentou que todos os versos terminam em proparoxítona (o que é tri), mas não achei tão grandes coisas.
Mas daí eu comecei a ouvi-la em loop, como disse... e notei algumas coisas legais (na real, algumas eram óbvias e eu já tinha notado antes, mas é legal dizer). Acabei concluindo que a música é boa por seu arranjo, e não pela sua letra (e é isso que a torna similar a Olha Maria).
Bem, como eu já disse, a música vai crescendo, crescendo, crescendo, até estourar no que então vira uma versão mais curta de Deus lhe Pague. Pelo que dá pra entender, a primeira estrofe conta a história de um homem "bom", que sai pra trabalhar na construção, pesadamente. Ele bebeu, soluçou, se embriagou e, finalmente, "tropeçou no céu como se fosse um bêbado" [1min26] (e aqui entram as cordas pela primeira vez na música, me dando um ar de "vazio", bem quando ele está flutuando "no ar como se fosse um pássaro"). Ele se espatifa [1min40] (ar cordas descem tristemente) e morre na contramão atrapalhando o tráfego: as "buzinas" surgem [1min56] em dissonantes, barulhentamente [detalhe que "barulhento" é mais um particípio presente que concorda em gênero], mas sem perder a música por trás do tudo.
O ar de 007 do fim delas [2min06] marca o início de uma nova estrofe, dessa vez de um bêbado, egoísta ["amou daquela vez como se fosse o último"] que trái a mulher ["beijou sua mulher como se fosse a única"] e que não gosta dos filhos. Ele já chega na construção bêbado ["atravessou a rua com seu passo bêbado", etc...], e as cordas e os bocais já deixam toda uma tensão no ar. Quando a letra fala em "tráfego" denovo [2min52], novas "buzinas" agora surgem (não mais os bocais, mas as vozes em dissonantes incômodas também), que logo somem para a continuação da música.
A tensão aumenta até que finalmente ele também "tropeçou no céu como se ouvisse música"... e a tensão toda que os bocais produziam em notas longas se dissipa em uma melodia e um ritmo pensado [3min29].
Muita coisa acontece na música até o início da nova estrofe, mas eu não consigo ver grandes lógicas com a letra. Na terceira estrofe, a música cresce e se aviolenta, mas termina similar a como ela fica aos 3min56, quando o homem da segunda estrofe "morreu na contramão atrapalhando o público". É como se essa terceira estrofe fosse desimportante, ou como se ela tivesse sido posta na música depois de já pronta... ou algo assim. Sei lá...
Por fim, a música cresce, cresce, cresce, e "explode" numa segunda versão de Deus lhe Pague, dessa vez não tão "tensa" e "violenta", mas muito mais cheia de "melodia" e um pouco mais devagar.
[Quando a música termina, já estou esperando o início da outra, no tom certinho e tudo mais]
Era isso. Só queria comentar sobre esses detalhes da música que achei interessantes.
*: fui questionado sobre esse uso da palavra affuuuu anteontem e fiquei curioso sobre se ele é "correto" pra todos os que me ledes. É?
Um tempo atrás eu andei ouvindo Chico Buarque. Digeri sistematicamente 6 discos dele: Chico Buarque de Hollanda I, II, III e IV, Ópera do Malandro e Construção [as capas dos discos ilustram essa publicação].
"Digerir sistematicamente" pode ter soado como uma expressão "pomposa", mas o que eu quis dizer foi que eu ouvi com bastante atenção repetidas vezes (20x, 30x ou até mais... nem sei) cada um daqueles discos, e fiz o esforço de inclusive decorar boa parte da letra de cada uma de suas músicas.
O leitor que não me conhece talvez ache isso (que acabei de dizer) estranho [ou talvez não espere isso de mim, já que até hoje acho que nunca falei sobre isso], mas esse é o meu comportamento normal ao tratar de música. Escolho um disco para ouvir e o "digiro" (esse é o verbo que eu sempre uso) até conseguir extrair o suficiente pra me sentir bom conhecedor daquela obra.
Bem... como ía dizendo, um tempo atrás [na verdade, boa parte do ano passado e do início desse ano] eu andei ouvindo muito Chico Buarque. É claro que no meio também ouvi a trilha dos Final Fantasy IV e V, e um bom tanto de Chrono Cross, já que afinal música de jogo é o que mesmo me interessa; mas dei grande atenção à música brasileira (acho que numa tentativa de me reaproximar do Brasil, do qual estava longe naquele tempo).
Mas o título dessa postagem não é sobre todos os álbums do Chico Buarque, mas sobre um deles somente, e mais especificamente, na verdade, sobre uma única música contida nele: Construção. Foi o quinto álbum que digeri e tive muito prazer em ouvi-lo, normalmente nas minhas idas e vindas de ônibus a Porto Alegre (quando mais o ouvi já estava aqui no Brasil). Gostaria, porém, de fazer alguns comentários.
Chico Buarque pra mim sempre foi sinônimo de letras absurdamente bem pensadas. Letras como a de Pedro Pedreiro ou Rita (ou Homenagem ao Malandro, a primeira sua que ouvi) pra mim foram os grandes motivos de eu tê-lo começado a ouvir, pra falar a verdade. Se o segundo disco foi menos "samba" (como o de Juca ou o de Tem Mais Samba, por exemplo), o seu terceiro disco compensa com a minha música preferida Januária, e outras como Roda Viva, O Velho, Sem Fantasia........ táá, já deu pra perceber qual meu disco preferido.
Os arranjos de suas músicas, também, não consigo deixar de elogiar. Tudo muito bem pensado, com um solinho de flauta aqui, um trombone ali... o cara é um gênio!
Enfim... mas aí eu cheguei ao Construção, sobre o qual eu já tinha acumulado uma expectativa gigantesca através de conversas com amigos meus que do Chico só conheciam esse álbum ou que o tinham como seu preferido. A primeira música me agrada affuuuu* e foi durante muito tempo a minha preferida do álbum, graças às tantas rimas com verbos na terceira conjugação (ir) que tem (eu tive meio paranóico com esses verbos durante boa parte do início do ano). Depois vem Cotidiano, numa versão tensa e "progressiva" (a orquestra vai crescendo aos bem poucos ao longo da música) e que parece tentar passar ares de "ruindade" na rotina do narrador, diferentemente da versão do Seu Jorge v_V
A terceira música foi a que menos me agradou, apesar da cuíca divertida ao longo de toda ela... e daí chegamos à Construção, em que eu então era obrigado a baixar o volume pra não estourar meus ouvidos (a música é muito barulhenta em algumas partes). Como não dava pra digerir ouvindo o disco inteiro [era muito grande e complexa], eu acabei tirando um tempo pra ouvir somente ela, em loop, durante várias viagens de bus.
Mas antes de continuar comentando sobre a música em si, só gostaria de continuar com o meu passeio pelo álbum. O que vem a seguir, ou seja, Cordão, foi uma daquelas músicas que, se inicialmente achei bastante chatas, ao longo do tempo aprendi a apreciar. Me agradam nessa música também as rimas de verbos em segunda (er) e terceira conjugação (ir), e o seu finzinho, que sempre fazia ficar tentando gerar novas frases começando com "enquanto eu puder cantar ...".
Prosseguindo, ao chegar em Olha Maria eu me obrigava a aumentar o volume de volta (especialmente porque a música coincidia com o momento em que o ônibus estava passando pelas pontes do Guaíba, e o barulho do vento + motor do ônibus causavam um ruído bastante desagradável). Olha Maria pra mim é boa por seu arranjo, e não por sua letra, o que a torna parecida com Construção, mas eu chego lá xP
As duas músicas posteriores me agradavam como um todo: a letra era legal e o ritmo "cativante". Eu não sei o contexto em que o Chico escreveu Samba de Orly, mas se eu tivesse que chutar diria que foi em tempo de exílio político.
Em compensação, Minha História era aquela música que eu sempre tinha vontade de pular. Simplesmente não me agradava. Só tinha uma coisa que a salvava: o fato de ela emendar perfeitamente com Acalanto, que encerra o disco com chave de ouro.
...
Agora que eu já cumpri com minha necessidade de passear pelo disco, posso comentar sobre a música Construção sem peso na consciência. Mas primeiro:
Ao ouvir pelas primeiras vezes, achei excelente: um amigo me tinha dito que ele usava as mesmas palavras em outra ordem e gerava uma nova música, e tomei isso por verdade. Ao longo do tempo, percebi algumas irregularidades, como a existência de um "pródigo" na segunda estrofe que não existia na primeira, ou o fato de que nem tudo rimava lá muito bem.
Isso fez a minha opinião sobre a música cair lá pra baixo: grandes bosta usar algumas palavras idênticas. Parecia mais preguiça da parte do autor do que uma obra de "arte". E a minha conclusão foi: Construção é overrated. Um amigo até argumentou que todos os versos terminam em proparoxítona (o que é tri), mas não achei tão grandes coisas.
Mas daí eu comecei a ouvi-la em loop, como disse... e notei algumas coisas legais (na real, algumas eram óbvias e eu já tinha notado antes, mas é legal dizer). Acabei concluindo que a música é boa por seu arranjo, e não pela sua letra (e é isso que a torna similar a Olha Maria).
Bem, como eu já disse, a música vai crescendo, crescendo, crescendo, até estourar no que então vira uma versão mais curta de Deus lhe Pague. Pelo que dá pra entender, a primeira estrofe conta a história de um homem "bom", que sai pra trabalhar na construção, pesadamente. Ele bebeu, soluçou, se embriagou e, finalmente, "tropeçou no céu como se fosse um bêbado" [1min26] (e aqui entram as cordas pela primeira vez na música, me dando um ar de "vazio", bem quando ele está flutuando "no ar como se fosse um pássaro"). Ele se espatifa [1min40] (ar cordas descem tristemente) e morre na contramão atrapalhando o tráfego: as "buzinas" surgem [1min56] em dissonantes, barulhentamente [detalhe que "barulhento" é mais um particípio presente que concorda em gênero], mas sem perder a música por trás do tudo.
O ar de 007 do fim delas [2min06] marca o início de uma nova estrofe, dessa vez de um bêbado, egoísta ["amou daquela vez como se fosse o último"] que trái a mulher ["beijou sua mulher como se fosse a única"] e que não gosta dos filhos. Ele já chega na construção bêbado ["atravessou a rua com seu passo bêbado", etc...], e as cordas e os bocais já deixam toda uma tensão no ar. Quando a letra fala em "tráfego" denovo [2min52], novas "buzinas" agora surgem (não mais os bocais, mas as vozes em dissonantes incômodas também), que logo somem para a continuação da música.
A tensão aumenta até que finalmente ele também "tropeçou no céu como se ouvisse música"... e a tensão toda que os bocais produziam em notas longas se dissipa em uma melodia e um ritmo pensado [3min29].
Muita coisa acontece na música até o início da nova estrofe, mas eu não consigo ver grandes lógicas com a letra. Na terceira estrofe, a música cresce e se aviolenta, mas termina similar a como ela fica aos 3min56, quando o homem da segunda estrofe "morreu na contramão atrapalhando o público". É como se essa terceira estrofe fosse desimportante, ou como se ela tivesse sido posta na música depois de já pronta... ou algo assim. Sei lá...
Por fim, a música cresce, cresce, cresce, e "explode" numa segunda versão de Deus lhe Pague, dessa vez não tão "tensa" e "violenta", mas muito mais cheia de "melodia" e um pouco mais devagar.
[Quando a música termina, já estou esperando o início da outra, no tom certinho e tudo mais]
Era isso. Só queria comentar sobre esses detalhes da música que achei interessantes.
*: fui questionado sobre esse uso da palavra affuuuu anteontem e fiquei curioso sobre se ele é "correto" pra todos os que me ledes. É?
10 de ago. de 2013
Coisas aleatórias, O "E gaudério" e... uma viagem minha (?)
Um conhecido um tempo atrás me chamou a atenção para o quanto o E aparece nas nossas palavras mais gaudérias. Enquanto conversando sobre isso com um outro amigo, ele o chamou de "E gaudério", e o título dessa publicação [tradução de "post" pelo Facebook] é uma referência a isso.
Dois dias atrás, achei meu tio na cozinha de casa preparando doce de pêssego com iogurte. Xinguei-o, porque achei a combinação bizarra, no que meu tio me retrucou dizendo que eu era muito "reclamento". "Reclamento"? Apesar de a palavra parecer perfeitamente aceitável [pelo menos pra mim], me fez perceber/concluir/supor (?) algumas coisas que achei que valiam a pena comentar aqui.
Quando uma pessoa fala demais, ela é bem faladeira. Se ela e outra brigam, então fazem um brigueiro. O brigueiro tem outro nome -- que minha avó usa bastante: um entrevero [esse definitivamente sem um "i" antes do "r"]. E, quando pedem desculpa um pro outro, fazem uma choradeira.
Tenho certeza de que tem muitas outras palavras com esse "E" mágico em que eu não consegui pensar. Enquanto pensava nessas acima, porém, lembrei de mais algumas que não tem o E:
O nome daquela agüinha que fica na sacola do lixo eu tenho por "churríu" [que também é o nome da água que se "expele" quando se está com diarréia... HUEHAUEHAUHE]; quanto tem muito mosquito demais, minha mãe alterna entre "Que mosquital!", "Que mosquitama!" e "Que mosquitume!".
[por acaso, olhei esse "dicionário" e, bem, no início parecia que nem tinha tanto E, mas as palavras mais do fim meio que pareceram concordar com essa sugestão de que "ter E engaucheia as palavras"]
Nos últimos tempos, andei lendo um pouco sobre as conjugações dos verbos em latim. Finalmente entendi por que o verbo não é referido pelo infinitivo como em português: os verbos em latim têm mais de um infinitivo v_V O normal, daí, é aquela forma "amo" [não consegui pôr a "tenuta" em cima do o D=], em vez de "amare".
Como já provavelmente sabeis, meu conhecimento é todo dependente de wikipedia (e wiktionary) e, bem, não é lá muito aprofundado. Assim, o tal de "particípio presente ativo" foi só o nome a que cheguei graças às tabelas de conjugações apresentadas no wiktionary. Anyways, quando o assunto é latim, essas fontes me parecem bem completas [mas, óó, denovo: não sou lá um bom conhecedor do assunto].
(daqui à frente, passarei a chamá-lo de "particípio presente", já que é assim que o wiktionary chama a mesma construção nas tabelas dos verbos em italiano)
Mas o que que é o tal "particípio presente", afinal? Definir agora me é difícil, mas posso exemplificar: cantante, amante, crescente, nascente, constituinte, pedinte. Essas "formas" não aparecem nas nossas tabelas de verbos do português, apesar de usadas o tempo todo. Apesar de derivadas de verbos, em português elas tomam o lugar de adjetivos ("Que criança irritante!") e substantivos ("Viajantes deixavam e chagavam a todo momento"). Em alemão, aprendi que esses particípios se chamam "Partizip I" [e, aliás, foram o grande motivador de eu ter ido atrás da sua versão em latim: não aceitei que o alemão pudesse ter um nome pra essa estrutura e o latim não u.u].
No exemplo do meu tio, "reclamento" seria uma variação da palavra "reclamante". Até aí tudo bem. Mas algo me chama a atenção: "reclamento" concorda em gênero!
Desde que a presidenta Dilma tomou posse, uma discussão sem sentido sobre a existência da concordância dos particípios presentes em gênero tomou conta da mídia. A palavra presidenta já tinha sido usada até mesmo no século XIX. Mesmo assim, jornalistas Brasil afora saíram discutindo sobre a corretude dessa palavra. Nós gaúchos, como eu tive o prazer de constatar, já estávamos eras à frente, concordando desde sempre em gênero nossos "particípios presentes" (lol not -- mas isso bem que dava uma matéria nO Bairrista n_n).
O nosso "bá" frequentemente adquire valores diferentes conforme a vogal usada. Apesar de oficialmente o chamarmos de "bá", em referência a "barbaridade", daonde a palavra [muito provavelmente] saiu, a vogal é flexível, podendo ser trocada por qualquer outra (o que inclusive nos fazia, quando estávamos na Alemanha, dizer que o "Bá" era a expressão mais polivalente da nossa língua portuguesa no sul do Brasil). "Bó... xingou a mãe", "Biii... fudeu", ou "Bããã" saem toda hora, e ao menos da minha parte são inevitáveis.
Tem um bá que me surpreende, mesmo assim, e que cada vez mais tenho ouvido: um "Bäi" [a vogal fica entre o "a" e o "e", e indica que algo não deu certo ou algo ruim ocorreu -- tipo um SegFault 10 minutos antes de terminar o prazo pra entregar um trabalho]. Uns colegas meus o tem inclusive escrito ultimamente, mas não usando o "ä" (porque, afinal, isso é bem cara de coisa minha), mas usando "e" no lugar. Problema é que durante a fala, o "e" não representa bem o som, e inclusive soa muito errado só dizer "bei". O "e" precisa de uma "componente" de "a", e, bem, não faz parte da língua.
E aí é que entra o meu devaneio! Eu gosto de enxergar língua como moda. Se alguém influente sai usando alguma palavra então é muito mais provável que ela caia na boca dos outros; se alguém nem tão importante a sai usando, chances são de que ela nem seja lembrada em algum tempo. Quanto aos sons, eu gosto de pensar que um som numa língua permanece nela enquanto houver bastantes palavras que o preservem. Se temos somente uma palavra com certo som, então provavelmente ele não seja considerado parte da língua; mas e se o puséssemos em várias palavras novas? E se as pessoas quisessem usá-lo por qualquer motivo? (se fosse "fashion", seguindo a analogia da moda -- regionalismo gaúcho poderia ser um aspecto útil) Fiquei pensando se não seria legal [apesar de impossível ou quase improvável] se pudéssemos inserir esse novo som à nossa língua.
Enfim... enfim... a moral é que eu não gosto de ver meus colegas escrevendo "bei" e ficaria mais satisfeito se tivéssemos uma letra/diacrítico pra representar esse som em especial. Garanto que "bá" não é a única palavra em que esse tipo de coisa acontece, apesar de não ter qualquer outro exemplo no momento.
Mas isso é só um devaneio u.u
R$
Dois dias atrás, achei meu tio na cozinha de casa preparando doce de pêssego com iogurte. Xinguei-o, porque achei a combinação bizarra, no que meu tio me retrucou dizendo que eu era muito "reclamento". "Reclamento"? Apesar de a palavra parecer perfeitamente aceitável [pelo menos pra mim], me fez perceber/concluir/supor (?) algumas coisas que achei que valiam a pena comentar aqui.
A presença do "E gaudério"
A primeira delas, e mais importante, era a presença do "E gaudério". Ora, se o verbo era "reclamar", o esperado seria que eu fosse "reclamante", não? Bem, não é o que me parece acontecer no "dialeto interiorano" [só uma tentativa de outra forma de dizer "gaudério" sem dizê-lo u.u]. A seguir, seguem alguns exemplos que o meu conhecido usou:Quando uma pessoa fala demais, ela é bem faladeira. Se ela e outra brigam, então fazem um brigueiro. O brigueiro tem outro nome -- que minha avó usa bastante: um entrevero [esse definitivamente sem um "i" antes do "r"]. E, quando pedem desculpa um pro outro, fazem uma choradeira.
Tenho certeza de que tem muitas outras palavras com esse "E" mágico em que eu não consegui pensar. Enquanto pensava nessas acima, porém, lembrei de mais algumas que não tem o E:
O nome daquela agüinha que fica na sacola do lixo eu tenho por "churríu" [que também é o nome da água que se "expele" quando se está com diarréia... HUEHAUEHAUHE]; quanto tem muito mosquito demais, minha mãe alterna entre "Que mosquital!", "Que mosquitama!" e "Que mosquitume!".
[por acaso, olhei esse "dicionário" e, bem, no início parecia que nem tinha tanto E, mas as palavras mais do fim meio que pareceram concordar com essa sugestão de que "ter E engaucheia as palavras"]
A presença de um "Particípio Presente Ativo"
A segunda delas ainda vai merecer uma postagem por si só, mas vou fazer um comentário sobre o assunto aqui.Nos últimos tempos, andei lendo um pouco sobre as conjugações dos verbos em latim. Finalmente entendi por que o verbo não é referido pelo infinitivo como em português: os verbos em latim têm mais de um infinitivo v_V O normal, daí, é aquela forma "amo" [não consegui pôr a "tenuta" em cima do o D=], em vez de "amare".
Como já provavelmente sabeis, meu conhecimento é todo dependente de wikipedia (e wiktionary) e, bem, não é lá muito aprofundado. Assim, o tal de "particípio presente ativo" foi só o nome a que cheguei graças às tabelas de conjugações apresentadas no wiktionary. Anyways, quando o assunto é latim, essas fontes me parecem bem completas [mas, óó, denovo: não sou lá um bom conhecedor do assunto].
(daqui à frente, passarei a chamá-lo de "particípio presente", já que é assim que o wiktionary chama a mesma construção nas tabelas dos verbos em italiano)
Mas o que que é o tal "particípio presente", afinal? Definir agora me é difícil, mas posso exemplificar: cantante, amante, crescente, nascente, constituinte, pedinte. Essas "formas" não aparecem nas nossas tabelas de verbos do português, apesar de usadas o tempo todo. Apesar de derivadas de verbos, em português elas tomam o lugar de adjetivos ("Que criança irritante!") e substantivos ("Viajantes deixavam e chagavam a todo momento"). Em alemão, aprendi que esses particípios se chamam "Partizip I" [e, aliás, foram o grande motivador de eu ter ido atrás da sua versão em latim: não aceitei que o alemão pudesse ter um nome pra essa estrutura e o latim não u.u].
No exemplo do meu tio, "reclamento" seria uma variação da palavra "reclamante". Até aí tudo bem. Mas algo me chama a atenção: "reclamento" concorda em gênero!
Desde que a presidenta Dilma tomou posse, uma discussão sem sentido sobre a existência da concordância dos particípios presentes em gênero tomou conta da mídia. A palavra presidenta já tinha sido usada até mesmo no século XIX. Mesmo assim, jornalistas Brasil afora saíram discutindo sobre a corretude dessa palavra. Nós gaúchos, como eu tive o prazer de constatar, já estávamos eras à frente, concordando desde sempre em gênero nossos "particípios presentes" (lol not -- mas isso bem que dava uma matéria nO Bairrista n_n).
Só mais um devaneio
Tá... mudando dos paus pra canoa... quero falar do "bá".O nosso "bá" frequentemente adquire valores diferentes conforme a vogal usada. Apesar de oficialmente o chamarmos de "bá", em referência a "barbaridade", daonde a palavra [muito provavelmente] saiu, a vogal é flexível, podendo ser trocada por qualquer outra (o que inclusive nos fazia, quando estávamos na Alemanha, dizer que o "Bá" era a expressão mais polivalente da nossa língua portuguesa no sul do Brasil). "Bó... xingou a mãe", "Biii... fudeu", ou "Bããã" saem toda hora, e ao menos da minha parte são inevitáveis.
Tem um bá que me surpreende, mesmo assim, e que cada vez mais tenho ouvido: um "Bäi" [a vogal fica entre o "a" e o "e", e indica que algo não deu certo ou algo ruim ocorreu -- tipo um SegFault 10 minutos antes de terminar o prazo pra entregar um trabalho]. Uns colegas meus o tem inclusive escrito ultimamente, mas não usando o "ä" (porque, afinal, isso é bem cara de coisa minha), mas usando "e" no lugar. Problema é que durante a fala, o "e" não representa bem o som, e inclusive soa muito errado só dizer "bei". O "e" precisa de uma "componente" de "a", e, bem, não faz parte da língua.
E aí é que entra o meu devaneio! Eu gosto de enxergar língua como moda. Se alguém influente sai usando alguma palavra então é muito mais provável que ela caia na boca dos outros; se alguém nem tão importante a sai usando, chances são de que ela nem seja lembrada em algum tempo. Quanto aos sons, eu gosto de pensar que um som numa língua permanece nela enquanto houver bastantes palavras que o preservem. Se temos somente uma palavra com certo som, então provavelmente ele não seja considerado parte da língua; mas e se o puséssemos em várias palavras novas? E se as pessoas quisessem usá-lo por qualquer motivo? (se fosse "fashion", seguindo a analogia da moda -- regionalismo gaúcho poderia ser um aspecto útil) Fiquei pensando se não seria legal [apesar de impossível ou quase improvável] se pudéssemos inserir esse novo som à nossa língua.
Enfim... enfim... a moral é que eu não gosto de ver meus colegas escrevendo "bei" e ficaria mais satisfeito se tivéssemos uma letra/diacrítico pra representar esse som em especial. Garanto que "bá" não é a única palavra em que esse tipo de coisa acontece, apesar de não ter qualquer outro exemplo no momento.
Mas isso é só um devaneio u.u
R$
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